domingo, março 26, 2006

Beijo

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. Gustav Klimt - "O beijo" 1907/08




Nicoletta Tomas Caravia - Amantes 120

Pretença

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Somos mais do que nós mesmos!
Quando se prossegue; quando não se tem a certeza; quando apesar de tudo, parece certo!
A gritar "Aqui d'El-Rei!"
É porque estamos preenchidos - de mãe, de pai, de amigos, de filhos, de amantes, de gente!
De pátria? De pretença!



"Mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
A roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tetos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-Rei D. João Segundo!»

«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!»

Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!» "

(escusado será dizer : Fernando Pessoa)

domingo, março 12, 2006

Ao som do violoncelo


É por isto que gosto de ler!
Por poder ouvir o som do violoncelo...

"O violoncelista começa a tocar o seu solo como se só para isso tivesse nascido. (...) Os outros músicos olham-no com assombro, o maestro com surpresa e respeito, o público suspira, estremece, o véu de piedade que nublava o olhar agudo da águia é agora uma lágrima. O solo terminou já, a orquestra, como um grande e lento mar, avançou e submergiu suavemente o canto do violoncelo, absorveu-o, ampliou-o como se quisesse conduzi-lo a um lugar onde a música se sublimasse em silêncio, a sombra de uma vibração que fosse percorrendo a pele como a última e inaudível ressonância de um timbale aflorado por uma borboleta"

"...o que impressionava era ter-lhe parecido ouvir naqueles cinquenta e oito segundos de música uma transposição ritmica e melódica de toda e qualquer vida humana, corrente os extraordinária, pela sua trágica brevidade, pela sua intensidade desesperada, e também por causa daquele acorde final que era como um ponto de suspensão deixado no ar, no vago, em qualquer parte, como se, irremediavelmente, alguma coisa ainda tivesse ficado por dizer."

E por poder acreditar, por breves milésimos segundos, que até a morte deixa aquecer as suas mãos, que não são mais gélidas, e se deixa descansar, aninhada, como qualquer mulher, no corpo de um homem.

quarta-feira, março 08, 2006

'Par





"... E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre."

( Miguel Sousa Tavares a propósito da morte de sua mãe )