Lá na aldeia é noite de S Miguel!
2 da manhã.
Maria chega a casa cansada.
Tem 17 anos, é menina responsável, geralmente como diz o poeta, vai formosa e não segura.
Mas hoje sente-se segura.
Isto porque lá na aldeia é noite de S Miguel!
Desde que se lembra anda a Maria nas lides da festa. Chega a Setembro e os afazeres são mais que muitos. Os seus pais vendo-a tão empenhada na vida da paróquia fecham, neste mês, os olhos aos horários de chegada e lá vão sabendo pelas beatas da freguesia que a Maria lá está realmente. Empenhada de corpo e alma.
Talvez não saibam, as beatas (os pais saberão ou não) o que se passa nos bastidores da festa.
É que de ano para ano, vai crescendo a Maria, cresce com os amigos, com os padres que vão passando pela paróquia, com as responsabilidades que em cada S Miguel vai assumindo, e assim vai crescendo a Maria - vai formosa e cada vez mais segura.
E hoje está segura.
Porque lá na aldeia é noite de S. Miguel!
E na memória guarda momentos.
Da primeira quermesse, dos serões passados a preparar cenários e trajes para os bares temáticos, dos admiradores que ano após ano passavam mais tempo do que o necessário ali perto da barraquinha.
"Vai lá Maria, que ele veio só para te ver"
E lá ia a Maria, às vezes feliz, outras contrariada...
E houve aquele dia!
Em que o fogo estava mais preso do que a Maria e rebentou num barulho ensurdecedor. Assustou-se a Maria e apertou com força a mão do Zé, que a ela se tinha juntado para ver o espectáculo pirotécnico da noite. Isto sem se aperceber, e passado o susto se viu envergonhada de mão entrelaçada... não segura... não segura... Mas sentiu-se tão formosa!
E foi crescendo a Maria, e foi crescendo a aldeia que agora já é vila.
Mas a Maria volta todos os anos por alturas da festa de S Miguel em Queijas.
Hoje está segura!
Mas a festa já não a faz sentir tão formosa...







