terça-feira, outubro 29, 2013

Travessa da Espera

Havia na Travessa da Espera um homem de sorriso triste.
Passava gente na travessa, mas passavam por ele?
Saía, manhã cedo, das portas do prédio cor de rosa. Olhar atento. Ou seria desconfiado? Distante? E perdia-se na cidade.
Vestia elegantemente a sua "mentira". Ou não vivem todos os homens uma mentira restando-lhes apenas escolher a "sua"!?
Mas que esconde aquela boca de sorriso triste? Lábios desenhados, carnudos, barba densa cuidadosamente aparada.
Quem beija aquela boca?
Quem transforma aquele sorriso?
É que os olhos que acompanham o triste sorriso são de um castanho profundo e brilhante. Adivinha-se, se quiserem por momentos estar atentos àquele olhar, uma imensa capacidade de sentir.
Quem suporta aquele olhar?
Quem receberá afinal toda a intensidade, teia mesclada de intensos pesares, imensos desejos, pensamentos profundos?

Passa na travessa o homem de olhar atento! Será triste o seu sorriso?
É que alguém o amou esta noite!
Não percebem vocês que passam por ele e não o vêem! Mas por momentos alguém amou o homem de sorriso triste e olhar intenso, e por momentos a "sua mentira" foi despida acompanhando a roupa que se espalhou pelo chão. E os olhos que o olharam sem medo e a boca que encontrou os seus lábios, deixaram uma marca indistinta, serena, que vai acompanha-lo hoje, pelo menos hoje, quando desaparecer invisível para muitos olhares, nas ruas da sua Lisboa.




segunda-feira, outubro 21, 2013

Nos braços de José

A D Júlia faz 40 anos!

Acorda de manhã, olha-se ao espelho e demora-se a revisitar a sua imagem.
Que estranho.... Que desencontros ocorrem entre pensamentos dispares.

Está lá, o mesmo olhar de menina, igual aquela fotografia, da primavera do seus 7 anos, debaixo da oliveira do Sr Joaquim, nesse dia tropeçou, partiu um dente e chorou no colo da mãe para passados poucos minutos sair novamente para o campo a brincar.
Ainda hoje, se reconhece nesse lugar de menina, que se refugia num abraço do qual sai restabelecida. Hoje quem a abraça é o José, que dorme ainda ali mesmo ao lado, na cama que partilham, com beijos, abraços e sonhos.
Hoje faz 40 anos!

Mais pequena olhava para os crescidos, sabia-os velhos, pesados, vergados pela responsabilidade, cheios de certezas, todos sabiam o que fazer e qual o seu lugar no mundo. Essa Júlia existe? É assim que a sua pequenina Joana a vê - mãe. Mãe Júlia! Quando foi que aconteceu que passou a ser esses outros - os adultos?
Está lá tudo, na imagem do espelho, que a olha de volta, com a mesma sensação de.......

... o melhor... é voltar para os braços do José, enquanto a Joana não acorda....

(Quadro - Mulher em frente do Espelho -  Óleo sobre tela de Christoffer Wilhelm Eckersberg)



sábado, outubro 05, 2013

Crescer também é isto!

Hoje houve uma dor.
Faz-se assim o anúncio das dores: "hoje houve uma dor!"
Que fazem os pais face à dor de um filho?
Conflito interno e calado, entre o desejo de minimizar e um eco gritante de uma angustia que cresce cá dentro.
Não posso proteger-te da dúvida, nem da angustia, nem das escolhas.
Não posso escolher por ti...
Há dor!
Confio! Aceito! Estou cá!
Mas a dor é tua...
A dor que sinto, eco da tua, guardo-a para mim.
Não precisas dela!
Hoje houve uma dor!
E assim se cresce.