quinta-feira, outubro 29, 2015

Há palavras que nos beijam

Foto de Steve Schapiro -
René Magritte no MOMA, New York (1963)
Há palavras que nos beijam 
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Alexandre O'Neill, in 'No Reino da Dinamarca' 

segunda-feira, outubro 26, 2015

MasterChef



"Mãe, tens de ir para o MasterChef!"

Como é fácil satisfazer os desejos cá de casa e com comida quase, quase, toda saudável!
:)

domingo, outubro 25, 2015

Sinal - Sebastião da Gama






No passado Domingo o meu irmão mais velho casou-se.
Muitas pessoas não se lembram que tenho um irmão, tão habituados estão a ver-me com a minha irmã.
Tenho sim!
:)
Agora irmão, afilhado, cunhada e sobrinha!
Bem hajam!








Quanto amor me tens,
com amor te pago
Trago-te no dedo,
num anel que trago.
Num anel redondo,
todo de oiro fino,
que é o teu sinal,
que é o teu destino.
Este anel me basta
para bater-te à porta.
Truz! truz! truz! – na rua
como o frio corta!
Como a chuva cai,
como o vento mia!
Mas abriste logo,
que eu é que batia.
(Que outro anel tivera
som que te chamasse?)
Já teu vinho bebo,
para que o frio me passe;
já na tua cama
me aconchego e deito;
já te chamo esposa,
peito contra peito.
como tudo é simples,
como é tudo imenso!
É mistério enorme,
de um anel suspenso!
E eis, na tua mão,
num anel igual,
brilha o teu destino,
luz o meu sinal.



Sebastião da Gama (Vila Nova de Azeitão, Setúbal, 10/4/1924 – Lisboa, 7/2/1952)



terça-feira, outubro 20, 2015

Congo

Ele pergunta à filha:
- Como é que foi não ter estado cá no ano passado?
A filha, nos seus 11 anos cheios de bom senso, mede as palavras que diz. Intui o quão importantes são estas missões para o pai, não quer feri-lo por nada:
- ...o mais chato foi não teres estado cá no Natal!

Algo se aperta no peito dele.
Não sabe ainda como será o Natal deste ano.

Estará de partida em breve. Num desafio difícil, um desinstalar-se. Por ele, pelos outros, até pelos filhos e pelo que assim lhes ensina, quer partir.

É assim, e de tantas outras maneiras, a vida de profissionais que se deslocam, com as organizações internacionais, a países em conflito, enfermeiros, engenheiros, professores, médicos, ... Todos dão um pouco de si. E recebem... tanto...

domingo, outubro 11, 2015

segunda-feira, outubro 05, 2015

Kos - Eros e Thanatos



Ontem, no mesmo dia em que me despedi da ilha de Kos e da 5th Sociodrama Conference,  deram à praia, junto a um hotel (poderia ter sido o meu, e nesta praia que tranquilamente fotografei) os corpos de duas crianças - noticia aqui.

É impossível ter lá estado e não pensar esta questão.
Foi muitas vezes abordada e trabalhada, das mais diversas formas e dos mais diversos ângulos.
E conversada, nos intervalos, almoços e jantares.

Muitas vezes me perguntaram - e Portugal?
Sei que está prevista a integração de cerca de 3000 refugiados, mas até agora muito poucos chegaram. E não é o sonho de ninguém chegar a Portugal.
Já a outros países...

O que ouvi:

Que quem chega aqui, a Kos, não quer ficar, quer seguir rapidamente para a idealizada Europa, a ideia de  oferecer uma tenda e dizer "espera a tua vez de seres colocado em algum lugar" não é bem recebida. Os que chegam são instruídos para não sairem da zona restrita junto da esquadra da policia. Nem mesmo para procurar ajuda médica se necessária.
Pelo que percebi todos os que aqui chegam são identificados e depois encaminhados para algum lugar.

Que o governo local não está muito organizado, não tem políticas claras face a esta situação, são os voluntários que se vão gerindo e encontrando algumas respostas - o que cria, como não podia deixar de ser, tensões entre o governo local e os voluntários.

Que a população já experienciou coisas muito difíceis: os mortos no mar, a falta de condições mínimas de higiene para o acolhimento, um misto de empatia e o sentimento de estarem a ser invadidos por uma situação humana tão marcante para a qual não foram tidos nem achados.

Que são milhares os que já por aqui passaram (nesta ilha pequena de menos de 300 km2)


A Grécia, com uma população de cerca de 10 milhões de habitantes, tem uma comunidade de imigrantes e refugiados que ronda os 3 - 4 milhões. Já não se vêm, em parte nenhuma da Grécia, crianças a brincar sozinhas na rua, ou a irem a pé para a escola. Já ninguém sai de casa sem verificar se está tudo bem fechado, nem viajam com a descontracção de antigamente.

Que países, como a Noruega, recebem os refugiados mas assim que completam os 18 anos não lhes é renovado o visto de residência. E estes miúdos  a maioria sem família ficam soltos na nossa Europa sem fronteiras, sem paradeiro certo, em fuga. Formam o nomeado "
schengen gang".


O que eu vi:

Ao entrar na cidade do nada começam a aparecer tendas de campismo, estão montadas nos passeios, perto do porto. Do outro lado da marginal estão as lojas e restaurantes para turistas. Só se vêm homens, a esmagadora maioria jovens, pergunto-me onde estariam as mulheres e as crianças, provavelmente no interior das tendas longe dos olhares estranhos.

Não vi olhares perdidos, nem rostos enegrecidos pela tristeza e vazio.
Vi jovens a conversar. Alguns riam, brincavam com qualquer assunto que os ocupava. Outros falavam ao telemóvel (quem sabe se com a família e amigos que ficaram para trás).
Alguns pareciam "na maior".
Esta imagem desconcertou-me. Não esperava por ela...
Há seguramente muita insegurança no futuro! Mas há uma etapa que já foi cumprida - a chegada à Europa .

E também pensei... Quantos não estarão a tirar proveito da maior facilidade da abertura das fronteiras, a oportunidade perfeita para a entrada na Europa, mesmo que não seja real o perigo que correm no seu país de origem (será essa a condição para serem considerados refugiados, não?). E arriscam tudo, inclusive a vida, na procura de um futuro europeu. 

E em TODOS os europeus senti a ambivalência.
O respeito e a empatia pelo outro, e pelo seu sofrimento. O profundo desejo de igualdade, de humanidade. O querer poder fazer alguma coisa para com aquele outro que está neste momento sem qualquer futuro possível, em sobrevivência.
Mas também senti o medo, a insegurança que se instala, a desconfiança. O medo do estado islamico, o medo dos assaltos, o medo de perder os postos de trabalho, o medo…

Não tenho conclusões a tirar.
Sei que a guerra interessa a alguns, e que esses alguns fazem o mundo rodar
E que vivemos momentos incertos!