Noite dentro...
Desde muito pequeninos os meus filhos sabem uma coisa:
Se me contarem o pesadelo que tiveram não vão voltar a tê-lo! E podem voltar a dormir!
Esta regra foi transmitida com tanta verdade e certeza que os dois lhe são fieis desde muito pequeninos. Desde que a palavra é um instrumento que podem usar.
O principio simples e intuitivo:
- traduz-se em palavras os afectos confusos - tornando-os "manuseáveis"
- a angustia é projectada para fora e depositada no outro
E resulta quase sempre! (não quero dizer sempre… mas é mesmo quase sempre!)
Acontece vezes sem conta: chamam-me a meio da noite. Oiço meio a dormir a voz entremelada dou um beijo na testa e volto para a cama. Não digo quase nada. Sou apenas empática com a angústia por detrás da história. Muitas vezes de manhã já nem se lembram do pesadelo. Muitas vezes nem eu me lembro do pesadelo!
Mas é tremendo acompanhar assim de perto, sem qualquer censura nem filtro o que pode produzir a mente de uma criança. Olhar de perto os monstros que as habitam, ver a personificação dos seus medos, visualizar os terríficos cenários, ter acesso à mais crua das violências.
Que ninguém ouse dizer que é fácil ser criança!
"Os sonhos são como a tradução para uma língua de coisas intraduziveis de outra; ou como a transposição da linguagem - forçosamente confusa ou complicada - de sentimentos vagos ou complexos, que a redacção normal não pode comportar"
Fernando Pessoa
Podia ter esta banda sonora








