segunda-feira, maio 30, 2016

Ricardo

Passaste por mim sem me ver
Estavas absorto a falar com alguém
Vi-te eu a ti. Mas não te interrompi. Observei-te apenas.
Sabes, pensei que estás igual. Sim, os cabelos estão mais brancos, não fazes como eu afinal que os mascaro com tinturas.
O tempo anula-se, faz sempre isto o tempo…
Parece que ainda ontem estávamos cheios de projectos, de conversas, de partilhas.
Nunca foste muito próximo, mas soubeste de afectos meus, de pensamentos, de teorias sobre a vida e o mundo, conversamos algumas vezes noite dentro.
25 mn, 25 anos, que diferença faz?

E vi-te subir as escadas.
"Estás igual!" - continuava a pensar.
…sim é verdade! Agora somos "os outros" - os adultos… os pais… os que têm um trabalho… etc… etc… e ao mesmo tempo… Eras TU que subias a escada.

Chegaste lá a cima olhaste para trás e viste-me.
E o teu sorriso abriu-se, e os teus olhos sorriram contigo, e mandaste-me um beijo.
E eu sei que para ti eu estou igual!
E é tão bom sabermos que há lugares neste mundo em que permanecemos quem somos, mesmo que fugazmente, passe o tempo que passar.

terça-feira, maio 24, 2016

Ser mãe

Há pontos de vista a partir dos quais algumas coisas se tornam incompreensíveis.
(mesmo que tenha em mim todos os instrumentos pessoais e/ou profissionais para o fazer)
E não há (ou não devia haver!) compreensão possível, na cabeça de uma criança de 7 anos, para uma mãe que escolhe morrer.
De repente esqueci tudo o que sei e aprendi. E senti "Uma mãe não tem direito a querer morrer"



- O suicídio tanto pode ser afirmação da morte como negação da vida. Tanto faz.
- É mentira. E vou explicar: o suicida é aquele que perdeu tudo, menos a vida.
Fernando Sabino

(porque há uma semana o meu filho chegou a casa e disse "a mãe do X morreu", para todos um acidente, mas não para o X, para ele é tudo menos um acidente)



sábado, maio 21, 2016

Noite



Ela conheceu-o de noite.
Apenas pelas circunstancias.
E na noite falaram...
...e nas noites falaram

Ele conheceu-a de noite
Apenas pelas circunstâncias
E na noite a ouviu…
…e nas noites lhe falou

Eles conheceram-se de noite
Apenas pelas circunstâncias.
E um dia encontraram-se

Alheios ao sol perceberam
Que da verdade com que falaram
Nasce uma luz que partilhavam



quarta-feira, maio 18, 2016

"Bééééééé"

Todas elas seguem o pastor de perto.
Ele lá as conta e nota que falta uma.
Chama-a "bééééé"
Ao que ela responde, de uma moita ali por perto, "béééééééé"
Dá ordem para que esperem por ele e vai ao encontro da cabrita desgarrada
"Anda lá Rita!"
E ela foi.



O Contexto: hoje decidi ir a pé para o trabalho - 9 km de descoberta de pormenores da minha Lisboa que me escapam todos os dias. Alto da Ajuda - Rio Seco - Alcantara - Infante Santo - Estrela - Rato - Marques. (Com passagem pelo jardim da estrela que me traz tão boas recordações)

Walk to Work - tenho de fazer isso mais vezes!

terça-feira, maio 17, 2016

Dia Internacional das Histórias de Vida

(dia 16/05 foi o dia internacional das histórias de vida. Ouvi na rádio relatos de vidas únicas, de migrações, de sofrimento, de descobertas, de gente que mudou ou traduz de forma quase caricatural, de tão crua e desconcertante, o mundo de hoje, eu… dou voz às histórias simples… vocês sabem como me encanto com os pormenores!)


O eléctrico passa na rua, Maria sabe-o o das 8h da manhã, nunca ouviu outro eléctrico senão esse, uma atenção selectiva que desenvolveu não sei porquê...era o eléctrico em que ele chegava, quando vinha vê-la logo cedo, antes que a vida dos dois começasse. Costumavam brincar os dois. Diziam que quando se encontravam o mundo parava, que tudo o que existia para além dos dois perdia significado, os seus mundos reorganizavam-se momentaneamente, as prioridades alteravam-se, às vezes até a noção de certo e errado parecia flexibilizar-se. Nada  parecia errado ao ser vivido com ele.
Ouve o eléctrico e é como se esse som pertencesse ao limbo entre o sono e a vigília.
Não quer acordar desse sono em que pode sentir que a realidade não se impôs. Que a vida não lhes mostrou que não havia espaço para os dois.



Trabalho
Eis a realidade que se impõe.
Levanta-se. Sente a casa vazia. Gosta da casa assim, sem olhos para ela, sem horários de outros para conciliar.
Sente-se dona do seu percurso. Sente que cresceu tanto, às vezes é quase mágico saber-se alí, adulta, construtora de si mesma. A sua vida anónima para tantos, pertence-lhe. As escolhas, boas ou más, são suas. E é estranhamente sereno este pensamento.
No banho recorda-o mais uma vez.
Como estará?

O estirador espera por ela,
Um projecto para discutir amanhã, a realidade mais uma vez !…
Embrenha-se com entusiasmo.
Na verdade adora o que faz!
E neste espaço de realidade e de criatividade,  em que o mundo todo se íntegra na sua folha de papel, não parece, na verdade ,que haja espaço para os dois.

Onde andará ele?





quinta-feira, maio 12, 2016

Here we go!




(Que seja ESTA a música de hoje até Sábado!)

sexta-feira, maio 06, 2016

Freud

No dia do 160º aniversário do Freud partilho convosco um texto escrito há uns 11 anos - altura do final da minha formação em psicanálise.



O velho Sigesmundo olhou pela janela.
Lá fora, um gato sentado no beiral, olha a chuva que cai. Em Viena, sem qualquer dúvida, haverá sol! Uma dor lancinante repõe-o em Londres. Como a realidade nos rouba os sonhos, pensou! Tacteou a mesa na sala escurecida e num gesto que, pela força de ser repetido se tornou automático, leva o seu cachimbo à boca. É hoje que o acendo?
E o velho Sigesmundo olhou pela janela.
Se ao menos tivesse tempo para um último livro.
Não me restam forças... sobre o que escreveria?
Há aqueles casos sobre os quais nunca tive tempo de escrever. Lembro-me bem deles!
Doze pacientes cuja história (e patologia) me fascinou! Todos eles com uma estranha disfunção da libido que os faz encontrarem-se periodicamente e terem prazer nisso!!!! Caso estranho este de quererem ter projectos comuns. Fosse esta outra fase da minha vida e com certeza iria encontrar neles comportamentos semelhantes às famílias dos grandes símios em que os adolescentes descobrem o ambiente e se descobrem (curiosos os seus jogos sexuais - dos símios a bem ver!) no seio do grupo.
Nestes, a quem, por falta de denominação e por agora se encontrar mais adequado, chamarei de Psiconautas, a energia libidinal está soberbamente sublimada. São grandes as obras que sonham criar nas longas tardes de primavera que passam em conjunto.
As fantasias neuróticas, com alguns traços maníacos mal disfarçados, levam-nos a falar de bailes com a rainha, viagens conjuntas a países estrangeiros e até, imagine-se, a escreverem livros, que perpetuem a confraria dos Psiconautas.
Esta estranha alteração da libido de que vos falo é visível também num novo mecanismo de defesa, sobre o qual não me resta tempo de vida para teorizar, a que chamei docificação. A libido é aqui sujeita pela força do recalcamento a um desvio/deslocamento. O recalcado imerge então, com recurso à negação, numa espécie de torpor que leva o sujeito a dirigir-se à cozinha e a produzir iguarias ricas em açúcar e ovos. Este estranho mecanismo de defesa, de natureza totalmente neurótica, foi encontrado por mim em todos os psiconatas, mesmo naqueles em que a força do recalcamento é maior e em que este comportamento não se encontra com tanta frequência. Por vezes encontra-se uma variante que se caracteriza pela deslocação a uma loja do ramo para adquirir queijos e enchidos!
Este comportamento é sazonal manifestando-se quase unicamente no primeiro fim de semana da primavera.
Consta que em tais reuniões há recurso a tisanas e outras drogas duvidosas como forma de negação do prazer vivido e partilhado no consumo de tais iguarias.
E o velho Sigesmundo olha pela janela.
IA; TM; SC; FG; ASM; PR; CN; IG; FD; LR; RM; MCP; todos eles fazem parte das suas memórias de futuro (e não é que um individuo foi roubar esta ideia e deu este titulo a um livro!?). São o livro que ficou por escrever do velho Sigesmundo…


Hoje sou eu quem olha pela janela.
E vejo estas vidas que se continuam a escrever com a presença do velho Sigesmundo

quarta-feira, maio 04, 2016

:)


histórias

Que saudades tenho de escrever uma história por aqui…
É que escrever faz bem!
Falta-me o tempo.

segunda-feira, maio 02, 2016

Work in Progress


Para os curiosos: AQUI

domingo, maio 01, 2016

Porque se é mãe todos os dias e de muitas formas! :)

(não esquecendo que tantas vezes os pais são "mães"!!!)