domingo, outubro 29, 2017

Da inocência

Foto da Boop - Av Marginal 

Momentos havia em que a natureza se impunha, forte, impetuosa, alheia às considerações humanas, aos seus desejos e projectos. Às vezes mágica e encantadora, outras tirana e disruptiva, sempre magnânime. 

Era nessas alturas que involuntariamente se sentia esmagada por um mundo tão para além dela própria. Um mundo indiferente ao livre arbítrio, às leis, à moral, a toda e qualquer produção política, filosófica, metafísica. Um mundo que não precisa ser explicado nem entendido, seja porque ciência for. Sem deus nem rei. 

Esmagada e simultaneamente liberta.
A sua pequenez relativiza todo o impacto que possa ter no outro, no mundo. Nada é! E uma leveza inunda-a. Desresponsabilizada de todo e qualquer acto. É indiferente o que faça ou não. Não é necessária, o mundo avançará sem ela, indiferente às suas escolhas, às suas prevaricações, aos seus erros, às suas ousadias, às suas angústias. Nada é!

E ali, naqueles momentos efêmeros, esquece-se até de ser capaz de produzir tais pensamentos. Recua a um tempo de inocência em que o maravilhamento é possível.

(Há pessoas com quem se cruza que têm essa capacidade, de sem saber porquê, fazer com que se sinta de novo menina, capaz de confiar, de se entregar, de "ser verdade", de reencontrar inocência - saberão elas quão raras são?)


terça-feira, outubro 24, 2017

Quando o pensamento nos foge

Foto da Boop - praia de Algés

É-me muito cara a frase de Pessoa "Que prazer ter um livro para ler e não o fazer"
Permite-me de quando em vez fugir sem culpa dos meus afazeres e deixar o pensamento vaguear.
Um destes dias parei o carro aqui, com um texto para escrever em mãos, mas perdi-me por momentos a olhar o rio, a praia, as nuvens, e a na verdade a não atentar a coisa nenhuma.
Os pensamentos foram vários.
E a vontade que de vez em quando me assalta de um momento sem amarras em que pudesse reinventar a minha história. E o pensamento fugiu-me para...
...e depois voltei ao texto!
Que me levou a um bom resultado por sinal! ;)

(Mas vejam lá se o poema de Fernando Pessoa não se encaixa tão bem aqui!)



       Liberdade

          Ai que prazer 
          Não cumprir um dever, 
          Ter um livro para ler 
          E não fazer! 
          Ler é maçada, 
          Estudar é nada. 
          Sol doira 
          Sem literatura 
          O rio corre, bem ou mal, 
          Sem edição original. 
          E a brisa, essa, 
          De tão naturalmente matinal, 
          Como o tempo não tem pressa... 


          Livros são papéis pintados com tinta. 
          Estudar é uma coisa em que está indistinta 
          A distinção entre nada e coisa nenhuma. 


          Quanto é melhor, quanto há bruma, 
          Esperar por D.Sebastião, 
          Quer venha ou não! 


          Grande é a poesia, a bondade e as danças... 
          Mas o melhor do mundo são as crianças, 


          Flores, música, o luar, e o sol, que peca 
          Só quando, em vez de criar, seca. 


          Mais que isto 
          É Jesus Cristo, 
          Que não sabia nada de finanças 
          Nem consta que tivesse biblioteca... 

sábado, outubro 21, 2017

Asterix

E o que faz uma psi quando ao fim de semana se transforma numa solitária motorista dos filhos e ruma a kms de distância de casa?


Isto!

Em Fonte da Telha





quarta-feira, outubro 18, 2017

A borboleta




Escrito pela minha pequena menina Boop quando tinha 7 anos, e hoje, passados 6, voltou a passar pela minha mão, e que bem me soube!
Porque às vezes precisamos de poesia.

Uma borboleta no chão voa com harmonia,
eu ao vê-la poisar adormeço de repente
fecho os olhos e voo como a própria borboleta
asas de par cor de laranja, preto a acompanhar,
um poço avermelhado.

segunda-feira, outubro 16, 2017

Senhora da Serra

"Tocava para as nuvens"    Carlos Farinha   2011

Sentada num penedo, um pouco afastado do caminho, espero. Sei que vão aparecer não tarda, subindo a ladeira, e que antes mesmo de os ver vou ouvir as suas vozes compassadas, ritmadas, e o sino do padre João.
A pedra onde me sento pesará mais de uma tonelada (nem sei bem o quanto é uma tonelada), não consigo saber as reais dimensões, parcialmente enterrada na terra, oferece-me hoje a superfície lisa para encosto.
Ocupa-me a ideia de que esta pedra é imortal (como se lhe conferisse vida, num jogo ao desafio com o criador), que permanecerá indiferente a todos os homens que subirão a serra, a todos os fogos, a todas as secas.

Não sou daqui de tras-os-montes, daqui não vejo Bragança, nem sequer Rebordãos, mas sinto no ar o peso de uma angústia que enquanto aqui estou se torna minha também. Não chove! Nas árvores os frutos mirrados não crescem, os pastos não ganharam a tonalidade verde, as ribeiras correm como finos fios de água.
Passei, até aqui chegar, por terras queimadas de fogos recentes. Até eu consigo sentir a esterilidade dessa terra morta, num esforço ainda tão insipiente de reter recursos e recolocar em funcionamento um ecossistema tão complexo e delicado como o destas montanhas.
No meu telemóvel abri a aplicação da meteorologia. Preveem-se baixas de temperatura e chuva para a próxima semana. Mas hoje, está um dia de Verão! E o povo, gentes que fizeram desta serra morada, não se fiam na meteorologia. Leem, com uma ciência secular, os campos e os céus, e neles nem sombras de nuvens, a chuva que os doutores dizem que virá não chegará para alimentar a terra, será pouca.

Começo a ouvir um cântico.
Imagino-os a subir  pelo caminho, rostos cansados e envelhecidos, pelos anos e pelo trabalho, consigo trarão o pesado andor com a imagem da Nossa Senhora da Serra, a quem pedem chuva.
Para mim o recurso ao pensamento mágico por desespero e falta de solução. Para eles uma expressão de fé, uma súplica à mãe.

Passam por mim, ninguém parece reparar que ali estou apenas a poucos metros, em vozes desencontradas cantam e rezam "Santa Mãe de Deus, mandai-nos a chuva, somos filhos teus"
Comovo-me, e desejo genuinamente que chegue a chuva em abundância, aqui em Rebordãos e no resto do país.

E eu penso que os tempos não voltarão a ser os mesmos, e que a voz do povo terá de mudar, que dificilmente se voltará a dizer "Em Trás-os-montes existem nove meses de inverno e três meses de inferno"

E assim vai o mundo

domingo, outubro 15, 2017

Medo



"Sim, às vezes tenho medo, e às vezes o medo invade-me e eu pareço menos eu. E parece que estou sozinho, mesmo que vos tenha ao pé de mim. É que não estão ao pé deste eu que não vos mostro. Este 'é' medo. E fico pequenino, incapaz, naquele tempo aquém das palavras porque não sei - não quero - nomear isto. É que tenho medo. Sou medo. Quero um colo que não há mulher no mundo que me o possa dar. Nem mulher, nem homem. Ninguém. Sim, às vezes tenho medo."

Eu... não me lembro de um medo que um colo não curasse.
Ou tenho "maus" medos...
... ou bons colos!
Mas a memória é curta e tende a amenizar as maiores dores. (que agora à medida que fui escrevendo fui recuperando algumas memórias de momentos de medo)
...ou vou sabendo dar colo a mim própria.


_____________
Acho que não foi por acaso que escrevi isto hoje, um dia em que mais uma vez o país está em chamas, em que temos Verão a meio de outubro, em que me chegam noticias inquietantes de países distantes que evocam horrores indiscritíveis. Desamparos legitimados pelo mundo - eu falei dos outros, legitimados pela verdade de quem os sente.

quarta-feira, outubro 11, 2017

Quando alguém toca no sitio certo

Breaking the Ice  Carlos Farinha   2017

Manuel era um homem de trato fácil, educado, mas que mantinha, na maioria das ocasiões, uma reserva natural, às vezes mal interpretada, confundida com desprendimento ou desinteresse. Era nessa distância que se sentia bem.
Sentado numa mesa recuada, ou num banco de jardim folheando um jornal, ia observando o mundo que como se no teatro estivesse, implicando-se de quando em vez nos enredos complexos das gentes, personagens, que iam compondo a sua própria história. Que é como quem diz, que nunca se opôs a tomar parte das cenas. Chegou a ocupar até lugares de destaque aqui e ali, tal era a prontidão com que às vezes vestia o papel para que o solicitavam. Mas com ele sempre uma reserva, algo enigmática, pois ninguém lhe conhecia razão para tanto mistério. Era assim!
Um dia, como que por acaso, reparou numa mulher. Sem grande entusiasmo ou curiosidade. Reparou simplesmente que ela ali estava. E assim de longe, durante muito tempo, semanas, meses, foi observando. E adivinhando nela histórias, desejos, poemas, músicas... como se de uma doce noite prolongada se tratasse, sem se aperceber foi-a sonhando.
Certa tarde, sentindo que a conhecia já por tanto a ter sonhado, quase sem se aperceber do limite entre a sua imaginação e a realidade dirigiu-se a ela.
E ao emprestar-lhe assim um novo olhar sobre ela própria, passou uma fronteira que nunca antes ninguém passara.
Na verdade assustaram-se os dois com a intensidade dos afectos, que o novo tem o seu quê de inquietante. Mas neste nicho só dos dois, souberam-se os dois autênticos. Ele levou-lhe as suas paixões, como quem lhe apresenta novas músicas, e transforma a banda sonora da vida. Ela guiou-o pelo desconhecido mundo do feminino, mostrando-lhe os recantos intrincados tão poucas vezes iluminados.
Como acabou esta história? Na verdade ninguém sabe, que os corações andam ainda inquietos.


sábado, outubro 07, 2017

Assim se vive ao pé do mar








Modificações do corpo


Hoje um dia dedicado ao pensamento.
E ao pensar do corpo.

Como se dá expressão através da corpo ao indizível, o que não é passível de ser posto em palavras
Um corpo agido.
A pele que falha na sua função de "limite de mim mesmo".

E uma  nota especial à ousadia do video de divulgação destas jornadas, numa instituição que se reconhece sóbria, clássica, discreta.

quinta-feira, outubro 05, 2017

Botinha nova para as caminhadas



A molda-las aos pés!
:)

(Numa magnífica manhã de feriado a passear na Graça com irmã e filha)

segunda-feira, outubro 02, 2017

Dia de eleições 2

Ficam os números dos votantes:

Portugal - 54,94%
Distrito de Lisboa - 48,65%
Concelho de Lisboa - 51,17%
Na minha freguesia - 56,58%

Pergunto-me porque não votaram 4.211.025 pessoas.

E depois o Isaltino....
?????

Nem sei o que dizer!

Dia de eleições 1

"Patrão fora, feriado na loja!"


Peguei nas crianças e fomos para Sintra
Passamos pelo Sintra Mitos e Lendas - a nova atração da vila, um espaço bem conseguido, interactivo QB, que nos levou a viajar pelo mítico passado de Sintra.
Recomendo!

Depois:
O rapaz queria ir ao castelo (ficou prometido uma caminhada da vila ao castelo com pic-nic um dia destes)
A rapariga queria ir ao Centro de Ciência Viva (outra vez?!?!?)

Precisávamos de uma actividade mais curta, que fizesse horas até ao almoço.
E lá organizamos em cima do joelho um roteiro fotográfico pelos jardins - actividade, feita em autonomia, sempre bem recebida pelos catraios.
E, marcado o ponto de encontro e a hora, lá fomos: Irmãos contra irmãos (sim que a minha irmã também foi)





sábado, setembro 30, 2017

30 de Setembro

Há datas estranhas que parecem não fazer parte do calendário.
Momentos disruptivos em que a nossa história teve algo de inexplicável e inabarcável.
Não que a ciência (qualquer uma delas) não tenha uma leitura exacta sobre os factos. É na nossa cabeça que não cabe a experiência. Não temos como integra-la, normaliza-la, torná-la manuseavél.
Hoje é dia de um desses aniversários.
Um ano
À força do dever fomos (fui eu puxando a ponta da meada) aqui e ali falando do inominável.
Sem quase tocar a angústia tremenda que na altura me (nos) esmagou.
A tênue linha entre o ser e o não existir.
A omnipotência protectora que nos inventa eternos derrotada sem clemência.

Mas estou aqui hoje.
Num ano que ganhei como se ganhasse a lotaria, de tão imprevisível e aleatório ser o nosso estar ou não estar.
Quero estar muitos mais.
Viver, sentir, tocar, amar, sofrer, pensar, ... e conversar, aprender, partilhar, ...

Tenho futuro!
Por muito efêmero que tenha aprendido que é o "futuro".

quarta-feira, setembro 27, 2017

Os poetas escondidos e a declamação de poesia

Embora conheça o JPR há alguns anos, só o descobri há poucos, numa daquelas ocasiões felizes em que longe de casa e na companhia de bons copos se fala, noite dentro, de meninices, de amores, encantos, em que na penumbra se vê para além da armadura. 

Recentemente surpreendeu-me mais uma vez.
Um Mail.
Com um registo sonoro.
E um poema dele declamado.
O JPR poeta!

Do poema gostei!
Surgiu como mais uma noite de copos, de partilhas, e descobertas.
Uma porta de entrada para um mundo mais íntimo. Para afectos e sentires.

Mas não gosto muito de poesia declamada (a não ser que o seja feito com uma raríssima excelência)
Partilho agora aqui o que partilhei com ele a propósito disso: 

"Sabes, ler para mim é um percurso muito interno.
Cada leitor empresta ao texto algo seu, e transforma dentro de si as palavras e intenções do escritor/poeta.
Por isso acho que partilhar, publicar, um texto é um acto de coragem. É prescindir de algo que nasceu nas vísceras e permitir que outro o mastigue, redescubra, reinvente.
Prefiro ler no meu silêncio. E emprestar à palavra escrita o meu ritmo, a minha entoação, a minha emoção, a minha leitura.
É muito raro gostar de ouvir dizer um poema. Prefiro a minha voz interna."


Serei só eu a ter esta resistência a prescindir da minha própria leitura?

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ADENDA
(Obrigada JPR por enriqueceres o meu post!)


VERTIGEM

Detenho-me no declive vertiginoso da escarpa,
é uma vertigem,
uma força que me impele a sobreviver
no lapso final do instante.

Ao longe, na idade da velhice,
falam-me de paraísos,
dizem que os astros brindam
ao triunfo laborioso do amor.

Sempre exististe em mim,
e eu ainda não te descobri,
ou descobri-te no fulcro da fatídica cegueira.


João Paulo Ribeiro


segunda-feira, setembro 18, 2017

Love is evil



Amor é...

O desequilibro cósmico
Algo particular surge 
Um desiquilibro
Um erro
...assumir o erro e ir até ao fim
Um, acto extremamente violento

Não ao amor universal
A realidade não tem sentido nem propósito

Escolhemos uma partícula infima que nos desequilibra
E amamos...