sexta-feira, agosto 17, 2018

Intelectuais



Hoje na praia estive perto de um casal de Ingleses, nos seus 60's, ligeiramente obesos, com alguma dificuldade de locomoção, conversa parca, daquelas duplas enraizadas, que se tornam fisicamente parecidos, que se lambuzavam com uma bola de Berlim: "é delicioso!" - dizia ela. "Vamos partilhar!"

Nas minhas mãos um livro de crónicas do Kalaf. Com reflexões mais ou nemos abstratas e intelectuais sobre o lugar de cada um num mundo cada vez mais global e acessível, mas cheio de desigualdades.
A leitura dele sempre perspicaz e inteligente, mostra-me um mundo que não é o meu, e faz-me sentir às vezes "pequenina" por perceber que há tantos mundos neste mundo que me são estranhos.

O simples caricaturado no casal de ingleses.
A crítica intelectual personificada no livro do angolano.

E eu dei por mim a reflectir nas várias formas de se estar no mundo.
E no que tornará as pessoas mais felizes.
E se o "ser feliz" será o mais importante. 
Que uma vida só é pouco.

Que na verdade sabemos todos tão pouco.
E o sabor de uma bola de Berlim na praia é um puro momento de prazer!
E que no meio de pensamentos interessantes e elaborados se lêm disparates sem fundamento algum.

Até que fui chamada à realidade pelas tarefas de uma mãe na praia!

quarta-feira, agosto 15, 2018

Leituras de Verão

"...deparei-me com a palavra mais sucinta do mundo, "mamihlapinatapei", que significa "o olhar trocado por duas pessoas enquanto se espera que a outra inicie aquilo que nenhuma das duas tem coragem de iniciar"."

In "Estórias de Amor para Meninos de Cor" de Kalaf Ângelo 

quarta-feira, agosto 08, 2018

Eu encontro gigantes! Eu caço gigantes! Eu mato gigantes!




Filme surpreendente.
Nada do que estava à espera! 
Embora esteja classificado para maiores de 12, é um filme complexo e que obriga a vários níveis de leitura.
Levei o menino Boop (com 10 a) e no final tivemos de conversar para que percebesse algumas coisas.

Um filme sobre a dor, e das formas que se encontram na tentativa de tornar o intolerável minimamente manuseavél.

Gostei!

sábado, agosto 04, 2018

quarta-feira, agosto 01, 2018

Pedrinha à janela



São 11 da manhã.
Quase sem pensar abeira-se da janela e espera.
Não precisa de olhar para o relógio sequer.
Há um tempo interno, programado inexplicavelmente, que faz com que o tempo se organize e os passos a levem até às portadas. Uma armadilha do seu inconsciente, que na busca de uma gratificação  primária, a leva ao local do crime.
"Local do crime" - ri-se!
Tinha começado a chamar-lhe assim, em silêncio, numa brincadeira consigo própria. Ou não são os segredos adjectivados de tantas maneiras por quem fica de fora?
O crime... 
Um delicioso crime.
Era a hora em que ele aparecia habitualmente. Sorrateiro, surgia no fundo da rua. Olhava em volta. Confirmava que não vinha ninguém. Pegava numa pedrinha no canteiro em baixo e atirava-a com perícia à janela dela. 
Ela que já lhe conhecia os passos e os gestos, antecipava-se e vinha espreita-lo. Parecia-lhe um qualquer animal astuto,  que caricaturalmente parecia arguto e assustado ao mesmo tempo, pela forma como olhava por cima do ombro e garantia que ninguém o via.
Tinha sido assim toda a primavera. 
Às vezes dizia-lhe só adeus e seguia. Outras ela descia e ficavam horas perdidas em conversas sem fim (e às vezes sem princípio até), sentados nos degraus do alpendre.
Mas o Verão foi chegando.
E com ele as visitas foram-se espaçando.
Ela olhava as pedrinhas do canteiro de forma inquisitiva como se lhes pudessem elas justificar as ausências. Pois se ali continuavam porque não serviam os seus propósitos?! 
Parecia que com a primavera, tão plena de princípios e de promessas, tinham partido os sonhos. E que o calor do Verão lhe tinha aberto o peito, que como um fruto ressequido e gretado, esperava, pegajoso e estéril, que algo  determinasse um desfecho.

Mas são 11 da manhã.
E corre-lhe nas veias, alimenta-lhe as vísceras, comanda-lhe os músculos, uma vontade qualquer que não a da sua cabeça, e abeira-se da janela.

Surge alguém na curva da rua.
Reconhece-lhe o andar, a forma como os braços acompanham a marcha, o jeito como afasta a madeixa de cabelo que cai desleixada nos seus olhos.

E espontaneamente sorri. 
Toda ela se ilumina como se fosse primavera, mesmo sabendo que o calor do verão aperta.
É bonita quando sorri assim.

Ele baixa-se e pega numa pedrinha...

(E não pensem que está iludida, que esta não é uma história de amor, é o reencontro que se celebra, como se pudessem assim os dois, juntos, recriar a primavera)




domingo, julho 29, 2018

Olhares alterados pelos afectos





De volta a paisagens conhecidas, mas toldadas por histórias de muitos e muitos anos (mais de metade da minha vida).
O que vemos está inevitavelmente impregnados daquilo que somos.


sábado, julho 28, 2018

Fogo contra o fogo

Haja ousadia e criatividade.
(Tendo em conta que o acto criativo é possível apenas porque se domina a teoria e o know-how).

O engenho humano que torna possível usar novas respostas para problemas antigos.

Isto a propósito do uso de bombas no combate aos incêndios na Suécia .
A notícia AQUI

segunda-feira, julho 23, 2018

Pensamentos à solta

Hoje é um daqueles dias em que o pensamento se enrodilha numa nuvem encardida. Seria mais impactante poder descrever uma nuvem densa, eléctrica, impenetrável de um cinzento de aço raiada a prata. Mas na verdade nada de tão magnifico se passava.
A cabeça fica de repente despojada dos seus fieis hospedes. Milhões de trocas eléctricas parecem ficar com a actividade reduzida ao essencial e apenas os comportamentos mais rudimentares são efectuados com exactidão.
Os pensamentos aparecem apenas de passagem. Como se não se quisessem demorar. Deixam uma ideia, adivinha-se um filão, surge uma imagem, mas quando se tenta elaborar, associar, construir uma narrativa, pluf... já não estão lá. As palavras, como abstracções que são, pertencem à clareza inacessivel! Não podendo dizer que a cabeça esteja vazia, diria que terá talvez portas e janelas abertas, e que não estando bem arrumada e aprumada não se torna convidativa para esses pensamentos que tanto gosta se queiram instalar e medrar. Incapaz de organizar uma história, real, filosófica ou simplesmente especulativa, limita-se à vivência indefinida da passagem das horas.
E um pensamento algo infantil parece agarrar-se à ombreira da porta antes de se lhe escapar por completo: "Para onde irão todos esses pensamentos?"

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É sabido há muitos séculos que a sabedoria não se possui. Essa ideia só por si é a antítese da verdadeira sapiência. Nenhum homem verdadeiramente sábio afirmou alguma vez ser dono de uma ideia ou ter sobre ela algum domínio. Um pensamento é uma construção que só cresce e se desenvolve quando exposta às intempéries do confronto, e será sempre uma obra inacabada

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Um pensamento entrou pela janela mas vendo a porta aberta saiu de mansinho..
Apanhou uma corrente de ar quente e subiu, subiu... ao contrário de Ícaro (que não conhecia ainda bem as leis da física) à medida que subia ia ficando mais compacto e frio, e por isso mesmo mais claro e transparente, até se transformar numa ínfima pedra de gelo (que como sabem os pensamentos quanto mais grandiosos menos espaço ocupam).
E assim, pequeno, límpido e brilhante se despenhou sobre a terra, transformando-se em chuva miúda.
Quis a sorte que fosse cair bem em cima de um dos seres mais antigos e perfeitos!
Uma enorme árvore secular, aparentemente indistinta das restantes árvores da floresta, que com aparente indiferença o recebeu nas suas folhas, o acolheu, e o integrou tornando-o parte constituinte de si própria.
Há naquela floresta várias árvores como esta. Prenhes de pensamentos, pensamentos de todos os géneros, sem idade, sem género, sem cor, sem religião, sem moral. Pensamentos que buscam pensadores, e estão atentos aos caminhantes que de quando em vez por ali passam. E quando podem, às vezes sem pedir licença, apanham boleias nas mentes livres, e constroem na teia indecifrável da alma humana, encadeamentos únicos, narrativas singulares, ideias novas, até serem libertados de novo, completamente transformados, para reiniciarem o ciclo da sua existência.




Caminho de Santiago - Árvore na Via da Plata - em San Cristovo de Cea (Junho 2018)

PS - Deveriam na escola ensinar o ciclo dos pensamentos, da mesma forma que ensinam o ciclo da água, do carbono, do oxigénio, ..?

quarta-feira, julho 18, 2018

Virar de página


O menino Boop está a terminar um ciclo. Reflectiamos juntos aqui há dias que na verdade esta escola é a (uma) casa dele. 
Sempre se conheceu aqui. Dos 2 aos 10 anos. Não conhece outra realidade.
Está entusiasmado com a mudança e ao mesmo tempo angustiado com a perda.

Para mim é também um despedida (mas já prometi voltar para um cafezinho - que não tomo, ou um cigarro - que não fumo, mas para a conversa - sempre) fiz amigos entre professores e pais nestes 11 anos que "frequentei" a Torre. Uma escola em que se é criança por inteiro, com arte, com corpo, com música,  com filosofia, sem TPC.

Os meus filhos foram felizes aqui! 
Saem tranquilos, seguros, a saberem pensar, conversar, a respeitar os outros, as diferenças, a saberem estar. 
(vá pronto, os pais também terão alguma responsabilidade nisso)

Habituada a vê-los de cores garridas,  joelhos esfolados, e sorrisos descontraídos foi estranho até vê-los tão "uniformizados", no ambiente solene do picadeiro do antigo museu dos coches, na grande festa de final do ano. 

Já vos tinha falado em tempos do trabalho que fazem à volta do cancioneiro. O projecto deste 4º ano foi fazer um livro, ilustrado pelo Ligeiramente Canhoto, com canções
recolhidas pelo país, beber das origens, fazê-las renascer.
E que excelente trabalho fizeram!!!
O Professor de Cancioneiro, Pedro Limpo Rodrigues, não brincou em serviço!
Gravado em estúdio, com músicos "a sério", conseguiram um trabalho de grande qualidade que poderá ser aproveitado por outras escolas, no desbravar das canções de outros tempos - ou de todos os tempos!

Deixo-vos um cheirinho se quiserem ouvir:



sábado, julho 14, 2018

"porque cada velho que se extingue é uma biblioteca que morre."

Enquanto em vilar de perdizes...:


https://www.dn.pt/pais/interior/padre-fontes-o-terco-na-mao-e-o-diabo-no-coracao-9583681.html

Esta reportagem, que aconselho a ler!!, levou-me a uma série de reflexões:
- sobre as tradições
- sobre a sabedoria popular
- sobre as manipulações de quem tem "poder"
- sobre o vale tudo
- sobre o celibato
- sobre o limite da perversão
- sobre a sede de saber
- sobre a prepotência
- sobre as histórias da História
- sobre um Portugal que eu não conheci
- sobre as crenças ("legítimas" e "ilegítimas")
- sobre o ser diferente numa instituição tão rígida como a Igreja
- sobre se sob o lema do ser diferente se ultrapassam (ou não) alguns limites
- sobre os limites em si, se os há e quem os define,
- sobre.......
- .........

sexta-feira, julho 13, 2018

Hoje Vi e Ouvi






NOTA (mental) - ponderar numa próxima vez se será boa ideia ir a um festival uma semana depois de andar 120km.

sábado, julho 07, 2018

Caminho



Foi a 3ª vez que andei pelos Caminhos de Santiago.
Pergunto-me às vezes porque o faço. E há aspectos que se revelam comuns a todas as minhas reflexões:
O prazer de andar sem saber por onde o caminho me levará.
O saber que não voltarei para trás - que todo o caminho que pisar será sempre "novo"
O partilhar dias com pessoas de quem tanto gosto
O perceber os meus limites, e superar as dificuldades
O andar por vezes sozinha pelo meio de florestas e caminhos
As paragens para uns bocadillo e uma Estrella Galicia
O estar longe do mundo
O encontrar outros caminhantes, que nos fazem companhia durante um troço da viagem
O bem que um banho sabe depois de 20 e tal Km nos pés
O acordar retemperada e pronta para nova jornada
O rir
O brincar com as dificuldades

O chegar... é para mim o menos importante.

Se vos apetecer...
Oiçam: https://www.youtube.com/watch?v=Svm6Wv8NFaY

quarta-feira, julho 04, 2018

quinta-feira, junho 28, 2018

Chegou a hora...

... de partir outra vez!

120 km até Santiago de Compostela

Desejem-me(nos) um "Bom Caminho"!

(Desta vez somos uma multidão!!! - leia-se 6!)

quinta-feira, junho 21, 2018