quarta-feira, junho 21, 2017

terça-feira, junho 20, 2017

Quando morre uma criança.



Hoje tenho de comunicar a uma criança a morte de duas.
Hoje tenho de introduzir, como real, a ideia terrífica da finitude, não dos velhos, nem dos doentes, mas dos amigos com quem se brincava ontem no recreio da escola.
Hoje as notícias da televisão e da rádio vão entrar pela porta da frente da minha casa. Sem pedir licença, sem saberem se é oportuno, vão emiscuir-se para sempre nas memórias de infância.
Ê assim a morte. Nunca pede licença, nunca é oportuna.
Hoje vou querer proteger, segurar, unificar, sarar, o que a realidade, dia após dia, desfaz, parte, destrói, arrasa.
Hoje há uma criança que vai ter de crescer. 

E nas outras casas, umas que conheço, outras não, a cena vai replicar-se.
Crianças vão saber que outras duas não vão voltar nunca.
E um traço de angústia vai ficar desenhado no percurso de todas elas.

(Amanhã será a vez dos professores, explicarem, responderem, conterem, lidarem com as perguntas que forem capazes de ser formuladas. Será seguramente um dos dias mais difíceis desta escola. Só posso agradecer antecipadamente o vosso cuidado! - aos professores que tanto gosto)


sábado, junho 17, 2017

Porque me caiu bem!

Royce Gracie, Lisboa, 17/06/2017
(foto minha)
Hoje houve cerimónia de graduação e aula com o Mestre Royce Gracie.

Este tipo, profissional de artes marciais, praticante de Jui-Jitsu (faixa preta, 6º grau) e MMA (Mixed Martials Arts), com varias vitórias nos campeonatos de Vale-tudo mundiais, deve ser quando quer uma arma destruidora.

Mas também é de uma simplicidade, humildade e proximidade com os miúdos que os faz perceber que são como ele. Praticantes de uma arte, em permanente evolução - estarão um pouco mais atras... é isso!
(E sim, isso surpreende-me um pouco porque tem o seu quê de brutamontes e aspecto letal!)

Será isso ser professor...
Saber colocar-se perto dos seus alunos, e ajuda-los a dar o passo que se segue no seu percurso.
Independentemente das conquistas que se fizeram já em nome individual.

Para os miúdos foi óptimo tê-lo cá.


quinta-feira, junho 15, 2017

terça-feira, junho 13, 2017

O Paraíso segundo Lars D.

 

Ontem foi noite de Sto António!
E o que fiz eu na noite de Sto António?
Devorei um... Livro!

"O Paraíso Segundo Lars D." de João Tordo.
Segundo da triologia que começou com o "o Luto de Elias Gro"
Tinha lido algures que era um livro depressivo e melancólico..???
Não achei!
Fala de solidão sim, mas fala com tal verdade e transparência que não foi nem tristeza nem melancolia que senti. É fácil identificarmo-nos com a lucidez com que os personagens pensam a sua vida, o seu percurso, os seus corpos, as suas relações.
Apetece-me partilhar alguns excertos convosco - transcritos em baixo)

Se vale a pena?
Sem duvida alguma!

"Ter vivido mais de trinta e cinco anos com o meu marido ajudou-me a praticar o desamor, essa espécie de tranquilidade em que nao amamos nada nem deixamos de amar coisa alguma. Gostamos de nós e, aos poucos, vamos descobrindo que nada há em nós para gostar, mas gostamos, mesmo assim. Talvez seja esta a resolução de toda a inquietação, o fim de toda a angústia: sabermos, no nosso interior, que tod a inquietação ou angústia são manifestações de uma mesma coisa, de um desejo de união com alguma coisa inefável que resiste a mostrar-se."

"...vasculhei os livros e encontrei o diário de Etty Hillesum. Abri o livro ao acaso e li: Toda a vida tive esta sensação: quem me dera que houvesse alguém que me pegasse pela mão e se ocupasse de mim; eu pareço forte e faço tudo sozinha, mas gostava tanto de me entregar completamente..."


sábado, junho 10, 2017

"Posso ir sozinho para o parque?"

 

Qual é o tempo da autonomia?
Tantas decisões pequeninas, espaços conquistados às vezes sem plena consciência.
Adormecer sozinho,
Passar a noite num amigo,
Ficar sozinho em casa,
Andar com dinheiro no bolso,
Ir sozinho às compras,
Fazer a pé o caminho para a escola,
Ter um telemóvel,
Ter autorização para sair da escola,
Levar um amigo para casa sem adultos por lá,
Cozinhar,
Ir de férias para o estrangeiro sem pais,
...

A minha máxima: até fazerem algum disparate têm o meu ok para cada aventura...
(Até porque são miúdos tranquilos e com noção das suas capacidades)
Não que isso me deixe sempre tranquila.

À pergunta de hoje respondi:
"Claro, tem cuidado a atravessar a rua"
Mas não resisti.... Mandei a S atrás dele...
:)

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PS - Como que num embalo, tornamos por momentos a vida mais leve.
        Nunca seremos velhos demais para nos sentarmos num baloiço.

quinta-feira, junho 08, 2017

Livros

 

quarta-feira, junho 07, 2017

É hoje!

É hoje!

É hoje que vou à feira do livro!
(Se não surgir um imprevisto qualquer....)

PS - não foi hoje! Mas o imprevisto foi muito bom! :)


Tudo com conta, peso e medida! ;)

 

terça-feira, junho 06, 2017

A cidadela branca - Orhan Pamuk

 



Dois homens, um escravo (de origem italiana) e um mestre (turco), na Istambul do séc XVII. Estes dois homens são fisicamente idênticos o que os perturba e confunde. Debatem-se à exaustão sobre o "Quem sou eu?"  e o "Porque sou o que sou?"
Um jogo de espelhos interminável, diabólico, onde as fronteiras entre um e outro se vão diluindo, onde lucidez e loucura se confundem. 

A minha opinião:
Fraquinho!
Li-o até ao fim por teimosia.


segunda-feira, junho 05, 2017

Lobisomens e luas cheias

 


(E assim termina esta história - Episódio 1, Episódio 2)

Episódio 3

Maria entra no carro, e sem saber porquê sente o corpo aceso, como se tivesse ligado a caldeira e toda a sua pele irradiasse calor.
Abílio olha para a Maria de sorriso aberto, na verdade são os seus olhos que mais sorriem, e de repente todos os pensamentos que o acompanhavam como que desaparecem.
Mal sabem, os dois, o quão inesperado é para cada um a forma como se sentem nesse momento.

É a primeira vez que se encontram a sós.
Têm-se cruzado muitas vezes aqui e ali, afinal a terra é pequena, mandado uns piropos, uma vez ou outra um comentário mais malandro, mas sozinhos... Nunca tinham estado.
O desafio tinha surgido numa piadola no café sobre lobisomens e luas cheias.
"Qualquer dia levo-te à serra numa noite de lua cheia!" - disse-lhe ele
"Pode ser que tenha a sorte de conhecer um!" - retorquiu ela
...

Maria trazia conforme o combinado uma cesta.
Nela tinha acomodado uns pasteis de bacalhau, umas sandes de presunto, uma garrafa de vinho tinto e uns biscoitos de limão. Não tinha sido fácil decidir o que levar. Nem tinha a certeza de aquilo estar mesmo a acontecer.
Olhou para o banco de trás e viu que lá estava a manta, o Abílio tinha-se lembrado.

O carro fez o desvio para a estrada da serra
Pouco a pouco as luzes da aldeia ficaram para trás.
Fez-se silêncio no carro.
"Queres que ligue o rádio?"
"Não, não é preciso."
E a estrada transforma-se em caminho...

Nenhum tinha contado a ninguém.
Sentiam-se como adolescentes, cúmplices, envergonhados e entusiasmados.
Como que prevaricassem, mas não deviam nada a ninguém.
A lua acompanhou-os sábia e serena.
Fez as vezes de amiga e confidente.
E testemunhou uma noite memorável, sem lobisomens... Mas com um homem e uma mulher que começaram ali a sua história, com sabor a pasteis de bacalhau e beijos.



domingo, junho 04, 2017

Socalcos

Fotografia tirada esta manhã, um olhar para o Douro

Ambivalência:

Se me encante com os socalcos escavados, o alinhamento das videiras, com os saberes transmitidos de geração em geração para a produção dos néctares que tanto aprecio (que bem me sabe um bom tinto!).

Ou

Se entristeça pela paisagem modificada, pelos químicos na terra, pela transformação da linha do horizonte, por tantos pontos brancos no meio do verde.


sexta-feira, junho 02, 2017

As flores dos Jacarandás

Um destes dias em Belém




Maio!
E os tons ao redor vão-se alterando subtilmente.
A luz é outra. O rio segue mais azul.
E a cidade vai-se vestindo de lilás com as flores dos Jacarandás.

Não gosto particularmente de lilás. Nem de Jacarandás. Nem da seiva peganhenta que se liberta das flores caídas nos passeios agora púrpuras.

Mas gosto do retrato desta minha cidade em tempos primaveris. Do manto roxo que cobre ruas, passeios e jardins. Do contexto de promessa que a natureza em flor nos concede.
E guardo em mim, como fotografias de uma época feliz, as avenidas com as árvores que em Maio mudam de cor, são traços menésicos que me vão acompanhar.

Um dia...
...um dia vou ter saudades das flores dos Jacarandás.

Há várias formas de amor