quinta-feira, junho 21, 2018

quarta-feira, junho 20, 2018

Leituras



Então vamos lá a uma resenha dos últimos livros que li!

A Carson McCullers, escritora norte-americana da 1ª metade do séc XX, escreve de forma magnífica! Faz um retrato social de uma América operária, com personagens de uma riqueza rara, que ganham consistência e presença no nosso imaginário.
Já comprei outro dela "a balada do café triste" - darei notícias dele seguramente!

O Ensina-me a voar sobre os telhados, do João Tordo, é um livro complexo, não foi fácil de entrar no ritmo, ou será melhor dizer nos ritmos, das histórias aparentemente paralelas.
Mas a curiosidade de seguir os fios, a convergência que se adivinhava e que para o fim do livro se precipitava tornou a leitura viciante.
Tem sido muito interessante acompanhar a obra de João Tordo e vê-lo crescer como escritor!

O Mia Couto, neste Bebedor de Horizontes... Acho que foi o livro mais duro dele que li. Em que nem a sua forma harmoniosa, meio mágica, de escrever e descrever, afastou os horrores de uma guerra sangrenta. Um livro cheio de desencontros, de perdas e lutos da mais variada espécie. Para mim um revelar de desamparos. De solidões. De desesperos.

Aconselho todos os 3!
(Isto foi um pleonasmo, não foi?!)
:)

terça-feira, junho 19, 2018

Sempre gostei tanto deste!

Imagem da net
Tinha um cravo no meu balcão;
veio um rapaz e pediu-mo
- mãe, dou-lho ou não?
Sentada, bordava um lenço de mão;
veio um rapaz e pediu-mo
- mãe, dou-lho ou não?
Dei o cravo e dei o lenço,
só não dei o coração;
mas se o rapaz mo pedir
- mãe, dou-lho ou não ?

Eugénio de Andrade

sábado, junho 16, 2018

Noite de Lua Mãe

A noite estava quente, sem nuvens, mas também sem estrelas, a lua, cheia e redonda, reflectia uma luz brilhante que iluminava até aquele pedaço da terra onde os candeeiros públicos permaneciam adormecidos, quais personagens de contos de fadas numa espera sem tempo pela mudança almejada.
Ela entretinha-se nestes pensamentos. Ajudavam-na a ter um olhar mais atento para o que se passava dentro e fora dela. Procurava adjectivos, metáforas, eufemismos, aqui e ali uma rima, que a ajudassem a ver melhor o mundo, a perceber-lhe os encantos e as histórias que ainda estariam por contar.
Sorriu. Sempre fora má aluna a português. Nada percebia de gramática e a ortografia era um bico de obra.

As memórias... tão curioso o que escolhemos guardar...
Fez o exercício de procurar memórias antigas. 
Surgiram recortes. Misturas de lembranças, episódios contados, fotografias antigas, com todas as desconfigurações que a cortina do tempo impõe e cozinhados pelos caprichos do desejo e da reconstrução.
Decidiu subir o nível de dificuldade do jogo.
A primeira lembrança feliz.
E um pensamento fugaz veio-lhe à consciência. Agarrou-o! (não o queria deixar fugir)
Uma fração de tempo feliz.
Estava no banco de trás do carro, um Toyota Corolla branco, com os irmãos, a Sofia e o João, a mãe conduzia o carro. Iam numa manhã de Verão até à praia de Carcavelos (num tempo em que a praia de Carcavelos era imensa, com um extenso areal).
A mãe.
Apaziguadora lembrança.




Atrás desta vieram outras memórias. O pintar no terraço. O plantar no jardim. A gelatina nas cascas de laranja. O colo quando chegava da rua chateada com alguma coisa, ou por ter lutado mais uma vez com o Chico, amiguinho da rua, unha e carne, risos e zangas intensas. A voz a chamar o seu nome na rua quando chegava a hora da refeição. O costurar dos fatos de carnaval. Os serões a bordar os tapetes de arraiolos. A ráfia que havia sempre lá por casa para todo o tipo de trabalhos manuais. As mãos cheias da margarina de untar as formas dos bolos...

A noite de lua cheia, grávida de tanta luz, levou-a até à mãe.
São presença constante as mães.
Reduto de segurança seja na presença seja na ausência.
Olhou para o relógio. Ainda não é muito tarde.
Procura no telemóvel o contacto “mãe”. 
Apeteceu-lhe falar com ela.

quarta-feira, junho 13, 2018

Courtney Hadwin

WOW !!!!

Que voz!







domingo, junho 10, 2018

Foi dia de literatura africana

Este 10 de Junho levou-me à língua portuguesa noutras longitudes.

Olinda Beja de São Tomé
Kalaf Epalanga de Angola
Ondjaki de Angola
Germano Almeida de Cabo Verde





quinta-feira, junho 07, 2018

segunda-feira, junho 04, 2018

Quando as crianças nos surpreendem

Precisei de procurar umas fotos do menino Boop que termina agora um ciclo de escolaridade, revi centenas de fotos dos 3 aos 10 anos, e lá pelo meio dei com algumas tiradas por ele.
Gosto tanto!
Estas tirou-as aos 8 anos.
Se o moço não se estragar pelo caminho (que a latência e a adolescência às vezes são nefastas para a criatividade), entre desenho e fotografia, ainda pode fazer algumas coisas interessantes!








sábado, junho 02, 2018

Livros

Apercebi-me que não tenho falado dos livros que vou lendo.
Nem sequer das minhas aquisições na Feira do Livro de Lisboa.

Isto porque peguei agora no "A volta ao dia em 80 mundos".
Livro do dia numa das últimas vezes que fui à feira.
(Hoje também me apoderei de 3 livros do dia!)

Amanhã voltarei à feira. E dessa vez regressarei com autógrafos!

Tenho de voltar com tempo para falar sobre leituras!

quarta-feira, maio 30, 2018

Apaixonadamente

"Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável,
apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a paixão
e eu me perdesse nela
a paixão grega."

(Herberto Hélder, in A Faca Não Corta o Fogo)

terça-feira, maio 29, 2018

NOTA MENTAL:

Manter estas imagens na cabeça para quando me voltarem a levar a ver um filme da Marvel não adormecer novamente!

Meninas espreitem - AQUI 
(os cavalheiros provavelmente não vão achar o conteúdo de grande interesse)



Deu-me para a parvoeira... pronto! 
Já vos tinha dito que não estava particularmente erudita!!!!



domingo, maio 27, 2018

Na palma da mão

Tenho a estranha sensação de que as palavras não me visitam.
Que estou vazia de estórias, ou de poesia...
Que não encontro a forma de traduzir as coisas que me encantam, ou talvez sejam tão fugazes que me escapam.

Queria saber escrever um texto leve e terno como um beijo depositado na palma da mão.
Que evocasse o toque de uns lábios doces, nesse encontro lento, com uma mão aberta.
Nesse cruzamento único de intimidade e inocência, algo etéreo, inefável...

"...mais les mots me manquent"

Terei de aguardar o momento em que o sentir encontre uma linguagem com que se exprima. Letras juntas, formando signos, prenhes de significados, num encadeamento único, que não sendo perfeito será "o meu".

Entretanto...
... fico com esta ideia, de um beijo dado com candura na palma da mão.

terça-feira, maio 22, 2018

Julio Pomar 10 Jan 1926 - 22 Mai 2018

Sem me dar conta há pessoas que me acompanham nas horas mais "minhas".

Julio Pomar foi um deles.
Três trabalhos dele no meu quarto.
Dois no consultório .
Identifico-me com o traço. Daquelas coisas não pensadas. Existem. Estão. Fazem parte dos meus dias.

E vão continuar a fazer

Praia - um dos que está no meu quarto

Um texto de António Lobo Antunes:

“O Júlio Pomar disse-me sempre em alturas difíceis da minha vida
– Aguenta-te
que de facto é a única coisa que se pode dizer. E eu tento aguentar, fingir que aguento quando sinto que me desmorono dentro de mim. Há sempre uma parede ou outra, ou um bocado de parede, que resiste e encosto-me a ela pensando
– Quando é que irá cair, quando é que irá cair?
Talvez caia, talvez não. E, se não cai, conseguiremos levantar de novo tudo o resto? Ou uma parte do resto? Ou um resto do resto? Amanhar uma espécie de tecto? Ou sentar-me no chão, ao lado das pedras, sem olhar para elas? Sentir que me desmoronei também, me tornei uma ruína igualmente? O Júlio
– Aguenta-te
quer dizer, a voz do Júlio num ponto qualquer em mim
– Aguenta-te
isto é não o Júlio, só a voz, entre poeira que assenta e tijolos quebrados
– Aguenta-te
dois olhos pequeninos atrás de óculos grossos
– Aguenta-te
comigo a tentar agrupar-me, juntar-me todo, defender--me, proteger o que sou, o que teima em existir de mim e que não sei se me pertence ou está para ali como um velho retrato desfocado, do qual se não distinguem bem as feições. Torno-me uma pequenina coisa informe algures no meu corpo, torno-me um pingo de nada em silêncio, porém um silêncio que grita embora nem eu mesmo o oiça. Apercebo-me que grita apenas porque os meus ossos vibram, reduzidos a fios. Vida, vida, quanto tempo duras tu de facto? Prolongas--te por abril, maio, junho, julho, agosto, até ao setembro dos meus anos? As marés do equinócio a que eu assistia da muralha sobre a praia, as ondas que à noite, em criança, escutava da cama, no escuro, numa fúria teimosa, misturada com a inquietação dos pinheiros. Onde se escondem os melros à noite? Na garagem? No canavial? A repetirem
– Aguenta-te?
E, de repente, ignoro porquê, aparece-me Monsaraz na cabeça, as luzes de Espanha, há tantos anos que isto foi. Nossa Senhora da Lagoa, os homens a cantarem na capela abandonada, que grande é o passado, ou calor de assadura ou frio de sepultura. Um cão magríssimo rente às casas. Mulheres velhas sentadas. Saudades do Guadiana, a ribeira como lhe chamavam, barcos em forma de folhas.
– O que está o senhor a fazer?
– Estou escrevendo.
– Pois: olhar para dentro.
Isto a Margarida, gorda, rugosa. Olhar para dentro, a melhor definição que escutei. A açorda de cardos dela, a respiração da água no barro. Olhar para dentro. A vida inteira a olhar para dentro, eu a passear no castelo com a Isabel.
– Pai, o que é?
– Não é nada
– Pegue-me ao colo.
Porque vértices de pedras, porque lagartixas. Pegue-me ao colo é o meu sangue noutro corpo, separado pelas nossas peles mas o mesmo, alegra-me pensar que o mesmo. O que te acontecerá quando fores grande?
– Vou ser grande, pai?
– Muito grande.
– E quando for muito grande sou pequena também?
Claro que sim. Mesmo enorme hás-de caber nos meus braços. Besouros, vespas
– Tenho medo das vespas
com aquelas cinturinhas finas, aquela zanga. As raízes da figueira que levantavam a rua. Ver o sol pôr-se. Não ver nada. Ver o sol pôr-se outra vez.
– Se tu quisesses corríamos de mão dada até Reguengos.
– Porque é que Reguengos se chama Reguengos?
– Não faz mal, é só um nome.
– Como Isabel?
– Como Isabel.
– Como António?
– Como António.
– O meu avô também é António. Chama-se Avô António e o pai só se chama António.
– Pois é, olha só me chamo António.
– Menino Antoninho não se aproxime do lago que ainda cai lá dentro.
– Se cair lá dentro como um peixe inteiro.
– Que horror!
Nesse tempo, quando eu era capaz de comer peixes vermelhos, não havia António. Nem Isabel. Nem Reguengos. Havia tias, havia o senhor José a regar. Ao tirar o chapéu ficava-lhe um vinco na cabeça grisalha.
– Porque é que os cabelos ficam brancos?
– É da idade.
– O que é a idade?
– É quando a gente somos velhos.
– Eu não envelheço, pois não?
– Claro que não, menino.
E se não fosse março não envelhecia.
O senhor José morreu há muito tempo. Vestia uma espécie de fato-macaco, andava sempre com uma mangueira. Dois lagos no jardim, um grande e um pequeno. O grande com um caramanchão e de pedra. O pequeno de azulejos, mais perto da casa. Eu a descobrir coisas: vermes, gafanhotos. Uma bomba de gasolina na estrada, às vezes tropa a marchar. Os dois castelinhos das Portas de Benfica, árvores à esquerda, mendigos. A carroça do rapaz corcunda que vendia leite e descia com dificuldade lá de cima. Nunca lhe soube o nome mas invejava-o: queria ser grande muito depressa para vender leite também, mas depois de crescer já não me apetecia vender leite: somos tão inconstantes. Mas, como aconselha o Júlio
– Aguenta-te
e lá me aguento, que remédio. Encostado à minha única parede aguento-me. Não uma parede inteira, um pedaço. Sempre é melhor que nada. E talvez consiga ficar assim muito, muito tempo.”

António Lobo Antunes

sábado, maio 19, 2018

Bairro alto

Menina Boop, com 14 anos está a ter a sua primeira experiência de saída à noite no Bairro Alto.

Eu, "mãe extremosa"  estou no carro à espera da princesa....
Que rápido crescem!!!!!

Que seja a primeira de muitas e com muito juizinho !



PS - Ainda é muito cedo para Bairro Alto. Tem tempo de crescer... Há-de voltar seguramente mas espero que não tão cedo. Estava a ensaiar uma de mãe moderna, mas.... é cedo!
Correu bem! Gostou! Portou-se lindamente como seria de esperar!
Mas ainda é cedo!!!

terça-feira, maio 15, 2018

Voltar ao lugar onde se foi feliz

Parei o carro em frente ao portão.
Apercebi-me que pouco a pouco deixei de cá vir.
A casa foi deixando de ser minha devagarinho, numa despedida silenciosa e delicada. 
De repente dei conta que há muito não me sento nas escadas da casa vazia com um livro nas mãos, pretexto tantas vezes usado para por aqui me demorar um bocado.
A casa não tem ruidos.
O cão já não ladra aqui, não há riso nem choro, não há música.
A casa não tem já a cor da minha desarrumação, a luz generosa que entra pelas janelas não encontra já o mesclado de tons fortes com que sempre me rodeei. 

Mas tem-me.
Ou tenho-a eu a ela nas memórias que trago.
De filhos ainda bebés, de festas, de momentos solitários, de acidentes domésticos, de musicas, de feijoadas, grelhados, caris, de cerejas...

Mas estranhamente tenho ainda aqui as minhas orquídeas.
Dão-se bem nestas janelas, ecossistema favorável, de luz, humidade, calor.
Venho rega-las de vez em quando (muito menos vezes do que devia) e penso sempre que tenho de as levar....
São a parte de mim que aqui ficou. De pedra e cal!

Vou ver a caixa do correio.
E saio sem saber quando voltarei.

(Escritura de venda dentro de sensivelmente 1 mês)