quinta-feira, fevereiro 12, 2015

Mãe - neve

A propósito deste poema de Herberto Helder


Na altura em que os dias tinham horas incontáveis e os Janeiros eram inícios de anos imensos e infindáveis, a mãe enrolava os dedos nos caracóis do meu cabelo e falava-me do mundo para mim cheio de mistérios que nos seus lábios se transformavam em estórias deslumbrantes, mágicas e às vezes terrivelmente inquietantes.
Nos braços dela, mãe refúgio, vivia o hoje.A Lua que espreitava pela janela misturava-se com ela, cúmplice e guardiã de segredos, continha em si todos os terrores, cheiros e sabores.
Sei agora que era o mundo negro da minha mãe que habitava a lua.
Impregnado do seu alfabeto, aprendi a forma como conjugava as palavras e através delas nos envolvia aos dois no seu mundo de neve negra.
Abraçava-a na noite.
O calor do seu corpo levava para longe o peso frio do futuro longínquo. O colo era eu que o dava sem saber. E sonhávamos os dois com dias de sol que nunca vieram, em que pedalávamos juntos sem rumo, e colhíamos suculentos frutos de uma vida que não era a nossa.
O Novembro chega a passos largos, e com ele o negro nos olhos da minha mãe.
Pressinto um fim que se aproxima e intuo o desmantelamento caótico da ausência dela. quero que pare! Estátua! Quero lembrar-me de todas as estórias, e esculpi-las uma a uma numa pedra preta, cor de noite e cor de mãe.
Que volte o Janeiro frio em que me engano nas palavras quentes trocadas em voz baixa, em que ainda transformo as escamas frias do teu colo de mar profundo em mundos de terra fecunda, e em que a lua guarda o teu negro, e o teu espanto nunca mais acabe pelo tempo fora.

1 comentário:

Fatyly disse...

Gosto muito do poema do Herberto mas ainda gostei muito mais da tua prosa...senti frio, mas não deixei de "pedalar sem rumo" para emoções mais quentinhas. É a vida!

Beijocas