terça-feira, maio 17, 2016

Dia Internacional das Histórias de Vida

(dia 16/05 foi o dia internacional das histórias de vida. Ouvi na rádio relatos de vidas únicas, de migrações, de sofrimento, de descobertas, de gente que mudou ou traduz de forma quase caricatural, de tão crua e desconcertante, o mundo de hoje, eu… dou voz às histórias simples… vocês sabem como me encanto com os pormenores!)


O eléctrico passa na rua, Maria sabe-o o das 8h da manhã, nunca ouviu outro eléctrico senão esse, uma atenção selectiva que desenvolveu não sei porquê...era o eléctrico em que ele chegava, quando vinha vê-la logo cedo, antes que a vida dos dois começasse. Costumavam brincar os dois. Diziam que quando se encontravam o mundo parava, que tudo o que existia para além dos dois perdia significado, os seus mundos reorganizavam-se momentaneamente, as prioridades alteravam-se, às vezes até a noção de certo e errado parecia flexibilizar-se. Nada  parecia errado ao ser vivido com ele.
Ouve o eléctrico e é como se esse som pertencesse ao limbo entre o sono e a vigília.
Não quer acordar desse sono em que pode sentir que a realidade não se impôs. Que a vida não lhes mostrou que não havia espaço para os dois.



Trabalho
Eis a realidade que se impõe.
Levanta-se. Sente a casa vazia. Gosta da casa assim, sem olhos para ela, sem horários de outros para conciliar.
Sente-se dona do seu percurso. Sente que cresceu tanto, às vezes é quase mágico saber-se alí, adulta, construtora de si mesma. A sua vida anónima para tantos, pertence-lhe. As escolhas, boas ou más, são suas. E é estranhamente sereno este pensamento.
No banho recorda-o mais uma vez.
Como estará?

O estirador espera por ela,
Um projecto para discutir amanhã, a realidade mais uma vez !…
Embrenha-se com entusiasmo.
Na verdade adora o que faz!
E neste espaço de realidade e de criatividade,  em que o mundo todo se íntegra na sua folha de papel, não parece, na verdade ,que haja espaço para os dois.

Onde andará ele?





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