segunda-feira, janeiro 22, 2018

No avesso do Amor

Preso entre a ombreira e a porta, na casa que outrora foi dela,  está há uns dias um envelope. Não mora aqui ninguém. Partiram todos sem deixar nova morada. A chuva que começou a cair está a pintar com grossas gotas o papel, que de branco está a passar a um cinzento azulado, diluindo as palavras. Conseguimos num exercício voyeur imaginar as palavras a contorcerem-se, a misturarem-se até não passarem de uma mancha clara e suja, sem qualquer resquício de significado ou afectos. 

("Dizias sempre que já ninguém escrevia cartas à mão..!")

Há quem diga que o amor não tem avessos. Que é belo, magnânimo, desinteressado, que por amor... Ilusões, histórias infantis, ...

Ele recorda-se amiúde, como se de fotografias animadas se tratassem, de pequenos retalhos - não fica triste nem feliz. Está apenas ocupado ainda pela presença dela. E vê-se invadido, sem qualquer aviso, por sensações intensas que lhe trazem o cheiro dela, a voz, o toque de pele macia na parte interna das coxas, a forma como ela gostava de lhe morder o lábio inferior quando o desejo crescia,...

("Dizias que me deste de ti o que mais ninguém teve, e sabes? Acreditei!")

Escreveu-lhe uma carta. Deixou-a lá, na esperança longínqua de que lá voltasse. Hoje chove, se ainda lá estiver a carta será lentamente ensopada, Ele sorri, é como se fossem as lágrimas que não lhe fez sentido chorar. São lágrimas, não as suas nem as dela, que vão acabar de vez com a história dos dois.
E ali está ele no lado avesso do amor. Ocupado de um sentir oco por o saber estéril. Um sentir sem eco. Não se pode amar sozinho.
Fotografia de Rui Bento - estação de metro Roma
O metro abranda, ainda falta uma estação para a sua vez de sair, o chiar das rodas nos carris não o arranca dos seus pensamentos, olha para a janela, e vê espelhado o seu avesso. Um amor com uma letra trocada. É isso! Um amor que ainda reconhece e ao mesmo tempo já não o é

("Meu amor, 
nunca mais te chamarei assim porque não és mais minha")

Entram pessoas na carruagem com casacos ensopados, cabelos molhados, guarda-chuvas a pingar. A carta terá o seu fim hoje. Nunca ninguém a lerá. Mas não faz diferença. Também ela o conheceu por dentro, e sabe seguramente o que ele teria para lhe dizer. Surgirá aos poucos o espaço para um novo amor que, como qualquer homem apaixonado, acreditará não ter avessos, irá mergulhar de cabeça e redescobrir-se noutros braços. 

("Ainda tens contigo parte de mim, mesmo que o não saibas, vou precisar de tempo para a resgatar, mas não penses em mim como estando virado do avesso, segue, a tua vida espera por ti")

Nem quer crer que caiu nas frases feitas. E pareceram-lhe tão suas quando as escreveu.  A carta seguramente estará desfeita neste momento. É melhor assim. Vai sair na próxima estação - Alvalade - quem sabe se o próximo amor da sua vida não será sportinguista? 


4 comentários:

Fatyly disse...

Faltam-me as palavras para comentar esta ternura vindas de tantas emoções...digo apenas isto: gostei e emocionei-me!

Beijocas

Gil António disse...

Bom dia. Visitando saio feliz porque gostei muito do seu blogue e das coisas que aqui se publicam. Voltarei
.
* Adejam pétalas ... como lábios se beijando *
.
Deixando votos de um dia feliz

Boop disse...

Fatyly,
Beijo
:)

Boop disse...

Gil Antonio,
Bem vindo