domingo, março 26, 2006

Pretença

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Somos mais do que nós mesmos!
Quando se prossegue; quando não se tem a certeza; quando apesar de tudo, parece certo!
A gritar "Aqui d'El-Rei!"
É porque estamos preenchidos - de mãe, de pai, de amigos, de filhos, de amantes, de gente!
De pátria? De pretença!



"Mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
A roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tetos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-Rei D. João Segundo!»

«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!»

Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!» "

(escusado será dizer : Fernando Pessoa)

3 comentários:

francisco disse...

Numa altura de crises; economica, moral,... vale a pena recordar outros tempos em que os Portugueses tinham uma alma! O neo-liberalismo parece ser o responsável de toda a situação actual que o país atravessa...mais vale acreditar num estado socialista!

Ines disse...

A primeira imagem é do cabo bojador "it self". (não resisti a ir ver como se parecia o "monstro"...)
Não parece tão assustador assim! Como as águas tranquilas podem esconder correntes tão fortes!

nita disse...

sei esse poema de cor...
assim só por acaso, na primeira aula de português do próximo período, o stôr vai mandar-nos declamar um poema à escolha que tenhamos trabalhado durante as férias, e esse foi o que escolhi...

o mais estranho é que somos mais do que nós mesmos quando menos esperamos...

beijinhos..
Ana