sábado, fevereiro 24, 2007

Aquele Cativo, que me tem cativa...

Este é um poema de camões que conheci pela voz do Zeca Afonso.
Tenho pena de não saber usar as palavras como elas merecem. Nunca soube... Posso até brinca-las, jogar com elas, mas usa-las... falo daquele uso de quem as conhece intimamente, de quem não tem pruridos, que sabe usar o termo exacto, no verso exacto, na rima precisa. De quem usa o preto para falar no branco, a ausência para dar corpo à presença; a zanga para exprimir o desejo. E de quem encontra palavras para falar de amor.

Aquele cativo que me tem cativa... (permitam-me a mudança de género)


Aquela cativa Que me tem cativo,
Porque nela vivo Já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa Em suaves molhos,
Que pera meus olhos Fosse mais fermosa.

Nem no campo flores,
Nem no céu estrelas
Me parecem belas
Como os meus amores.
Rosto singular,
Olhos sossegados,
Pretos e cansados,
Mas não de matar.

Uma graça viva,
Que neles lhe mora,
Pera ser senhora
De quem é cativa.
Pretos os cabelos,
Onde o povo vão
Perde opinião
Que os louros são belos.

Pretidão de Amor,
Tão doce a figura,
Que a neve lhe jura
Que trocara a cor.
Leda mansidão,
Que o siso acompanha;
Bem parece estranha,
Mas bárbara não.

Presença serena
Que a tormenta amansa;
Nela, enfim, descansa
Toda a minha pena.
Esta é a cativa
Que me tem cativo;
E pois nela vivo,
É força que viva.

14 comentários:

psique disse...

ola Inês...Zeca Afonso era o dom... adoro as letras as musicas que me acompanharam sempre. Conheci-o ainda menina e essa lembrança nunca se apagara da minha memória.

Rafeiro Perfumado disse...

(entrando com as costas doridas por causa das chicotadas)
Estou perdoado? Terei de ficar cativo?

Fatyly disse...

Parabéns pelo post. Zeca merece ser lembrado.


Mas também gosto muito de tudo o que escreves.

Beijos sinceros

Carrrelitos disse...

hum...pronto n era bem assim, mas ...um beijo pra ti!

Anónimo disse...

Tomara muito boa gente (ó pra mim a chamar-me "boa"!...) saber usar as palavras como tu!
Beijos grandes, mana!

Rafeiro Perfumado disse...

Tás feita??? Eu não fui!

(fugindo velozmente)
TAGADUM-TAGADUM-TAGADUM

stela disse...

Gostei de reler o texto... Um homem que com certeza merece ser lembrado...
beijos

mixtu disse...

inês, posso ser sincero?

mixtu disse...

quem cala... consente,

mixtu disse...

gostei mais da tua apresentação do que do poema, era suposto falar do poema... mas não sou politicamente correcto..

Fui...

mixtu disse...

esqueci-me, um beijinho, quer dizer, como se apaga o "esqueci-me", e agora estive mal, é que sem o "esqueci-me" ficava mesmo espectacular só o "beijinho" num só comment, é pah quedava um espectaculo...
às vezes, não tenho mesmo jeito

Custódia C.C. disse...

O Zeca deu-nos a conhecer a todos muitas e belas coisas ....

mac disse...

Atenção!Tratava-se de um soneto! (14 versos, organizados em duas quadras e dois tercetos, lembras-te?...)Assim organizado até parece outra coisa. Talvez um Álvaro de Campos, pr'aí...

Anónimo disse...

Mas o Álvaro de Campos é exactamente um dos gajos com quem eu fugia... Só para o ouvir poemar, claro está, que com um feitiozinho daqueles, não devia ser flor que se cheirasse... até o Fernando Pessoa tinha medo dele. (Quando estava a escrever à Ophélia, de vez em quando rematava «Não posso continuar porque acabou de chegar o Sr. Engenheiro Álvaro de Campos.»)
Não foi uma reprimenda, foi o constatar que a forma influi no conteúdo, que assim até parece outra coisa...
Reparaste? Até somos da família... (O Campos e a Campos, tás a ver?...)
mac