terça-feira, novembro 26, 2013

Tradutores de Inquietudes

Ligia estava a ouvir aquela canção.
Não parava de pensar como havia pessoas que tinham a felicidade de respirar música. Aos olhos dela havia aqueles seres estranhos que se alimentam de notas, pautas, escalas. Estranhos mas fascinantes que pensavam em colcheias, claves, fusas e semi-fusas. que conseguem traduzir em pequenos símbolos, os sons, histórias, afectos. E os poemas que, declamados a cantar, se revelam enamorados das notas e delas se tornam inseparáveis.
E há músicas que lhe falam dela.
Há letras que parecem ter sido escritas com profundo conhecimento do que ela sente.
Como é possível que outros, tão longe, tão estranhos, tão diferentes, sintam da mesma forma as secretas inquietudes.
Perene poesia, inolvidável melodia.
E ali fica, a ouvir traduzidas as suas entranhas, a pedir emprestadas palavras, a ouvir a harmonia de afectos tão seus.

terça-feira, novembro 05, 2013

Para que se lo coman los gusanos, que lo disfruten los humanos

Vou.... Não vou......
Já sentiste isto tu?
O estomago ao mesmo tempo vazio e a pesar uma tonelada... o nó na garganta... as pernas bambas.... e todos os outros clichés....
Vou.... Não vou......
A maçã do Eden oferecida, sedutora, tentadora.
Mordo.... Não mordo......
Arrisco?
Afinal só vivo uma vez!
Vou!
(... ou não vou....?)


(esta expressão ouvi-a da boca de uma espanhola, a Silvia, mulher livre, com uma vida que adivinho rica, falando nos prazeres da vida, do arriscar coisas novas, enquanto deixava um rasto indelével de cor nos meus cabelos, - pequeno prazer da transgressão?)


3 meninas - João Cutileiro

segunda-feira, novembro 04, 2013

Será amor?

Manhã cedo, ele desperta devagar.
Ainda na cama, a meio caminho entre o sonho e o dia que aí vem, decide: "hoje não vou esperar!"
Banho rápido. Dentes lavados.
Veste-se sem pensar muito: mete-se dentro de umas calças de ganga e pega na camisa que descansa nas costas da cadeira.
Pára de repente!
Respira fundo e sai de casa.
No carro não dá atenção à música que teima sair pelas colunas, como se não soubesse que é em vão, que não vai ser ouvida, que o pensamento está ocupado por ânsia! desejo! amor ?
Conduz em modo automático, não pensa claro, o que vai fazer quando chegar? Liga? Sobe?, Pergunta? grita da rua a sua avidez, e desespero. ânsia! desejo! amor ?


Chega!
O imponente edificio de escritórios está a sua frente.
Qual será ao certo a janela dela? Aquela?

E se não está?
E se está em reunião?
E se não me quer?
E se acha louca e inoportuna a minha presença?

É melhor voltar amanhã.......
Hoje mando-lhe um mail... a saber como está.........