terça-feira, janeiro 20, 2015

Pequeno embrulho

Há, no apartamento da Almirante Reis, uma sala pequena que é a sua preferida. A tia Isabel Maria tinha feito daquela divisão sem janelas um quarto de vestir e lá mandado instalar um cadeirão de orelhas, agora já gasto e roçado. Os grandes guarda-fatos, escuros e imponentes, tinham perdido o encanto de outros tempos e enchiam-se agora das coisas que a ninguém faziam falta.
Vezes sem conta se refugiou naquele recanto que parecia ter sido esquecido por todos os outros. estranhamente ninguém aparecia por lá, nunca! Nem mesmo quando a procuravam a ela, e se punham a chamar " Conceição! Conceição! Onde é que aquela miúda se terá metido? Conceição?!" Nada! Parecia que se recusavam a reconhecer aquele quarto como parte integrante da casa.
Era por isso o melhor lugar de todos!

Foi por baixo da almofada do cadeirão que enquanto menina escondeu o seu diário, foi ali que sonhou e chorou todos os amores da sua vida, ali viajou por páginas de mil livros devorados à luz pálida da lâmpada do velho candeeiro. Escreveu cartas, estudou compêndios, fez-se e reinventou-se.
O pequeno embrulho que trazia nas mãos esperava a luz tépida daquela sala para ser aberto. Era como que um ritual, os tesouros que a vida lhe trazia tinham outro sabor ali. É sabido que os tesouros são as coisas pequenas, secretas, que são únicas para cada um. Idiossincrasias inexplicáveis. Nas suas mãos estava o amor. Ideia aparentemente disparatada e ridícula, mas não tinha outras palavras para o dizer. Tinha nas mãos o amor. O amor sob a forma de música, temas escolhidos só para ela. Numa sequência impartilhavel, irrepetivel.
Sentou-se confortavelmente no cadeirão, fechou os olhos, e ficou a ouvir o amor.

1 comentário:

Fatyly disse...

Que delícia...e é nesse "recanto que todos temos" que podemos desfrutar de "coisas pequenas, secretas, que são únicas para cada um".

Ai o amor...que pode e deve ser sentido e vivido nas suas mil formas.

Beijocas

(Só hoje consegui comentar já que esta geringonça não abria:))