segunda-feira, outubro 05, 2015

Kos - Eros e Thanatos



Ontem, no mesmo dia em que me despedi da ilha de Kos e da 5th Sociodrama Conference,  deram à praia, junto a um hotel (poderia ter sido o meu, e nesta praia que tranquilamente fotografei) os corpos de duas crianças - noticia aqui.

É impossível ter lá estado e não pensar esta questão.
Foi muitas vezes abordada e trabalhada, das mais diversas formas e dos mais diversos ângulos.
E conversada, nos intervalos, almoços e jantares.

Muitas vezes me perguntaram - e Portugal?
Sei que está prevista a integração de cerca de 3000 refugiados, mas até agora muito poucos chegaram. E não é o sonho de ninguém chegar a Portugal.
Já a outros países...

O que ouvi:

Que quem chega aqui, a Kos, não quer ficar, quer seguir rapidamente para a idealizada Europa, a ideia de  oferecer uma tenda e dizer "espera a tua vez de seres colocado em algum lugar" não é bem recebida. Os que chegam são instruídos para não sairem da zona restrita junto da esquadra da policia. Nem mesmo para procurar ajuda médica se necessária.
Pelo que percebi todos os que aqui chegam são identificados e depois encaminhados para algum lugar.

Que o governo local não está muito organizado, não tem políticas claras face a esta situação, são os voluntários que se vão gerindo e encontrando algumas respostas - o que cria, como não podia deixar de ser, tensões entre o governo local e os voluntários.

Que a população já experienciou coisas muito difíceis: os mortos no mar, a falta de condições mínimas de higiene para o acolhimento, um misto de empatia e o sentimento de estarem a ser invadidos por uma situação humana tão marcante para a qual não foram tidos nem achados.

Que são milhares os que já por aqui passaram (nesta ilha pequena de menos de 300 km2)


A Grécia, com uma população de cerca de 10 milhões de habitantes, tem uma comunidade de imigrantes e refugiados que ronda os 3 - 4 milhões. Já não se vêm, em parte nenhuma da Grécia, crianças a brincar sozinhas na rua, ou a irem a pé para a escola. Já ninguém sai de casa sem verificar se está tudo bem fechado, nem viajam com a descontracção de antigamente.

Que países, como a Noruega, recebem os refugiados mas assim que completam os 18 anos não lhes é renovado o visto de residência. E estes miúdos  a maioria sem família ficam soltos na nossa Europa sem fronteiras, sem paradeiro certo, em fuga. Formam o nomeado "
schengen gang".


O que eu vi:

Ao entrar na cidade do nada começam a aparecer tendas de campismo, estão montadas nos passeios, perto do porto. Do outro lado da marginal estão as lojas e restaurantes para turistas. Só se vêm homens, a esmagadora maioria jovens, pergunto-me onde estariam as mulheres e as crianças, provavelmente no interior das tendas longe dos olhares estranhos.

Não vi olhares perdidos, nem rostos enegrecidos pela tristeza e vazio.
Vi jovens a conversar. Alguns riam, brincavam com qualquer assunto que os ocupava. Outros falavam ao telemóvel (quem sabe se com a família e amigos que ficaram para trás).
Alguns pareciam "na maior".
Esta imagem desconcertou-me. Não esperava por ela...
Há seguramente muita insegurança no futuro! Mas há uma etapa que já foi cumprida - a chegada à Europa .

E também pensei... Quantos não estarão a tirar proveito da maior facilidade da abertura das fronteiras, a oportunidade perfeita para a entrada na Europa, mesmo que não seja real o perigo que correm no seu país de origem (será essa a condição para serem considerados refugiados, não?). E arriscam tudo, inclusive a vida, na procura de um futuro europeu. 

E em TODOS os europeus senti a ambivalência.
O respeito e a empatia pelo outro, e pelo seu sofrimento. O profundo desejo de igualdade, de humanidade. O querer poder fazer alguma coisa para com aquele outro que está neste momento sem qualquer futuro possível, em sobrevivência.
Mas também senti o medo, a insegurança que se instala, a desconfiança. O medo do estado islamico, o medo dos assaltos, o medo de perder os postos de trabalho, o medo…

Não tenho conclusões a tirar.
Sei que a guerra interessa a alguns, e que esses alguns fazem o mundo rodar
E que vivemos momentos incertos!

2 comentários:

Fatyly disse...

Essa tua experiência/vivência também deveria ser feita pelos "senhores do mundo" mas sem seguranças e estatutos e sim como cidadãos que são. Se assim fosse muita coisa mudaria.

Deste um murro no estômago e "incertezas" sempre existiram...mas hoje mais do que nunca.

Os senhores sentados em poltronas falam da Grécia como "os malandros incumpridores" quando eles desconhecem a dura realidade no terreno.

Obrigado BOOP e nunca desistas

Beijos

Boop disse...

Obrigada Fatyly!
:)