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domingo, março 17, 2019

Ser em construção

Calos Farinha - Greta "I started to believe again in mankind"
- Mãe quero perguntar-te uma coisa. Sabes o que vai acontecer na 6ª feira?
- A greve? por causa das alterações climáticas'
- Sim. Se eu fizer greve justificas-me as faltas?
- ???

A conversa prosseguiu.
Construir uma consciência política (não falo de definições partidárias) terá os seus degraus.
Na verdade o que tentei perceber foi o processo interno de envolvimento na causa.
Para mim, o aderir a uma greve sempre foi uma questão de convicção, e por isso mesmo um assumir de consequências - a perda de um dia de ordenado por exemplo (e olhem que tive as minhas discussões laborais por causa disto).
Mas nunca quis impor as minhas convicções a seja quem for, mesmo aos meus filhos!

Senti a menina Boop a meio do degrau.
"Acredito na causa: greve estudantil pelo clima
Mas só vou se os meus colegas também forem... não vou ser a única, não è?"
(A questão da justificação das faltas acho que era só para nos tranquilizar a nós, e dizer que na escola não a penalizariam por isso. Mas também seria sinal de não estar convictamente a abraçar a causa pela qual dizia querer dar voz? )
Tem 15 anos acabados de fazer. Percebo que não queira ir para o meio de Lisboa sozinha para o meio de uma multidão sem o suporte dos seus pares - nem todas as raparigas são uma Greta Thungerg! 
E que necessite de aprovação e suporte nas suas decisões.
- Claro que podes ir, tenhas falta ou não.

Mas esta questão ainda me vai dar que pensar.
Ter consciência cívica é realmente um processo, de integração de modelos, exemplos, aprendizagens, descobertas,...
Tenho que rever o meu lugar nesse processo!

Fotografia da Revista Visão


quarta-feira, abril 04, 2018

Comunicar




Consegui organizar a minha semana para estar hoje com a prole ainda em férias de páscoa como é sabido.

Fomos ao NEWSMUSEUM, que ocupa o espaço do antigo museu do brinquedo em Sintra.
Gostamos mesmo muito! Pudemos ser repórteres de TV, locutores de radio, fazer jogos e viagens por um universo virtual - recomendo MESMO a visita.

Uma das salas é dedicada ao jornalismo de guerra. Tem excertos de reportagens, elabora sobre o papel e o poder dos órgãos de comunicação social, e da informação em si.
Às tantas deparei-me com o vídeo que aqui coloco.

Como partilhei o Mr Boop esteve agora 1 mês no Iraque (regressou este fim de semana e correu tudo muito bem, obrigada!), e antes disso andou por outros cantos esquecidos do mundo, Sudão do Sul, Congo...
Nunca foi por dever, mas sim por escolha, ou uma demanda interna se assim o quiserem. 
Mas sempre pudemos falar diariamente, uns minutos, poucos, de vídeo chamada, e tranquilizavamo-nos de parte a parte.

Comoveu-me ouvir estes homens.
Longe e incomunicáveis. 
E percebi o quão importante deve ter sido, para os próprios e para a família, vê-los e ouvi-los. Sabe-los vivos. 
Esquecemo-nos com demasiada facilidade o quão diferente era o mundo, o quão mais distantes estávamos. 

Olhem...
Se puderem, passem por lá!

sexta-feira, novembro 17, 2017

A musica que os filhos ouvem...


...mas tenho a certeza que não ouvem o mesmo que nós.

(ou sobre como as nossas histórias - as nossas , as dos outros, as dos filmes, as dos sonhos, as da fantasia - nos emprestam novas formas de ler, ouvir e pensar)

segunda-feira, outubro 16, 2017

Senhora da Serra

"Tocava para as nuvens"    Carlos Farinha   2011

Sentada num penedo, um pouco afastado do caminho, espero. Sei que vão aparecer não tarda, subindo a ladeira, e que antes mesmo de os ver vou ouvir as suas vozes compassadas, ritmadas, e o sino do padre João.
A pedra onde me sento pesará mais de uma tonelada (nem sei bem o quanto é uma tonelada), não consigo saber as reais dimensões, parcialmente enterrada na terra, oferece-me hoje a superfície lisa para encosto.
Ocupa-me a ideia de que esta pedra é imortal (como se lhe conferisse vida, num jogo ao desafio com o criador), que permanecerá indiferente a todos os homens que subirão a serra, a todos os fogos, a todas as secas.

Não sou daqui de tras-os-montes, daqui não vejo Bragança, nem sequer Rebordãos, mas sinto no ar o peso de uma angústia que enquanto aqui estou se torna minha também. Não chove! Nas árvores os frutos mirrados não crescem, os pastos não ganharam a tonalidade verde, as ribeiras correm como finos fios de água.
Passei, até aqui chegar, por terras queimadas de fogos recentes. Até eu consigo sentir a esterilidade dessa terra morta, num esforço ainda tão insipiente de reter recursos e recolocar em funcionamento um ecossistema tão complexo e delicado como o destas montanhas.
No meu telemóvel abri a aplicação da meteorologia. Preveem-se baixas de temperatura e chuva para a próxima semana. Mas hoje, está um dia de Verão! E o povo, gentes que fizeram desta serra morada, não se fiam na meteorologia. Leem, com uma ciência secular, os campos e os céus, e neles nem sombras de nuvens, a chuva que os doutores dizem que virá não chegará para alimentar a terra, será pouca.

Começo a ouvir um cântico.
Imagino-os a subir  pelo caminho, rostos cansados e envelhecidos, pelos anos e pelo trabalho, consigo trarão o pesado andor com a imagem da Nossa Senhora da Serra, a quem pedem chuva.
Para mim o recurso ao pensamento mágico por desespero e falta de solução. Para eles uma expressão de fé, uma súplica à mãe.

Passam por mim, ninguém parece reparar que ali estou apenas a poucos metros, em vozes desencontradas cantam e rezam "Santa Mãe de Deus, mandai-nos a chuva, somos filhos teus"
Comovo-me, e desejo genuinamente que chegue a chuva em abundância, aqui em Rebordãos e no resto do país.

E eu penso que os tempos não voltarão a ser os mesmos, e que a voz do povo terá de mudar, que dificilmente se voltará a dizer "Em Trás-os-montes existem nove meses de inverno e três meses de inferno"

E assim vai o mundo

sábado, julho 08, 2017

Kundu




Dois livros terminados nestes dias.
Hoje escolho falar do Kundu.

Porque neste dia de Verão envergonhado, estive a termina-lo junto ao mar.
Um livro que nos traz a selva tórrida, de calor, corpos, misticismos, sexualidade primitiva, e europeus num mundo que não lhes pertence.
A Papua Nova Guiné lida, imaginada, fantasiada, na frescura aprazível de uma tarde atípica de Julho perto da praia do Guincho.
Uma combinação improvável.

E...

O reencontro com Morris West.
Não lia nada dele há uns 20 anos. Não sabia se me iria desiludir. Se a maturidade inevitável me faria olhar para a sua escrita de forma diferente.
Mas foi como reencontrar um amigo.
E estarmos os dois à conversa sabendo das histórias decorridas nos anos transactos.

Grande escritor!

segunda-feira, maio 15, 2017

Blog - este lugar de queridos desconhecidos


Há dois espaços virtuais por onde me "passeio"
(Já ensaiei outros, mas não tenho tempo para me desdobrar em mais linguagens)
Um onde só tenho pessoas que conheço pessoalmente , sem excepções! - O grande "livro das caras" (vulgo Facebook).
Outro onde quem me visita são essencialmente "desconhecidos" - aqui o Canto - tenho ideia que os meus amigos só por aqui passam quando envio um link para um post especifico, mas pode ser que me engane. Na verdade não sei quem por aqui passa.

Hoje dei por mim a pensar neste lugar dos desconhecidos.
Quem são as pessoas que me "seguem" na internet... quem são as pessoas que eu "sigo"?
Só esta palavra "seguir" já nos diz muito - acompanhamos outros, os seus percursos, percalços, pensamentos, poesia, amores, alguns até partilham pormenores quotidianos. Eu própria vou fazendo/mostrando tudo isto.

Muitas vezes um "seguir" passivo, sem grandes manifestações (ou nenhumas até), uma postura de um voyeurismo subtil.  Fico curiosa com os que por aqui passam sem deixar rasto, o que terão pensado? sentido? Quem são? O que procuravam? O que encontraram? Mas resigno-me a não saber. :)
O que mais prezo neste mundo virtual é a liberdade, o livre acesso a conteúdos, e ao que voluntariamente cada um quer partilhar de si. (Mas lá que fico curiosa - fico!)
E na verdade também eu vou passando por alguns lugares sem deixar marca da minha passagem.

...outras vezes num caminho quase ao lado, a par e passo, como quem é companheiro de jornada, e vai conversando pelo caminho deixando comentários, reflexões, sorrisos, provocações, onomatopeias. Reagindo quando e como quer.
Há pessoas que acompanho assim há anos, e que me visitam a mim há anos.
Mesmo que involuntariamente fui construindo essas pessoas dentro de mim. Lendo nas entrelinhas, apanhando aqui e ali dados pessoais, intuindo convicções, percebendo os locais onde moram, os seus gostos.
Crio na minha cabeça pessoas que seguramente não correspondem ao real mas que pouco a pouco se tornam mais coerentes e previsíveis (no bom sentido do termo, que é como quem diz que deixam de ser totalmente desconhecidos e estranhos)
Acredito que alguns façam o mesmo em relação a mim.

Já dei por mim, uma ou outra vez (não muitas! Mesmo muito poucas!) a escrever um mail, partilhando que estive por perto, ou adiantando algum pormenor menos publico da conversa que se desenrola na caixa de comentários. Ou questionando uma dúvida, uma perplexidade, um mal entendido.
E também já aconteceu, perceber a meio da jornada que um blogger nada tem a ver comigo, que não me reconheço no que diz, e simplesmente "deixo de aparecer" (a esses não preciso dizer nada!)
E já houve quem se zangasse comigo por não devolver visitas ou comentários... paciência! :)

Este mundo virtual, que permite encontros, e que transportemos connosco alguns "queridos desconhecidos"




quinta-feira, maio 11, 2017

Constatação

As pessoas ficam tão mais bonitas quando estão felizes

sábado, abril 01, 2017

O Nosso Reino



Qualquer crítica é boa publicidade.
Foi a polémica à volta do livro de Valter Hugo Mãe "O Nosso Reino" que me fez ir buscá-lo à estante. (http://observador.pt/2017/01/30/o-nosso-reino-de-valter-hugo-mae-recomendado-ao-3ociclo-por-lapso-informatico/)

Gostei bastante de outros livros de VHM! 
A máquina de fazer espanhóis
O apocalipse dos trabalhadores 
O filho de mil homens
O remorso de Baltazar Serapião
Homens imprudentemente poéticos
...

"O nosso reino" estava perdido aqui por casa sem lhe ter pegado ainda.
Foi só depois do alarme geral, das várias considerações publicadas, das leituras públicas da obra, que me debrucei sobre ele.

E:
Não gostei!
Não o aconselharia nem para o 3º ciclo, nem para o secundário!
É um livro confuso e violento (ou pelo menos eu senti-o assim). 

Fiquei curiosa sobre o que acharam os miúdos que o leram... (Não o suficiente para ir procurar reações...)

Mas há tantas outras obras do VHM que são tão mais.... Interessantes!
Alguém leu?

segunda-feira, março 27, 2017

Está tudo louco?

Mas andam todos a matar-se uns aos outros?!?!
Quando é que aprendem a não divulgar este tipo de notícia?!?!
Não percebem que tornam fantasias possíveis e põe-se os loucos todos a agir?
Tem sido todos os dias!!!
(Se não divulgam suicidios, porque não aprendem a não noticiar este tipo de situações também!?)
Irra!

quarta-feira, março 22, 2017

Porque preciso da poesia*

(Escrevo enquanto oiço o debate na assembleia da república...)

Ontem falei de poesia enquanto o mundo (a Europa do Sul, vá) se indignava  com a escolha de palavras de Jeroen Dijsselbloem.
Aqui se discute muito mais do que a forma (que terá sido infeliz) a questão democrática dos filhos e enteados e dos parentes pobres da Europa. De fado e de siestas. De preconceitos. E de um milhar de coisas mais.
Hoje, dia em que alguém nos lembra do aniversário do atentado em Bruxelas, somos, a mesma Europa do Dijsselbloem, confrontados com o que se passou em Londres com múltiplas vítimas.
E fazemos por esquecer no nosso dia a dia, que estamos num mundo preverso, movido por poder e dinheiro, que releva para segundo plano o desespero das gentes.
Síria, Afeganistão, Congo, Sudão, Iraque, Egipto, Líbia, Israel, Nigeria, Iemen, ....
A religião usada como arma de arremesso e manipulação
Crianças que são desde sempre soldados, armados, e enviados na frente para detonar bombas.
O horror é da ordem do insuportável
Que uma onda de refugíados nos obriga a ver.
E desconheço tanto, tanto, tanto - tudo!
Não sei, eu, pelo que passam povos inteiros. Mas só o levantar do véu me enche de angústias.

E por isso...
Me protejo. Nem acho que seja cobardia - é o que é. Lído eu com os meus demónios, que comparados com os do mundo são nada. Mas que são meus!

E a poesia...
A poesia ajuda-me a acreditar que tenho direito a relativizar. E que o belo está nas pequenas coisas. E que tenho direito a elas.
Quando o real vem acompanhado de poesia... Tenho de me render a ela!

______________

*a poesia não está nos versos. Está no estético, na natureza, na pele, na emoção, no sentir, na realacao, no encontro.

sexta-feira, abril 22, 2016

Quando as estrelas se apagam*

David Bowie Jan 2016
Publiquei este texto a 11 de Janeiro.
Hoje(ontem) volto a pensar nele.

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É estranho

Quando pessoas famosas morrem.

Não nos são próximas. Não faziam parte do nosso dia a dia. Não trocávamos mensagens, nem telefonemas, nem lembranças no dia de aniversário. Não lhe comunicamos pensamentos, nem partilhamos segredos. Não lhes tocámos, não lhes falámos. Não havia qualquer espécie de reciprocidade.
Lemmy kilmister Dez 2015
E no entanto instala-se um vazio.
Há milhões de pessoas, pessoas anónimas, que se entristecem.

Como se o mundo ficasse um lugar diferente.
Como se ganhássemos consciência de que algumas pessoas são insubstituíveis, contrariando o que somos obrigados a pensar todos os dias - "não há ninguém insubstituível"! - como não???
Não há é quem se repita!
Em lugar nenhum!

Dever-se-á talvez à experiência estética? (boa ou má)
À emoção que ecoa, e ressoa em nós, face a esse outro, à sua obra, às suas ideias.
Somos mudados pelos outros, e sem dúvida, em maior ou menor escala, por quem "seguimos".
Omar Sharif Jul 2015
Revemo-nos nas palavras de um poeta, Apavoramos com o semblante do terrorista. Encantamo-nos com a música. 
Passam a fazer parte do nosso mundo interno, são personagem que nos habitam e evocamos sem dar por isso.

E quando uma pessoa famosa morre, "boa" ou "má", o mundo assume contornos diferentes sim.
Talvez porque haja esta consciência colectiva, do irrepetível, 
Talvez porque saibamos melhor entender as reacções dos demais. 
Há um antes e um depois, quase insignificante quando olhado com distância, que é reconhecido por todos.
Não é um drama pessoal.
Não doi, nem marca, da mesma maneira que a morte de quem nos é próximo.

É estranho…
BB King  Maio 2015
como se o recorte da paisagem que pisamos se tivesse modificado indelevelmente, uma mudança subtil, mas que faz com que o mundo seja percebido como diferente, com essa ligeira estranheza.
Como se faltasse de repente, na rua em que passamos diariamente, aquele prédio peculiar, em que nunca entrámos mas em que demorávamos o olhar e a curiosidade.
E depois, adaptamos-nos rapidamente. 
E o mundo mudou-se.
E voltamos-nos novamente para os que estão perto. Para os que nos dão os bons dias, para os que nos dão um beijo, para quem nos cruzamos, quer nos façam bem ou mal, quer deles gostemos ou não, Para aqueles que nos reconhecem. E sentimo-nos responsáveis por aqueles que cativamos.
____________________
Manuel de Oliveira Abril 2015

*ideias partilhadas por mail esta manhã, fui escrevendo, para alguém de quem muito gosto, hoje no dia em que se tornou pública a morte de David Bowie

terça-feira, fevereiro 23, 2016

Noite dentro...



Desde muito pequeninos os meus filhos sabem uma coisa:
Se me contarem o pesadelo que tiveram não vão voltar a tê-lo! E podem voltar a dormir!

Esta regra foi transmitida com tanta verdade e certeza que os dois lhe são fieis desde muito pequeninos. Desde que a palavra é um instrumento que podem usar.

O principio simples e intuitivo:
- traduz-se em palavras os afectos confusos - tornando-os "manuseáveis"
- a angustia é projectada para fora e depositada no outro

E resulta quase sempre! (não quero dizer sempre… mas é mesmo quase sempre!)

Acontece vezes sem conta: chamam-me a meio da noite. Oiço meio a dormir a voz entremelada dou um beijo na testa e volto para a cama. Não digo quase nada. Sou apenas empática com a angústia por detrás da história. Muitas vezes de manhã já nem se lembram do pesadelo. Muitas vezes nem eu me lembro do pesadelo!

Mas é tremendo acompanhar assim de perto, sem qualquer censura nem filtro o que pode produzir a mente de uma criança. Olhar de perto os monstros que as habitam, ver a personificação dos seus medos, visualizar os terríficos cenários, ter acesso à mais crua das violências.

Que ninguém ouse dizer que é fácil ser criança!


"Os sonhos são como a tradução para uma língua de coisas intraduziveis de outra; ou como a transposição da linguagem - forçosamente confusa ou complicada - de sentimentos vagos ou complexos, que a redacção normal não pode comportar"

Fernando Pessoa


Podia ter esta banda sonora

quarta-feira, fevereiro 17, 2016

A experiência estética

Mãos em negativo, feitas há 13000 e 9500 anos , na Cova das Mãos ou Cueva de las Manos , caverna situada na Província de Santa Cruz, Argentina.
O homem, capaz de representação.
Maravilho-me!
A experiência estética.
A harmonia,
A intensidade.
E tudo o que hoje podemos ainda emprestar de nós próprios na leitura idiossincrática, projectiva, passional, desta arte viva há mais de 13 000 anos.

sábado, dezembro 26, 2015

Não há Natal como antigamente?

Ouvia o outro dia, que "o Natal nunca tinha voltado a saber a Natal depois da morte do avô."
Quem o dizia era uma mulher ainda jovem, mãe de uma criança de 5 anos, com os últimos dois anos marcados por experiências de vida muito difíceis.

Gerir perdas - especialmente em alturas em que o imaginário nos leva para o tempo em que o nosso mundo ainda não tinha mudado, em que ainda não tínhamos perdido ninguém e todos eram imortais - é uma tarefa nem sempre fácil.

Mas aquele avô, alma daqueles natais, tinha ele próprio lidado já com tantas perdas (avós, pais, irmãos), e ainda assim enchia de alegria e magia as consoadas da família.

Nunca sugerirei a ninguém que não valorize as suas dores, que apresse os seus lutos, ou ignore vazios deixados pelo desistir do sonho que com aquele alguém se acreditou que se podiam construir futuros.

Mas escolho, na maioria das vezes, olhar para os que estão presentes. Escolho cuidar como sei e posso daqueles de quem gosto. Dos mais óbvios àqueles que só eu sei o quão importantes são para mim.
Não sei ser "o avô" - a alma da festa  - esse lugar não é para todos.
Terei o meu lugar.



domingo, dezembro 20, 2015

Porque não gosto dos estandartes de Natal

É que não gosto mesmo disto, pá!
Aqui há uns anos, próximo do Natal, as ruas das nossas cidades, vilas e aldeias foram invadidas por estandartes com a figura de um menino Jesus. Consta que a ideia foi apadrinhada por um grupo de católicos cansados do protagonismo do pai-natal…
Objectivo: recolocar o Natal no seu devido lugar.
E parece que vieram para ficar.

Não gosto!
É que não gosto mesmo!
E não é uma questão estética - aí os gostos não se discutem!

É o que nos traz.
Um menino sozinho.

Diz-se à boca cheia, em qualquer canto beato-cristão, por mais recôndito que seja, do nosso país que o Natal é a festa da família.
Que temos na família de Belém o exemplo de família amantíssima, livre de pecado e de conflito que deve ser olhado como modelo a seguir. O amor dedicado a um bebê que nasce, independentemente do berço, o que é sonhado e valorizado, a quem é oferecido o que de melhor se tem.
Digam-me de que serve o bebê sozinho?
Símbolo da omnipotência desmedida de que se valerá sozinho  a si próprio.

Diz-se e/ou pratica-se também, em qualquer lar ateu, o encontro com os demais com quem se partilham heranças genéticas.

Natal é família sim!
Mesmo que cheia de emoções, conflitos, agressividades, sexualidade.
Sim porque o dogma da virgindade foi instituído no séc VI ou VII, por interesse da igreja.
Moralidades úteis.... Para alguns propósitos...
Não há maior visibilidade para a sexualidade de um casal do que uma barriga gravidica.
(Irei ser acusada de eresia pelos meus amigos católicos - paciência!)

Família é isto tudo
Juntá-la em festejos também!
É sentar à mesma mesa os conflitos e tensões lado a lado com a esperança/desejo de que haja ainda e renovado esse lugar para o encontro, para o amor, para receber as particularidades de cada um de braços abertos, e tentar dar o nosso melhor.

Um menino sozinho não vale de nada!
Cada um de nós sozinho.... sentirá que vale muito pouco.

quinta-feira, dezembro 03, 2015

Amor / Dor

Ninguém está preparado para ser mãe!
Encandeados por preconceitos transgeracionais, pela figura da mãe amantíssima, pelo presépio da família perfeita, convencemos-nos que seremos capazes! Que afinal ser mãe é cuidar e amar, porque não haveríamos de conseguir?

Ninguém nos fala das dúvidas, das inoperâncias, dos medos.
Da dor de ser mãe.
E não estamos preparadas para ela.
Só depois, ou por isso mesmo, nos transformamos em mães!

Só depois de ser mãe o óbvio se tornou real para mim.
Inevitável!
Esmagador!
Que aquela criança iria ser tremendamente amada por mim (com todas as minhas imperfeições).
E por ter perto uma amiga com uma filha com deficiência lembro-me de ter pensado: "amaria esta criança de igual modo, mesmo se deficiente profunda"
Posso parecer-vos pedante, superficial, preconceituosa, ingénua, mas na verdade nunca tinha pensado nessa hipótese. Não assim, mesmo a sério!

E não sabia Dora, que enquanto me enamorava da minha Sara, te encantavas tu com o teu Fred.
Nem sabia da tua/vossa história.
Nem da tua dor/amor

Mas sabia-te uma pessoa inteira! Sabia-te capaz! Sabia-te doce! Sabia-te inteligente! Sabia-te carinhosa! Sabia-te intensa!
E generosa!
Como contínuas a ser (ainda mais?) por partilhares os teus afectos!

Leiam por favor: Dora na Maria Capaz


(Não sei o que é ser pai. Não sei se sentem o mesmo. Simplesmente não sei!)

terça-feira, novembro 10, 2015

Balneários: um estudo




Ele há coisas que se pensam quando se está num balneário.
Diria que é inevitável (ao estilo de Ricardo Araújo Pereira)

Mas o que dei por mim a pensar no outro dia foi o seguinte.
Há mulheres cujo corpo é belíssimo.
Nem falo daquelas que atravessam nuas os balnearios para exibirem o seu corpo trabalhado, recauchutado com silicones, afinal se não for ali, e fora da intimidade do quarto, não o poderão mostrar na integra a mais ninguém. Estas não me consomem tempo com pensamentos e questões.

Falo das outras (não são muitas). Corpos bonitos, desenhados, tudo perfeitamente proporcionado. Corpos cuidados, depilados, hidratados. Mas…. que contra todas as expectativas não são bonitas.
Falta-lhes qualquer coisa.
Alegria?
Sinto-as desvitalizadas, deserotizadas.
Nos rostos não há afabilidade, o olhar algo vazio, falta o calor dos afectos.
Não têm brilho.
E deixam-me incomodada, como se algo ali não batesse certo.

Estes corpos perfeitos, (bonitos mesmo!) existem para quê?
Serão seguramente agradáveis à vista… ao toque… mas……...

segunda-feira, outubro 05, 2015

Kos - Eros e Thanatos



Ontem, no mesmo dia em que me despedi da ilha de Kos e da 5th Sociodrama Conference,  deram à praia, junto a um hotel (poderia ter sido o meu, e nesta praia que tranquilamente fotografei) os corpos de duas crianças - noticia aqui.

É impossível ter lá estado e não pensar esta questão.
Foi muitas vezes abordada e trabalhada, das mais diversas formas e dos mais diversos ângulos.
E conversada, nos intervalos, almoços e jantares.

Muitas vezes me perguntaram - e Portugal?
Sei que está prevista a integração de cerca de 3000 refugiados, mas até agora muito poucos chegaram. E não é o sonho de ninguém chegar a Portugal.
Já a outros países...

O que ouvi:

Que quem chega aqui, a Kos, não quer ficar, quer seguir rapidamente para a idealizada Europa, a ideia de  oferecer uma tenda e dizer "espera a tua vez de seres colocado em algum lugar" não é bem recebida. Os que chegam são instruídos para não sairem da zona restrita junto da esquadra da policia. Nem mesmo para procurar ajuda médica se necessária.
Pelo que percebi todos os que aqui chegam são identificados e depois encaminhados para algum lugar.

Que o governo local não está muito organizado, não tem políticas claras face a esta situação, são os voluntários que se vão gerindo e encontrando algumas respostas - o que cria, como não podia deixar de ser, tensões entre o governo local e os voluntários.

Que a população já experienciou coisas muito difíceis: os mortos no mar, a falta de condições mínimas de higiene para o acolhimento, um misto de empatia e o sentimento de estarem a ser invadidos por uma situação humana tão marcante para a qual não foram tidos nem achados.

Que são milhares os que já por aqui passaram (nesta ilha pequena de menos de 300 km2)


A Grécia, com uma população de cerca de 10 milhões de habitantes, tem uma comunidade de imigrantes e refugiados que ronda os 3 - 4 milhões. Já não se vêm, em parte nenhuma da Grécia, crianças a brincar sozinhas na rua, ou a irem a pé para a escola. Já ninguém sai de casa sem verificar se está tudo bem fechado, nem viajam com a descontracção de antigamente.

Que países, como a Noruega, recebem os refugiados mas assim que completam os 18 anos não lhes é renovado o visto de residência. E estes miúdos  a maioria sem família ficam soltos na nossa Europa sem fronteiras, sem paradeiro certo, em fuga. Formam o nomeado "
schengen gang".


O que eu vi:

Ao entrar na cidade do nada começam a aparecer tendas de campismo, estão montadas nos passeios, perto do porto. Do outro lado da marginal estão as lojas e restaurantes para turistas. Só se vêm homens, a esmagadora maioria jovens, pergunto-me onde estariam as mulheres e as crianças, provavelmente no interior das tendas longe dos olhares estranhos.

Não vi olhares perdidos, nem rostos enegrecidos pela tristeza e vazio.
Vi jovens a conversar. Alguns riam, brincavam com qualquer assunto que os ocupava. Outros falavam ao telemóvel (quem sabe se com a família e amigos que ficaram para trás).
Alguns pareciam "na maior".
Esta imagem desconcertou-me. Não esperava por ela...
Há seguramente muita insegurança no futuro! Mas há uma etapa que já foi cumprida - a chegada à Europa .

E também pensei... Quantos não estarão a tirar proveito da maior facilidade da abertura das fronteiras, a oportunidade perfeita para a entrada na Europa, mesmo que não seja real o perigo que correm no seu país de origem (será essa a condição para serem considerados refugiados, não?). E arriscam tudo, inclusive a vida, na procura de um futuro europeu. 

E em TODOS os europeus senti a ambivalência.
O respeito e a empatia pelo outro, e pelo seu sofrimento. O profundo desejo de igualdade, de humanidade. O querer poder fazer alguma coisa para com aquele outro que está neste momento sem qualquer futuro possível, em sobrevivência.
Mas também senti o medo, a insegurança que se instala, a desconfiança. O medo do estado islamico, o medo dos assaltos, o medo de perder os postos de trabalho, o medo…

Não tenho conclusões a tirar.
Sei que a guerra interessa a alguns, e que esses alguns fazem o mundo rodar
E que vivemos momentos incertos!

quarta-feira, setembro 16, 2015

Os Vascos desta Lisboa

Em 1898 abriu aquele que foi durante muitos anos um grande aquario - o Aquario Vasco da Gama.
Tenho, como provavelmente muitos de vós, memórias da infância desse espaço algo mágico que nos mostrava criaturas magníficas.
A lula gigante, os aquários com peixes tropicais, os microscópios com plancton. E claro! As tartarugas gigantes e os leões marinhos.
Tenho a certeza que aqueles que me leêm aqui da região de Lisboa, guardam com carinho este aquário.

Fui lá no passado fim de semana....
Que tristeza me invadiu
Os animais envelhecidos, tantos cegos (ou quase) de um olho.
Com "humps and bumps" nos sítios mais estranhos (tumores?).
Dos leões marinhos que faziam as delícias dos visitantes, sobra a fêmea, que a muito custo apanha os peixes já na água, ou directamente da mão do tratador, e depois os abandona no fundo do aquario, sem qualquer vontade de os comer.
Deprimente.

Não faço ideia das verbas que uma infra-estrutura destas implica. Entre recursos humanos, manutenção, aquisição de novas espécies, e outras despesas que nem me passam pela cabeça.
Mas fiquei triste!

Como se o novo Vasco (a mascote do Oceanário) fosse agora o único a merecer investimento e reconhecimento.

Ao que parece "Vascos há muitos" e não se pode chegar a todos.

sábado, julho 11, 2015

Debaixo da roupa estamos todos nus.

Este é o título de uma crónica do José Luis Peixoto, publicada já há uns anos, na verdade não sei bem onde. Falava ele da sua pele, tatuada e furada (piercings), e do preconceito explícito ou intuído, nos olhares dos anônimos que com ele se cruzam.

Tive uma vez um paciente que logo na 1ª sessão me pediu (avisou?) "não toque nas minhas tatuagens" Acabámos por falar nelas eventualmente, ou talvez mais sobre esta defesa da pele marcada, o conteúdo foi um dia explicado por ele, livremente e sem pressão.

Mais difícil é falar de cicatrizes, memórias de doença e sofrimento, não escolhidas e não planeadas. E de como se toca e deixa tocar esse corpo marcado. Como se ama após a doença, Como se expõe o corpo a terceiros depois dos acidentes. Corpo que não se reconhece, sentido como estranho, feio, morto.

Mas na verdade cicatrizes todos temos.
Visíveis ou não.
E por baixo da roupa todos estamos nus.
E o mostrar o corpo a alguém é um acto de entrega.