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segunda-feira, fevereiro 22, 2021

Falling in love again


"Falling in love again"
É o titulo do quadro do Carlos Farinha que recebi ontem pelos meus 48 invernos.

(que bom foi receber um quadro feito para mim com a tinta ainda a secar 😊 - o "again" é por ser uma segunda volta, com uns toques que o tornam único, de um quadro pintado em 2012(?))

Fazer anos no Inverno tem esta coisa magnifica de nos deixarmos aquecer pelos imensos amigos, pelo sol inesperado, pelos abraços que aquecem.

Todos os dias temos a oportunidade de nos apaixonarmos outra vez. Pelo que fazemos, por quem nos rodeia, pela natureza, por quem somos...



terça-feira, maio 05, 2020

Na tua varanda

O clandestino - Carlos Farinha
O clandestino - Carlos Farinha (Agosto 2020)

Estávamos num daqueles dias em que o sol, ao beijar o horizonte na despedida, faz corar o céu e as nuvens, que rubros testemunham o despudor com que o astro rei se traveste de mil rubis, e se deixa engolir, lentamente, tingindo o mar de amor e sangue.
Há algo de simultaneamente sereno e eléctrico num entardecer como este. E os olhares ficam cativos desse céu incomum como que procurando (ou projectando) nele a chama por que anseiam, perdidos que andam em vidas monocromáticas de tons pastel.
Eu (tu sabes bem) trago cá dentro o fogo que acendeste em mim. Um calor que evoco mesmo sem querer, na pele que antecipa o teu toque, nos lábios que demandam a tua boca. Sinto o rosto afogueado por um desejo incontido, um saber que só nos teus braços, numa leitura táctil e visceral, me vou encontrar verdadeiramente a mim mesma. Não sei explicar-te melhor. Sinto-o. Não sei dizê-lo. Não ainda.
Já me tinhas falado vezes infindas da tua varanda virada a nascente de onde vês o sol despontar em noites insones. Construí-a, à varanda, na minha cabeça com todo o pormenor. Um terraço amplo, despido, de tijoleira clara, nele terias um estendal daqueles altos de arames esticados, e uma ou duas cadeiras baratas de jardim onde te sentarias ao fim do dia com um maço de cigarros e uma cerveja e te deixarias perder num pensamento errante com o olhar solto na magnífica vista sobre o casario e o rio lá ao fundo. Verias a entrada e saída dos paquetes? E as velas dos pequenos barcos que ao fim de semana enchem o rio? Quase tenho medo de perguntar-te se nesses momentos te lembras de mim...
Hoje, não sei porquê hoje, convidaste-me a subir. 
O meu coração está num cliché: descompassado. 
Sinto o que todos os apaixonados sentem, mas que para mim é único. Curiosa esta condição de quem ama, de se sentir intraduzível, único, especial. Como cada encontro de dois é impartilhavel e indizível. 
Eu digo-te a ti. Digo-me a ti.
Quando me tomas num abraço e a fronteira da minha pele se dilui na tua. É aí que me digo. Quando as bocas se falam celebrando o encontro e antecipando a falta que terão uma da outra. Digo-me!
E como nasce de mim qualquer coisa de novo que não sei ainda dizer-te, digo-te que o céu se coloriu assim, por uma qualquer magia, para espelhar o que somos os dois, juntos.
Sorris, passas levemente a tua mão no meu rosto, também tu não entendes ainda. Aceitas o meu pensamento infantil de um sol que se compadece de um amor que nasce sem ter nome ainda.
Abraças-me, encostas os teus lábios aos meus e de olhos fechados sentes como me digo a ti. E esquecemos-nos os dois do sol, do céu e do mar.


sexta-feira, março 29, 2019

Tesoura de Poda

Carlos Farinha - Pruning shears (tesoura de poda) 
"She always walks with pruning shears because the world is full of spikes" - C Farinha

Sentada à secretária via o tempo escoar-se na ampulheta de areia fina á sua frente. Não sabia ao certo se não pensava em nada ou se reflectia no mistério de serem tão finos os grãos daquela areia. É indiferente na verdade. Que tais reflexões não se podem apelidar de pensamentos. Pensamentos eram exactamente o que evitava ao sentir-se hipnotizada pela cor rosea do "quase pó".
Era raro verem-na assim, quieta e de olhar perdido.
Mas todas as guerreiras precisam de um descanso.
"Guerreira" - sorriu. E com este sorriso despertou do transe.

Sabia que não era uma heroína, dessas que aparecem nos telejornais, que cruzam oceanos para regiões distantes, que iniciam movimentos mundiais, ou que oferecem o corpo às balas. Dessas haverá poucas no mundo - pensava.
Mas tinha aprendido, que havia duas maneiras de viver (haverá tantas mais, para para ela - duas!)
Uma que se passa quando mergulha na sua ampulheta, monocromática e previsível, de uma suavidade tentadora mas mentirosa, protegida no seu canto atrás do teclado e de um mundo escolhido a dedo.
E a outra... incerta, que não há rosa sem espinhos.
Em que ser "Eu" era uma constante aventura. Um mundo colorido de todas as cores, das mais brilhantes às mais sombrias, repleto de maravilhas e armadilhas. Cheio de gentes para descobrir - o que ela gostava de pessoas! - e de pequenas tarefas que não sendo dignas de heróis (desses de que o mundo fala), abriam o caminho que trilhava sempre de peito aberto e cabeça erguida.
Tinha-se preparado para os espinhos. Não os temia. Acompanhada, na sua jornada solitária, de todos os homens e mulheres que a habitavam (que rica se sentia), saía sentindo-se a(r)mada.  A sua arma? O seu pensamento e a sua voz!

Desde que permanecesse acordada para o imenso (e intenso) mundo sabia que não se transformaria no fino pó da sua ampulheta.



domingo, março 17, 2019

Ser em construção

Calos Farinha - Greta "I started to believe again in mankind"
- Mãe quero perguntar-te uma coisa. Sabes o que vai acontecer na 6ª feira?
- A greve? por causa das alterações climáticas'
- Sim. Se eu fizer greve justificas-me as faltas?
- ???

A conversa prosseguiu.
Construir uma consciência política (não falo de definições partidárias) terá os seus degraus.
Na verdade o que tentei perceber foi o processo interno de envolvimento na causa.
Para mim, o aderir a uma greve sempre foi uma questão de convicção, e por isso mesmo um assumir de consequências - a perda de um dia de ordenado por exemplo (e olhem que tive as minhas discussões laborais por causa disto).
Mas nunca quis impor as minhas convicções a seja quem for, mesmo aos meus filhos!

Senti a menina Boop a meio do degrau.
"Acredito na causa: greve estudantil pelo clima
Mas só vou se os meus colegas também forem... não vou ser a única, não è?"
(A questão da justificação das faltas acho que era só para nos tranquilizar a nós, e dizer que na escola não a penalizariam por isso. Mas também seria sinal de não estar convictamente a abraçar a causa pela qual dizia querer dar voz? )
Tem 15 anos acabados de fazer. Percebo que não queira ir para o meio de Lisboa sozinha para o meio de uma multidão sem o suporte dos seus pares - nem todas as raparigas são uma Greta Thungerg! 
E que necessite de aprovação e suporte nas suas decisões.
- Claro que podes ir, tenhas falta ou não.

Mas esta questão ainda me vai dar que pensar.
Ter consciência cívica é realmente um processo, de integração de modelos, exemplos, aprendizagens, descobertas,...
Tenho que rever o meu lugar nesse processo!

Fotografia da Revista Visão


sábado, janeiro 13, 2018

Tão intimo e tão estranho

"O Aquário" - Carlos Farinha


"Permanecer eternamente estranhos um ao outro, permanecendo eternamente próximos: essa é a lei de todo amor, ..."
(Lou Andreas Salomé)

segunda-feira, outubro 16, 2017

Senhora da Serra

"Tocava para as nuvens"    Carlos Farinha   2011

Sentada num penedo, um pouco afastado do caminho, espero. Sei que vão aparecer não tarda, subindo a ladeira, e que antes mesmo de os ver vou ouvir as suas vozes compassadas, ritmadas, e o sino do padre João.
A pedra onde me sento pesará mais de uma tonelada (nem sei bem o quanto é uma tonelada), não consigo saber as reais dimensões, parcialmente enterrada na terra, oferece-me hoje a superfície lisa para encosto.
Ocupa-me a ideia de que esta pedra é imortal (como se lhe conferisse vida, num jogo ao desafio com o criador), que permanecerá indiferente a todos os homens que subirão a serra, a todos os fogos, a todas as secas.

Não sou daqui de tras-os-montes, daqui não vejo Bragança, nem sequer Rebordãos, mas sinto no ar o peso de uma angústia que enquanto aqui estou se torna minha também. Não chove! Nas árvores os frutos mirrados não crescem, os pastos não ganharam a tonalidade verde, as ribeiras correm como finos fios de água.
Passei, até aqui chegar, por terras queimadas de fogos recentes. Até eu consigo sentir a esterilidade dessa terra morta, num esforço ainda tão insipiente de reter recursos e recolocar em funcionamento um ecossistema tão complexo e delicado como o destas montanhas.
No meu telemóvel abri a aplicação da meteorologia. Preveem-se baixas de temperatura e chuva para a próxima semana. Mas hoje, está um dia de Verão! E o povo, gentes que fizeram desta serra morada, não se fiam na meteorologia. Leem, com uma ciência secular, os campos e os céus, e neles nem sombras de nuvens, a chuva que os doutores dizem que virá não chegará para alimentar a terra, será pouca.

Começo a ouvir um cântico.
Imagino-os a subir  pelo caminho, rostos cansados e envelhecidos, pelos anos e pelo trabalho, consigo trarão o pesado andor com a imagem da Nossa Senhora da Serra, a quem pedem chuva.
Para mim o recurso ao pensamento mágico por desespero e falta de solução. Para eles uma expressão de fé, uma súplica à mãe.

Passam por mim, ninguém parece reparar que ali estou apenas a poucos metros, em vozes desencontradas cantam e rezam "Santa Mãe de Deus, mandai-nos a chuva, somos filhos teus"
Comovo-me, e desejo genuinamente que chegue a chuva em abundância, aqui em Rebordãos e no resto do país.

E eu penso que os tempos não voltarão a ser os mesmos, e que a voz do povo terá de mudar, que dificilmente se voltará a dizer "Em Trás-os-montes existem nove meses de inverno e três meses de inferno"

E assim vai o mundo

quarta-feira, outubro 11, 2017

Quando alguém toca no sitio certo

Breaking the Ice  Carlos Farinha   2017

Manuel era um homem de trato fácil, educado, mas que mantinha, na maioria das ocasiões, uma reserva natural, às vezes mal interpretada, confundida com desprendimento ou desinteresse. Era nessa distância que se sentia bem.
Sentado numa mesa recuada, ou num banco de jardim folheando um jornal, ia observando o mundo que como se no teatro estivesse, implicando-se de quando em vez nos enredos complexos das gentes, personagens, que iam compondo a sua própria história. Que é como quem diz, que nunca se opôs a tomar parte das cenas. Chegou a ocupar até lugares de destaque aqui e ali, tal era a prontidão com que às vezes vestia o papel para que o solicitavam. Mas com ele sempre uma reserva, algo enigmática, pois ninguém lhe conhecia razão para tanto mistério. Era assim!
Um dia, como que por acaso, reparou numa mulher. Sem grande entusiasmo ou curiosidade. Reparou simplesmente que ela ali estava. E assim de longe, durante muito tempo, semanas, meses, foi observando. E adivinhando nela histórias, desejos, poemas, músicas... como se de uma doce noite prolongada se tratasse, sem se aperceber foi-a sonhando.
Certa tarde, sentindo que a conhecia já por tanto a ter sonhado, quase sem se aperceber do limite entre a sua imaginação e a realidade dirigiu-se a ela.
E ao emprestar-lhe assim um novo olhar sobre ela própria, passou uma fronteira que nunca antes ninguém passara.
Na verdade assustaram-se os dois com a intensidade dos afectos, que o novo tem o seu quê de inquietante. Mas neste nicho só dos dois, souberam-se os dois autênticos. Ele levou-lhe as suas paixões, como quem lhe apresenta novas músicas, e transforma a banda sonora da vida. Ela guiou-o pelo desconhecido mundo do feminino, mostrando-lhe os recantos intrincados tão poucas vezes iluminados.
Como acabou esta história? Na verdade ninguém sabe, que os corações andam ainda inquietos.


quinta-feira, janeiro 05, 2017

Numa cidade

Há uma cidade, só uma, onde se sente em casa. 

Tempos houve em que a "casa" era outra. 
É bonita a maneira como o explica: "é que antes a casa eram as pessoas, onde elas estivessem, aquelas, você sabe, onde elas estivessem eu estava segura. Agora é diferente. Ou sou eu que estou diferente."
Agora o porto, lugar de âncora e descanso, é um lugar que se espante a partir dela própria.
E ela... Ela mistura-se com a cidade, que para ela tem uns limites ligeiramente diferentes dos geográficos. 

Quando a olha assim, como que de fora, de um miradouro, numa fotografia, num desenho, ou quando a sobrevoa no regresso de outras cidades que lhe são "estranhas", sente-se em casa.
Gosta de relembrar momentos / encontros / amigos / aventuras / beijos... enquanto demora o olhar num bairro, numa colina, num jardim, ou quando revisita uma "luz" que lhe é tão propria.
Em "cada esquina" se cruza com a sua própria história. E dá por si a mandar um SMS a alguém, que vive, trabalha, ou com ela viveu algo relevante, no lugar por onde passa.
A cidade encerra histórias que a fazem sentir. Nela vivem tantos dos que lhe são queridos e que ela sabe em "carne viva", com amores, temores, desejos, sonhos, horrores.

A cidade é sua sim.
Uma pertença unilateral, a cidade seria a mesma sem ela. 
Mas é nela que se reconhece!



"A Grande Alface" - Carlos Farinha

quarta-feira, julho 20, 2016

Amar-te na tempestade

Carlos Farinha   Piano Alto   2016 

Às vezes dentro dela sopravam ventos atrozes.
Vagas de afectos, assolavam-na impiedosas, sem aviso nem previsão.
E como se de artes negras se tratasse, a luz do sol sumia-se, não a deixando ver para além de si. E a magia escapava-se-lhe por entre os dedos das mãos.
Nessas alturas valia-se da única defesa que tinha - as palavras.
Nem sempre úteis as palavras...
Quem disse que as palavras são fieis amigas que nos permitem exorcizar fantasmas, ou traduzir o que por dentro se passa?
Não valem nada as palavras sem o gesto, o tom, o olhar.
São estéreis e tendenciosas. Impregnadas de pré-conceitos e sujeitas a leituras idiossincráticas!
São só palavras.

Percebeu (ensinou-lhe ele) que para se amar na tempestade era precisa a música. Que na música as palavras se reinventam, que se lê o intervalo entre elas, que às vezes, para sua grande surpresa, nem eram precisas.

Queria escrever uma música só para ele
Encontrar a canção perfeita.
Mas do meio da tempestade só conseguiu gritar-lhe, escolhendo o gesto, o tom, olhando com toda a ternura esperando que ele a lesse, palavras simples, para que não houvesse enganos:
- "Gosto muito de ti!"


https://www.youtube.com/watch?v=uv86TawSeEQ


quinta-feira, abril 07, 2016

The leader (eu chamaria alicerces!) :)

The Leader, Carlos Farinha, 120 x 60 cm, 2016
Olha, estou aqui!
Estás a olhar para o tipo dos binóculos, não é?
Deixa estar…. olha!

Mas eu não sou ele.
Estás a ver aquele braço mais branco no intervalo das nuvens? É da miúda que estava encaixada nos meus ombros - estava assustada ela, achava que ia cair, passei o tempo todo a tranquiliza-la "eu seguro-te!" Nunca mais a vi. Nem consegues perceber a minha idade, na verdade quase nem se vê o meu corpo.
Mas acredita - estava lá!

O tipo dos binóculos...
Gosto muito do tipo dos binóculos!
Aliás por causa dele é que estava ali.
Estava a passar um mau bocado ele.
E houve um gajo que conseguiu uma cena brilhante!
Chamou a malta toda.
O tipo nem sabia que tinha tantos amigos.
Estava acagaçado, a vida parecia-lhe uma tempestade pegada.
A gente dizia-lhe que não, que havia cenas fixes, Que bebesse uns copos, olhasse para umas miúdas giras, que ouvisse boa música, que fosse apanhar ar. Mas nada!
Então esse gajo chamou-nos todos para mostrar ao tipo que ele era capaz!
Tremia como varas verdes. Mas não podia desistir com tantos braços (e pernas e cabeças, e vontades - nem eu sabia que magia tinham corpos estranhos enredados, que deixaram de ser corpos para se tornarem tronco).
E o tipo subiu - se tropeçou? Claro, pá! Mas a malta ajudou.

E havias de vê-lo quando lá chegou a cima! Estava cansado! Nem percebeu logo que tinha parado de chover. E a malta ficou toda tão contente! Por ele, para ele (e por nós vá - que isto também me fez bem ao Ego).

E sabes quem é que desapareceu sem deixar rasto (e para mim quem conseguiu fazer esta cena toda)?
O gajo que nos chamou e o fez subir.
Qual é que ele é?
Pois... esse gajo não ficou no retrato.




sábado, março 19, 2016

Loves on runs

"Loves on Runs" de Carlos Farinha

Ele acorda mais uma vez num quarto vazio.
É assim que o sente na ausência dela.
Olha para o lado direito da cama e parece ainda conseguir adivinhar a marca da sua cabeça no travesseiro. Ainda mal acordado, num acto pouco pensado, alcança a almofada dela e procura nele o cheiro dos seus cabelos.
A memória dela assalta-lhe o corpo.
Como se a própria pele a evocasse, sem qualquer recurso ao pensamento consciente.
Mas o quarto está vazio.
E a vida dela corre lá fora.
Corre sempre!
A uma velocidade atroz,
E ele… Ele aprendeu a correr também. Ainda não percebeu como?, nem quando? Mas percebeu porquê.
Tinha de acompanha-la.
Correr sempre.
Para quê…?
E o quarto está vazio.
Hoje não quer correr.

Levanta-se vagarosamente, quase como que num desafio às corridas diárias, hoje não vai correr.
O telefone toca.
Chegou uma SMS
E um sorriso conquista-o.
E de repente o dia começa de novo.
As palavras são dela:
"Não penses nunca que não vou ter tempo para amar-te."

sexta-feira, março 11, 2016

Uma branca

"Uma branca" Carlos Farinha
Não sei escrever senão para ti.
Não, isto não é correto!
Não sei escrever como escrevia para ti!

Aparentemente as palavras que uso são as mesmas. Ou quase as mesmas, na verdade há palavras que só as dizia a ti. Mas palavras são só isso, palavras... a nossa língua tão rica permite aceder a conceitos sem usar essas palavras, as que só dizia a ti.

É que é oco o meu texto...
Palavras juntas, compostas, em receitas fáceis e universais. "Escreves muito bem!" - dizem eles...
Não escrevo, papagueio, ponho uma palavra a seguir à outra, imito-me descaradamente recorrendo a chavões e redundâncias.
Sei que o que escrevo é uma fraude!
"Escreves muito bem"!? - dizem eles.
Não saberão distinguir o que é genuíno, do novelesco e enfadonho?

Para ti reinventava-me, redescobria-me, escutava-me, traduzia-me.
Ia além do meu limite, não sabia o que vinha depois, não tinha fronteiras, não tinha tabús, Sabia que me lerias, e que saberias acompanhar-me. Divertia-me a seguir um pensamento, encantava-me com uma ideia, perdia-me numa fantasia.

Na verdade não sei escrever como escrevia para ti.
Para escrever assim precisava de ti,




quinta-feira, janeiro 14, 2016

I'll call you later

"I'll call you later" - Carlos Farinha - Jan 2016
Depois falamos, disse ele.
E de repente não havia mais nada para ser dito.
Nem ele nem ela sabiam quando era o depois.
Um parte, outro fica.
Ou será que partem os dois?
Um para outras paragens, outro para outros pensamentos.
Quem poderá medir, mensurar estas distâncias tão desiguais.

Têm a certeza intima, e ainda incapaz de ser sequer pensada, apenas fugazmente intuída, que partem de si mesmos e que não voltarão ao mesmo lugar de si próprios. Voltarão a falar "depois"! Mas não sabem quem serão eles "depois"

É por isso que neste adeus se acabam as palavras.
No retorno terão a incerta demanda de se redescobrir.
Ambos outros.

Depois falamos, disse ela.

domingo, novembro 16, 2014

De partida

O Dever chama - Carlos Farinha
Este é apenas um retrato fugaz de uma pequenina parte deles.
Joaquim parte hoje.
O país é distante, não tanto pela geografia, em que as distâncias se encurtam em voos corriqueiros e redes de wi-fi, mas pela crua realidade de um mundo diferente.
A Inês…. a Inês desdobra-se em múltiplos papeis.
Este guarda-o para si.
Não se agarrou à sua perna, nem o Joaquim se secou em madeira articulada.
Mas se olhasses com atenção vias como uma parte dela era a terra que o prendia, e que nele havia por breves instantes, o semblante do soldado que parte sem certeza.
Ambos sabem, que a Inês é mais mar do que terra. Que tem intrínseca a cadência serena, mesmo que se lhe atravessem tempestades, piratas ou monstros marinhos.
E que o Joaquim…. se revitaliza e reinventa, e que vai voltar cheio de uma humanidade que o  marca e transforma a cada experiência.
Este retrato é de uma ínfima parte deles que tu intuis mas não vez!
Porque todo o mar tem um chão
E todo o sonho algo que fica para trás.

Boa viagem Joaquim!
Grande aventura!
Volta depressa!





sexta-feira, setembro 26, 2014

Skype

Carlos Farinha - SKYPE  2014
(porque este quadro exige em post!)

Amo-te!
Tão mais fácil escrever do que dizer.
Desde que estás longe repito-te esta palavra: amo-te, amo-te, meu amor, amorzinho.
Mas Amo-te!
Minha querida, pequenina, meu amor.

Mas escrever não me chega. Parece que nada me chega quando estás longe!
E caio na deliciosa tortura de te ver.
Um clic, um triiimmmm, e heis que apareces!
Quase posso tocar-te, adivinhar-te a textura da pele, dos lábios…
Nunca quis tanto os teus lábios
E oiço-te!
Às vezes confesso-te não atento ao que dizes. Deixo-me envolver pela tua voz, o teu riso, e os teus olhos que me parecem tão vivos, tão próximos! Enredo-me na tua melodia que me enfeitiça.

Tu estás longe e eu quero-te!
Quero-te meu amor, os teus lábios, os teus braços, o teu corpo.
Amo-te com um vidro de entremeio. Estranho e mágico que te traz perto e te reconhece longe.
Tortura porque no fim permaneço só! Um corpo inútil que não pode amar-te mas que te deseja meu amor!

Clic!
Triiimmmm!
Amo-te!

segunda-feira, junho 30, 2014

Sentada à janela.

Carlos Farinha
Ilustrações de Carlos Farinha - vale a pena conhecer os seus quadros!

Sentava-se muitas vezes à janela para ver o mundo para além do seu umbigo.
E a sua janela era imensa, quase do tamanho da sua imaginação (e tantas vezes tão maior que ela).

Nas alturas em que parava, e o seu pequeno mundo silenciava (porque todos os mundos são pequenos face à imensidão de mundos que se adivinham espreitando da janela), ia olhando distanciada para o colorido de pessoas - tantas! - que passavam à janela.
Volta e meia um tema prendia o seu interesse, moral, cultural, cientifico, histórico. Quanto aprendeu de si mesma obrigando-se a reflectir sobre o que a janela lhe trazia.

Mas o que realmete a prendia eram as pessoas.
Personagens em desfile, umas nem davam por ela, tão embrenhadas estavam nas suas próprias vidas e pensamentos, outras são os vizinhos de sempre que às vezes se demoram à janela para dois dedos de conversa.

E depois há os outros!
Aqueles que à força de tanto passarem começaram a sorrir e a dar os bons dias. Não são muitos, porque a janela é tão pequena vista assim do outro lado, e para tantos invisível.
"O novo inquilino" - Carlos Farinha
Esses são fascinantes.
Uma descoberta constante.
Esses outros passaram a ter existência dentro dela.
Procura-os agora quando se senta à janela. Está atenta aos seus sorrisos, alegrias, tristezas e cansaços.
Às vezes adivinha-lhes uma dor, uma saudade, um amor.
Mesmo que nada diga, dali da sua janela, retribui apenas um sorriso.
Tantas vezes, mesmo não estando à janela, lhe vem à cabeça uma ou outra coisa dessas gentes que conheceu através dela. 
Volta e meia nota a falta de alguém, que por ali não passa há tanto tempo, e tem saudades, e inquieta-se, o que aconteceu?

Depois fecha a janela.
E embrenha-se na vida que é sua! Apaixonada pelas pessoas que a habitam. Envolvida num trabalho intenso. 
Mas a saber que essas personagens da janela já fazem um bocadinho parte de si, sem saber se o pode confessar a alguém. São uma presença leve, às vezes nem dá por ela. Vão surgindo no seu pensamento a propósito de uma imagem, de uma conversa, de um exemplo, de um sonho. E genuinamente (e secretamente) deseja que estejam bem, e que passem mais logo na sua janela.

E esse pensamento parte, tão ligeiro como quando chegou.