segunda-feira, junho 30, 2014

Sentada à janela.

Carlos Farinha
Ilustrações de Carlos Farinha - vale a pena conhecer os seus quadros!

Sentava-se muitas vezes à janela para ver o mundo para além do seu umbigo.
E a sua janela era imensa, quase do tamanho da sua imaginação (e tantas vezes tão maior que ela).

Nas alturas em que parava, e o seu pequeno mundo silenciava (porque todos os mundos são pequenos face à imensidão de mundos que se adivinham espreitando da janela), ia olhando distanciada para o colorido de pessoas - tantas! - que passavam à janela.
Volta e meia um tema prendia o seu interesse, moral, cultural, cientifico, histórico. Quanto aprendeu de si mesma obrigando-se a reflectir sobre o que a janela lhe trazia.

Mas o que realmete a prendia eram as pessoas.
Personagens em desfile, umas nem davam por ela, tão embrenhadas estavam nas suas próprias vidas e pensamentos, outras são os vizinhos de sempre que às vezes se demoram à janela para dois dedos de conversa.

E depois há os outros!
Aqueles que à força de tanto passarem começaram a sorrir e a dar os bons dias. Não são muitos, porque a janela é tão pequena vista assim do outro lado, e para tantos invisível.
"O novo inquilino" - Carlos Farinha
Esses são fascinantes.
Uma descoberta constante.
Esses outros passaram a ter existência dentro dela.
Procura-os agora quando se senta à janela. Está atenta aos seus sorrisos, alegrias, tristezas e cansaços.
Às vezes adivinha-lhes uma dor, uma saudade, um amor.
Mesmo que nada diga, dali da sua janela, retribui apenas um sorriso.
Tantas vezes, mesmo não estando à janela, lhe vem à cabeça uma ou outra coisa dessas gentes que conheceu através dela. 
Volta e meia nota a falta de alguém, que por ali não passa há tanto tempo, e tem saudades, e inquieta-se, o que aconteceu?

Depois fecha a janela.
E embrenha-se na vida que é sua! Apaixonada pelas pessoas que a habitam. Envolvida num trabalho intenso. 
Mas a saber que essas personagens da janela já fazem um bocadinho parte de si, sem saber se o pode confessar a alguém. São uma presença leve, às vezes nem dá por ela. Vão surgindo no seu pensamento a propósito de uma imagem, de uma conversa, de um exemplo, de um sonho. E genuinamente (e secretamente) deseja que estejam bem, e que passem mais logo na sua janela.

E esse pensamento parte, tão ligeiro como quando chegou.






7 comentários:

mfc disse...

É essa janela que nos faz viver!
Um beijão do tamanho do que se vê dessa janela tão especial.

Ana Ricardo disse...

Lindo!! Tens razão, identifico-me muito :)

GL disse...

E que gratificante é quando nos deparamos com pessoas que fazem a diferença.

Fatyly disse...

Eu a falar dele e é o primeiro a comentar...não vale:):):)

Um texto real e escrito com alma sobre a realidade desta janela que é a minha que dá acesso à tua (ou vice-versa) e a de outros e enquanto esteve fechada deixou-me imensas saudades como outras "cujas portadas nunca mais se abriram.

Por a tua janela brilhar tanto...digo-te que mal vejo as teclas pelas lágrimas que correm e como o tempo passa e fica uma amizade, um respeito, um gostar como se fosses minha filha:):):):)

Vou-me deitar porque estou derreada de todo e já imprimi este texto para juntar a mais alguns que tenho de outros para dar à minha mãe, que ainda me perguntou: não tens nada para eu ler da internet????

Beijos garota linda extensíveis ao Mr.Boop e aos "boopinhos" heheheheh

Boa noite e inté!

Fatyly disse...

Só me faltou dizer uma coisa, nos longos anos que ando pela internet jamais cobrei, falei ou referi que "deveriam comentar a minha janela/cubata:)" (a primeira ardeu com o pc e esta agora é mais recente) porque gosto imenso de ler e deixo sempre um comentário "nestes meus livros de bolso" para que os seus autores saibam que foram lidos:)

Inté

Rafeiro Perfumado disse...

Bonito, sem dúvida. Por vezes também penso nas pessoas que vou vendo pela janela, e com as quais já me cruzo há tanto tempo... Beijoca!

Eu, simplesmente disse...

Apetece-me escancarar, cada vez mais a janela. Quero ver as pessoas bonitas, por dentro, que passam.