sexta-feira, abril 22, 2016

Quando as estrelas se apagam*

David Bowie Jan 2016
Publiquei este texto a 11 de Janeiro.
Hoje(ontem) volto a pensar nele.

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É estranho

Quando pessoas famosas morrem.

Não nos são próximas. Não faziam parte do nosso dia a dia. Não trocávamos mensagens, nem telefonemas, nem lembranças no dia de aniversário. Não lhe comunicamos pensamentos, nem partilhamos segredos. Não lhes tocámos, não lhes falámos. Não havia qualquer espécie de reciprocidade.
Lemmy kilmister Dez 2015
E no entanto instala-se um vazio.
Há milhões de pessoas, pessoas anónimas, que se entristecem.

Como se o mundo ficasse um lugar diferente.
Como se ganhássemos consciência de que algumas pessoas são insubstituíveis, contrariando o que somos obrigados a pensar todos os dias - "não há ninguém insubstituível"! - como não???
Não há é quem se repita!
Em lugar nenhum!

Dever-se-á talvez à experiência estética? (boa ou má)
À emoção que ecoa, e ressoa em nós, face a esse outro, à sua obra, às suas ideias.
Somos mudados pelos outros, e sem dúvida, em maior ou menor escala, por quem "seguimos".
Omar Sharif Jul 2015
Revemo-nos nas palavras de um poeta, Apavoramos com o semblante do terrorista. Encantamo-nos com a música. 
Passam a fazer parte do nosso mundo interno, são personagem que nos habitam e evocamos sem dar por isso.

E quando uma pessoa famosa morre, "boa" ou "má", o mundo assume contornos diferentes sim.
Talvez porque haja esta consciência colectiva, do irrepetível, 
Talvez porque saibamos melhor entender as reacções dos demais. 
Há um antes e um depois, quase insignificante quando olhado com distância, que é reconhecido por todos.
Não é um drama pessoal.
Não doi, nem marca, da mesma maneira que a morte de quem nos é próximo.

É estranho…
BB King  Maio 2015
como se o recorte da paisagem que pisamos se tivesse modificado indelevelmente, uma mudança subtil, mas que faz com que o mundo seja percebido como diferente, com essa ligeira estranheza.
Como se faltasse de repente, na rua em que passamos diariamente, aquele prédio peculiar, em que nunca entrámos mas em que demorávamos o olhar e a curiosidade.
E depois, adaptamos-nos rapidamente. 
E o mundo mudou-se.
E voltamos-nos novamente para os que estão perto. Para os que nos dão os bons dias, para os que nos dão um beijo, para quem nos cruzamos, quer nos façam bem ou mal, quer deles gostemos ou não, Para aqueles que nos reconhecem. E sentimo-nos responsáveis por aqueles que cativamos.
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Manuel de Oliveira Abril 2015

*ideias partilhadas por mail esta manhã, fui escrevendo, para alguém de quem muito gosto, hoje no dia em que se tornou pública a morte de David Bowie

3 comentários:

Francis disse...

https://www.youtube.com/watch?v=QWtsV50_-p4

:)

Fatyly disse...

Como já é hábito em ti, mais um excelente texto emotivo de uma realidade tão clarificadora. Subscrevo.

Gostava e gosto de algumas músicas de David Bowie mas reconheço a sua impressionante capacidade que teve de inovar, compor, cantar etc. e acima de tudo esconder do que padecia até ao último suspiro, deixando uma legião de fãs de boca aberta.

Mas o mundo rola...e embora respeitando, continuo a perguntar a mim mesmo o "significado" da romaria mundial de "flores e velas" incluindo junto a uma casa onde viveu em 1972.

Beijos

Rafeiro Perfumado disse...

A primeira vez que chorei quando morreu uma pessoa famosa foi com o Freddie Mercury. Esta semana foi a segunda vez.