segunda-feira, abril 18, 2016

Meu corpo


Neste fim de semana estive no Porto a fazer um Workshop a que dei o titulo "Meu corpo, um barco sem ter porto?"  baseado neste poema tão rico de Ary dos Santos, que me apetece partilhar.
(no âmbito das Jornadas da SPPPG - Sociedade Portuguesa de Psicodrama Psicanalítico de Grupo - com o tema: "Das Falas do Corpo ao Corpo do Mito")


Meu Corpo


Meu corpo
é um barco sem ter porto
tempestade no mar morto
sem ti.
Teu corpo
é apenas um deserto
quando não me encontro perto
de ti.

Teus olhos
são memórias do desejo
são as praias que eu não vejo
em ti.
Meus olhos
são as lágrimas do Tejo
onde eu fico e me revejo
sem ti.

Quem parte de tão perto nunca leva
as saudades da partida
e as amarras de quem sofre.
Quem fica é que se lembra toda a vida
das saudades de quem parte
e dos olhos de quem morre.

Não sei se o orgulho da tristeza
nos dói mais do que a pobreza
não sei.
Mas sei
que estou para sempre presa
à ternura sem defesa
que eu dei.

Sozinha
numa casa que é só minha
espero o teu corpo que eu tinha
só meu.
Se ouvires
o chorar de uma criança
ou o grito da vingança
sou eu.

Sou eu de cabelo solto ao vento
com olhar e pensamento
no teu.
Sou eu
na raiz do pensamento
contra ti e contra o tempo
sou eu.

1 comentário:

Fatyly disse...

Gostava de ter assistido...mas fica longe demais e por falar em "demais" este poema do Ary faz parte do meu arsenal de "poemas guardados":)

Beijocas e uma boa tarde