Não gosto de flores.
Não gosto de flores em arranjos.
Não gosto de flores em arranjos fúnebres.
São coisas belas que morrem ali presas enlaçadas, amarradas. Cingidas num espaço exíguo que contraria a sua natureza expontânea, desalinhada. Murcham pouco a pouco... Perdem o brilho... O fulgor...
Não gosto de flores nas jarras, nos arranjos, nos arranjos fúnebres.
Quando eu morrer...
Quando eu morrer não me levem flores! Levem-me poesia!
Escrevam num papel os afectos
Peçam, se quiserem, palavras emprestadas a um poeta, a uma canção.
Façam-me um desenho.
Escrevam "gosto de ti" ou "nunca vou esquecer aquele dia em que..." ou "eras tão irritante quando..."
Depositem no caixão papéis com a vossa caligrafia, ou com a tinta da vossa impressora.
Gosto de palavras!
E do cheiro do papel.
Deixem que os meus filhos recolham depois os papéis que se foram juntando "no meu colo", e que assim levem com eles partes de mim que se calhar nunca tive oportunidade de lhes mostrar.
Será tão mais colorida a despedida.
Quando eu morrer troquem as flores por palavras. Digam-me coisas como se vos pudesse ouvir mais uma última vez.
E falem uns com os outros. Contem histórias, de um passado comigo, e de um futuro sem mim.
Quando eu morrer não quero flores.
PS - não gosto particularmente desta música, mas é mais ou menos
isto