Hoje na praia estive perto de um casal de Ingleses, nos seus 60's, ligeiramente obesos, com alguma dificuldade de locomoção, conversa parca, daquelas duplas enraizadas, que se tornam fisicamente parecidos, que se lambuzavam com uma bola de Berlim: "é delicioso!" - dizia ela. "Vamos partilhar!"
Nas minhas mãos um livro de crónicas do Kalaf. Com reflexões mais ou nemos abstratas e intelectuais sobre o lugar de cada um num mundo cada vez mais global e acessível, mas cheio de desigualdades.
A leitura dele sempre perspicaz e inteligente, mostra-me um mundo que não é o meu, e faz-me sentir às vezes "pequenina" por perceber que há tantos mundos neste mundo que me são estranhos.
O simples caricaturado no casal de ingleses.
A crítica intelectual personificada no livro do angolano. E eu dei por mim a reflectir nas várias formas de se estar no mundo. E no que tornará as pessoas mais felizes. E se o "ser feliz" será o mais importante. Que uma vida só é pouco.
Que na verdade sabemos todos tão pouco.
E o sabor de uma bola de Berlim na praia é um puro momento de prazer!
E que no meio de pensamentos interessantes e elaborados se lêm disparates sem fundamento algum.
Até que fui chamada à realidade pelas tarefas de uma mãe na praia!
"...deparei-me com a palavra mais sucinta do mundo, "mamihlapinatapei", que significa "o olhar trocado por duas pessoas enquanto se espera que a outra inicie aquilo que nenhuma das duas tem coragem de iniciar"."
In "Estórias de Amor para Meninos de Cor" de Kalaf Ângelo
Há um tempo interno, programado inexplicavelmente, que faz com que o tempo se organize e os passos a levem até às portadas. Uma armadilha do seu inconsciente, que na busca de uma gratificação primária, a leva ao local do crime.
"Local do crime" - ri-se!
Tinha começado a chamar-lhe assim, em silêncio, numa brincadeira consigo própria. Ou não são os segredos adjectivados de tantas maneiras por quem fica de fora?
O crime...
Um delicioso crime.
Era a hora em que ele aparecia habitualmente. Sorrateiro, surgia no fundo da rua. Olhava em volta. Confirmava que não vinha ninguém. Pegava numa pedrinha no canteiro em baixo e atirava-a com perícia à janela dela.
Ela que já lhe conhecia os passos e os gestos, antecipava-se e vinha espreita-lo. Parecia-lhe um qualquer animal astuto, que caricaturalmente parecia arguto e assustado ao mesmo tempo, pela forma como olhava por cima do ombro e garantia que ninguém o via.
Tinha sido assim toda a primavera.
Às vezes dizia-lhe só adeus e seguia. Outras ela descia e ficavam horas perdidas em conversas sem fim (e às vezes sem princípio até), sentados nos degraus do alpendre.
Mas o Verão foi chegando.
E com ele as visitas foram-se espaçando.
Ela olhava as pedrinhas do canteiro de forma inquisitiva como se lhes pudessem elas justificar as ausências. Pois se ali continuavam porque não serviam os seus propósitos?!
Parecia que com a primavera, tão plena de princípios e de promessas, tinham partido os sonhos. E que o calor do Verão lhe tinha aberto o peito, que como um fruto ressequido e gretado, esperava, pegajoso e estéril, que algo determinasse um desfecho.
Mas são 11 da manhã.
E corre-lhe nas veias, alimenta-lhe as vísceras, comanda-lhe os músculos, uma vontade qualquer que não a da sua cabeça, e abeira-se da janela.
Surge alguém na curva da rua.
Reconhece-lhe o andar, a forma como os braços acompanham a marcha, o jeito como afasta a madeixa de cabelo que cai desleixada nos seus olhos.
E espontaneamente sorri.
Toda ela se ilumina como se fosse primavera, mesmo sabendo que o calor do verão aperta.
É bonita quando sorri assim.
Ele baixa-se e pega numa pedrinha...
(E não pensem que está iludida, que esta não é uma história de amor, é o reencontro que se celebra, como se pudessem assim os dois, juntos, recriar a primavera)