O Xavier gosta de vir ao parque no fim da rua porque há aqui esta caixa de areia.
terça-feira, outubro 20, 2020
O deserto ainda está cá amanhã!
terça-feira, outubro 13, 2020
Nunca falo
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| Cayetano de Arquer Buigas Moça lendo o jornal |
terça-feira, setembro 29, 2020
"Não saias"
terça-feira, setembro 22, 2020
Qualquer dia...

terça-feira, setembro 15, 2020
A margarida na minha enciclopédia
Voltei a inscrever-me (mais uma vez mesmo em cima do joelho) num campeonato de escrita criativa, com um empurraózinho da Redonda
Segue o primero desafio:
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A avó estava deitada dentro da caixa forrada a veludo. A madeira brilhava muito, como se tivesse um plástico lisinho muito bem colado.
Ela lá dentro parecia mais pequenina. Como se, desde ontem, tivesse desaparecido um bocado dela. Não sei bem explicar. Parecia mais pequena, ponto!
Sei que a caixa era um caixão, e que ela, lá dentro, estava morta. Mas não conseguia fugir dos pormenores.
De vez em quando chegava alguém e levantava o paninho branco que lhe tapava a cara. Espreitei algumas vezes mas não consegui vê-la. Imaginava-a como os esqueletos dos filmes. Mesmo sabendo que devia estar muito parecida com o que estava ontem esperava ver qualquer coisa assustadora, afinal a mãe tinha-me proibido de a ver...
A mãe.
A mãe estava triste. Mas não chorava como eu choro quando estou triste.
Nunca vi a mãe chorar.
Na outra sala riam-se de qualquer coisa. A Maria tinha preparado uns croquetes, daqueles que eu gosto tanto, mas não conseguia comer nenhum. Parece que a minha fome morreu com a avó.
Depois chegou a Margarida.
Está com 11 anos, um a mais do que eu, e é linda. Os cabelos pretos estavam penteados em duas tranças e davam-lhe um ar mais crescido. Ou talvez fosse o vestido. Ela nunca usava vestidos.
Sentámo-nos no último degrau, longe das conversas dos adultos. Falou-me durante muito tempo do Chuck, o cão, do que aconteceu quando ele morreu, e eu sem coragem de lhe pedir que parasse, sentia os meus olhos a encherem-se de lágrimas. Não ia conseguir ser forte como a minha mãe.
A Margarida calou-se, olhou mesmo para mim, e deu-me um beijo, devagar, nos lábios.
Nessa noite desci e fui buscar uma margarida às flores da avó, guardei-a entre as páginas da minha enciclopédia, mesmo ao pé da palavra “sentir”.
segunda-feira, maio 18, 2020
E se fosses à ......?
Não devo procurar grandes feitos, nem grandes amores, é isso?
É o que se espera de toda a gente?
O que faço então às demandas das minhas vísceras?
Não posso ousar?
Não desejaram todos um dia sair do restolho da massa anónima?
Satisfaz-vos o ser amorfo, sem vontade e sem diferença?
Não poderei desejar um pequeno tudo? Ou um talvez? Ou um grande tudo ou nada?
Que mal há em querer ser grande?
Começaram a cortar-nos os sonhos desde aí?Diz-me a verdade, foi desde aí?
Em que medida somos donos da nossa sorte?
Seremos livres para o tudo ou nada?
Sabes onde punha eu os teus pequenos nadas?
Achas que não sou capaz de o dizer?
Eu?
E achas que mereces que seja por ti que perca a compostura?
Não sabes mesmo onde estou a querer chegar?
Não perceberás que o verbo amar se conjuga em todas as línguas, e tempos verbais, mas que não pode ser um pequeno nada?
segunda-feira, maio 11, 2020
Com cinco nós apertados
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| Monsanto - Idanha a Nova |
Embarca nestes sonhos, embalada pela cadência da goteira, e evoca as histórias que avó lhe contava quando em pequena passava o verão em Monsanto.
A última vez que ali tinha estado, saiu com juras de não voltar. O aperto que sente no peito diz-lhe que, independentemente da vontade, ainda há demónios à solta.
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| Castelo de Monsanto |
terça-feira, maio 05, 2020
Na tua varanda
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| O clandestino - Carlos Farinha (Agosto 2020) |
segunda-feira, abril 27, 2020
La plus belle fleur
Gosto da tentativa de contar uma história inteira em apenas 300 palavras. (Bem... os Haiku têm 17 silabas.... 😃)
E desta vez acho que consegui.
Independentemente da pontuação que tiver... gosto deste texto.
Na mesa da sala, junto a uma jarra que confesso-te muito raramente tem flores, está aquela fotografia que tirámos junto ao Sena em 1973, lembras-te? Tinha-te dito que eras “la plus belle fleur de Paris”, e o teu sorriso era tudo para mim. Aprendeste francês mais depressa do que eu, e à noite, deitados, dizias as palavras que mais tinhas gostado, rias com os “ús” e com “ices”, que me provocavam arrepios quando ditos sussurrados ao ouvido.
“Mon amour” - palavras que repetimos a vida toda.
A Liberdade está desenhada num lenço com a tua letra, ato-o na cabeça como sempre, e pego na bandeira vermelha e verde. Amo este país.
Saio à rua deserta neste fim de mundo alienado onde moro.
Vejo-me contigo quando em 98 fomos viver Abril a Castelo de Vide, a nossa homenagem a Salgueiro Maia, numa festa de cravos mil.
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| Fotografia de Alécio de Andrade - Paris (Pont des Arts), 1987 |
segunda-feira, abril 13, 2020
Lado negro da Boop
Nunca tinha escrito algo tão tétrico... que me lembre...
Perdoem-me os leitores mais sensíveis!
:)
Nunca dará com as câmaras. Nunca nenhuma as viu.
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| Imagem tirada da net |
Dei com esta a sair da florista. O corpo dançante num caminhar despreocupado de quem nada teme. O vestido primaveril, padrão colorido e decote fundo, acentua as ancas generosas e faz-me imaginar o roçar das coxas. A cada passo que dá quase que sinto a sua pele húmida e quente nesse cercear de pernas, e salivo perante a ideia do toque sedoso e lascivo nessa ostra salgada que esconde do mundo.
Nunca me viu nem verá.
Mas eu vejo tudo.
Vou fruir do desmoronar do castelo de cartas dessa altivez barregã de quem se julga dona do mundo. ‘Não vales nada rameira.’
Acordou há umas horas e já se cansou de gritar. A maquilhagem borrada desfigura o rosto, e já há muito perdeu o sorriso e a irritante expressão segura. ‘Quem é a rainha agora? Quem?’.
Como a minha sandes enquanto vou monitorizando as câmaras.
Solto-a!
segunda-feira, março 30, 2020
Na Galafura
Hoje vou visita-lo.
Nunca o tratei por António. Nunca.
Para mim sempre foi carinhosamente “Professor”! E quando a ele me refiro uso-lhe o apelido.
Volvidos quase 30 anos percebo que sempre foi uma presença.
Por isso hoje levo-lhe um dos vinhos generosos feitos com as uvas apanhadas por mim e pelos meus como que numa troca de galhardetes.
Sinto os ouvidos estalar por estar a subir a pique.
As vinhas que ladeiam um e outro lado da estrada, estão cuidadas, o verde das suas folhas é ainda tenro, e transbordam promessas de boas colheitas.
Imagino-o a abrir uma garrafa de Quinta dos Mattos, um Doc, Reserva, Tinta amarela (sempre gostei do seu amor à etimologia, e o valorizar das tradições – porquê chamar a casta de trincadeira?), a servir um copo para cada um, a sentarmo-nos num alpendre, em cadeiras rústicas, e deixarmos que o olhar se perca na imensidão das vinhas.
Talvez aí falemos de psicanálise... talvez!
Mas porque não contarmos histórias, falarmos das vinhas, e das vindimas do antigamente? E do amor - é a pessoa que mais ouvi falar do amor!
Continuo em frente ao meu computador, tão cedo não irei a lado nenhum.
segunda-feira, março 23, 2020
Louco
Sempre um gozo.
Dissimulado.
Gargalha.
Olho por cima do ombro.
Não o vejo.
Lá está outra vez - o riso.
Viro-me repentinamente e parece-me vê-lo a dobrar a esquina.
Camisola azul, chapéu de marinheiro.
Corro até lá.
Nada.

A voz.
Irritante e indecifrável.
Diferente do gozo do riso.
É zangada – a voz.
Abano a cabeça.
Não quero ouvir.
E o som aumenta.
“Vai-te embora!” – grito.
O gozo.
Não posso deixar que me levem outra vez.
Eu calo-me.
A voz não.
Não percebo o que diz.
Confunde-me.
Autoritária.
Não tenho nada para ler.
O pai vai zangar-se comigo!
O pato Donald está zangado comigo!
Procuro desesperado o livro.
Não há livros na rua.
O gozo.
“Cala-te!”
O volume sobe, do riso, ruído estridente, que arranha os ouvidos por dentro.
Grasnar agudo e irritante, insuportável.
Tapo os ouvidos, sacudo a cabeça, pára por favor!
Abro os olhos e vejo que é o senhor Manuel que me agarra os ombros e me resgata da espiral louca em que estou.
Conhece-me desde pequeno, sabe do que se passa comigo e nunca se riu. É diferente do meu pai, nunca me bateu, nunca me obrigou a ler aqueles livros coloridos, cheios de animais que falam, e “dele” o pato rabugento, zangado, e inútil. O meu pai, o inútil, que me obrigava a ler enquanto se fechava no quarto ao lado de onde vinha um cheiro quente e enjoativo. O meu pai morreu no quarto ao lado enquanto eu lia um livro aos quadradinhos. O meu pai é o inútil.
Ouço o riso, mais baixo.
O Sr Manuel nunca se riu.
quinta-feira, março 19, 2020
Sonho
Eu sou as próprias paredes, observadoras e contentoras deste encontro surreal onde há espaço para ti.
Tu ris-te sempre dos meus sonhos, não me levas a sério.Aninhada nos teus braços conto-te-os todos, acreditando que assim me entrego por completo. Como podes duvidar de mim se te revelo sonhos?Isto que sinto?
segunda-feira, março 16, 2020
O olhar do Aluco
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| Aluco ou Coruja do mato |
“O resto da vida” pode parecer dramático mas, garanto-vos, é uma escolha deveras apaziguadora!
O sol já tinha passado para o lado de lá do cume e a linha que se desenhava contra o céu violáceo desta tarde fresca trazia a reconfortante certeza de estar em casa.
Lá de dentro chega o cheiro do forno, onde assa um lombo de porco com mel e castanhas, e os barulhos da cozinha são uma companhia benfazeja.
Às vezes tem a sensação de estar longe do mundo, protegido, como um soberano de coisa nenhuma, só a força esmagadora das montanhas o redefine na sua condição frágil e vulnerável.
Sem aviso, assaltam-no, primeiro no corpo e depois no pensamento, memórias da tarde anterior. Não sabe se é tortura se deleite. Revisita em pormenor o prazer proibido, num misto de júbilo e culpa, de subir com beijos lentos o declive do ombro dela.
Nenhum dos dois foi capaz de parar.
Sente ainda no corpo todos os toques, a pele tem uma memória própria que o arranca da paz desta tarde. Nem a serra nem a presença na cozinha são fortes suficiente para o arrancar desta memória hipnótica.
E de repente um Aluco pousa num tronco nu da amendoeira, ali a tão poucos metros de si, e num momento raro, e quase mágico cruza o olhar denso e misterioso com o seu. Uma comoção de quem entra verdadeiramente em contacto com o mais puro de si açambarca-o para logo de seguida ver a coruja-do-mato abrir as asas e voar para longe.
Levanta-se e vai à cozinha.
Tem de contar a coisa mais extraordinária que aconteceu nos últimos tempos.
quinta-feira, março 12, 2020
Esse outro de mim
Numa página em branco há um misto de vazio e potencialidade que me faz ter sempre a certeza de que as palavras que eu escolher ficarão sempre aquém.
Lá fora o breu absoluto. A pretura da noite, hoje opaca e turva, esconde o fulgurante verde da selva mais ou menos desalinhada que acarinho no meu jardim.
Sei do lugar dos formigueiros e das teias de aranha, sei das flores que as abelhas mais procuram, e dos galhos em que os pardais descansam.
quinta-feira, março 05, 2020
Para não enlouquecer
Um cenário psicadélico atordoa-me. As tintas néon preenchem a parede com formas intrigantes, traços inicialmente simples vão sucessivamente dando lugar a linhas mais curvas e humanizadas, que em sugestões orgíacas, se fundem e interpenetram numa fusão anárquica de corpos.
Dirige-se a um balcão, também ele branco, e meneando o corpo ao ritmo da batida, vai juntando com extremo cuidado elementos zelosamente guardados em pipetas e provetas, e oferece-me a preparação a beber.
Quero a tristeza de volta que só ela contém a loucura que há em mim.
quinta-feira, fevereiro 27, 2020
Eu e o meu pai
A voz da Ana, a enfermeira que o acompanha, diz-me, num tom indecifrável, que ele acordou.
O acidente foi na noite do meu 22º aniversário, o ano 2000 ia ser memorável... liguei-lhe para me vir buscar porque tinha bebido demais, uma daquelas saídas de rapazes com uma liberdade que naquele dia me foi roubada para sempre.
Como vou explicar que a mãe morreu?
Desde quando a Primavera teima em chegar em pleno Inverno?
Não soube que casei, que tive dois filhos, que me divorciei.
Nada sabe das minhas dores nem dos meus amores.
Que saberá o meu pai da paixão?
sábado, fevereiro 22, 2020
À sombra do medo
A náusea.
Só o meu corpo o sabe “dizer” à sua maneira. Um grito surdo dos meus músculos. Um contorcer das minhas vísceras, em peristaltismos agonizantes, em descargas de merda liquida, num segregar de bílis que me sobe à boca e me amarga os dias, na fome que não chega.
A antecipação permanente de um terror maior que na verdade nunca chegou. Ainda. Mas que te espreita no segundo seguinte, e no seguinte, e no seguinte...
Soubesse eu dizer sempre os meus medos!
quarta-feira, fevereiro 19, 2020
(o primeiro) Corrida matinal
Levantar da cama, vestir uns calções, calçar os ténis, e ficar uns minutos (acontece-me sempre) a escolher a t-shirt e acabar por pegar numa qualquer.
Saio! Sinto a pele a reagir e às vezes entretenho-me a desdobrar esses segundos de impacto com a temperatura exterior numa multiplicidade de momentos: o rosto a esticar, os pelos das minhas pernas a eriçar, o ar que me entra ao respirar e me faz ter consciência do interior da minha boca e da minha garganta, a ponta do nariz que gela, o meu pénis que se contrai traduzindo a minha mais profunda relutância a este esforço matinal...
E é começar! Não pensar muito e seguir.
Mas na verdade penso, muito! E embora deteste reconheço-lhe a utilidade, limpa a mente e põe em circulação uma série de neurotransmissores, ou lá o que são.
E por isso, nesta minha ambivalência que já me cansa em relação a tudo, continuo a sair para correr quase sempre pelos passadiços no meio das dunas por onde, a esta hora, não passa ninguém.
Vejo um gajo na praia. Sentado na areia, de fato, parece um tipo todo atinado, e agora todo fodido. Tem uma cena qualquer que parece um daqueles pacotes pardos xpto dos ctt: “correio verde”.
Continuo a corrida, não me meto na vida dos outros, e agradeço que não se metam na minha, e distraio-me a imaginar o que teria nas mãos, o que sei tornará o meu percurso até casa mais rápido e leve. E neste exercício de livre fantasia, num crescendo que reconheço algo sádico, imagino cartas de despejo, a noticia da morte de alguém, ou fotografias da mulher com um amante.
E sem mais, estou de volta a casa.
Agora sim começa o dia e esqueço rapidamente o homem da praia.

















