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terça-feira, outubro 20, 2020

O deserto ainda está cá amanhã!

O Xavier gosta de vir ao parque no fim da rua porque há aqui esta caixa de areia.

(mais um texto de resposta a um desafio)

No mundo onde mergulha há um deserto imenso, cheio de dunas e perigos, com camelos e escorpiões, onde ele abre com as suas mãos pequenas estradões que servirão de trajecto para as comitivas de jipes, motas, retroescavadoras e carros de corrida com que enche os bolsos antes de descer para a rua.

A casa é pequena e não há lá um espaço do Xavier. Vivemos só os dois, foi o que consegui alugar quando o Ricardo desapareceu. Cabrão! Cheio de manias. Disse que ia para um país distante onde ia arranjar uma tenda como nos filmes e ter um harém. Mentiras! Claro! E o sacana disse isso em frente ao miúdo. O Xavier era pequeno mas lá deve ter entendido alguma coisa para ter esta fixação com a merda da caixa de areia.

O rapaz está a brincar com um carrinho quando o meu telefone toca.
Instalei a aplicação há pouco tempo e ainda não sei bem como isto funciona. Com a minha vida como é que queriam que eu arranjasse um namorado?!
Dou uma olhada ao Xavier e abro a aplicação. 
“Sarilhos69” mandou-me uma mensagem. Respondo? 
- “Olá...”
O tipo é giro, tem uns olhos verdes, na fotografia não se percebe bem o tom de pele, diria que é mulato, mais pelo traço dos lábios, cheios, carnudos, que me fizeram por um “like”, e encher-me de fantasias. Há quanto tempo é que não dou uma? Faz-me falta pá!
Mensagem para cá, mensagem para lá, pergunto-lhe o nome.
- “Ricardo”
- Eh pá! Não! Ricardo não!

- Xavier, vamos embora, o deserto ainda está cá amanhã.


terça-feira, outubro 13, 2020

Nunca falo

Cayetano de Arquer Buigas
Moça lendo o jornal


















Gosto ao sábado de passar pela papelaria do Sr Abreu e comprar o Expresso. Sigo para a padaria e depois para casa onde preparo um chá e me sento à mesa a lê-lo. Hoje em destaque na primeira página vem uma noticia da angolana, filha do presidente. Não sei porquê mas esta mulher intimida-me. Age como se o mundo fosse dela e as fronteiras servissem apenas para seu proveito.
Note-se que não percebo grande coisa de politica nem de economia internacional. 
Gosto de pensar que percebo alguma coisa de pessoas.
E esta....
Mas se calhar muito poucas pessoas leem esta noticia a pensar em ti.
O teu nome não aparece no jornal, nunca aparece!
Mas sei-te por de trás de cada jogada.
Como é que uma mulher como esta te escolhe a ti, o miúdo com quem passei os dias intermináveis da adolescência, para a representar.?
Quando foi que cresceste tanto?
Não te intimida, ela?
Ainda ontem chorámos juntos amores perdidos, rimos de parvoíces, apanhámos os dois o barco para uma tarde na Costa da Caparica. Eu 14, tu 16... eu 16, tu 18...
Ainda hoje se precisar chorar é o teu colo que procuro.
Sei-te.
Não sei dizer melhor.
O que é que eu perdi de ti, que não vi como aqui chegaste?
Não és seguramente para ela o mesmo que és para mim.
Serás o que és para mim para mais alguém?
Contigo sinto que guardo um bem precioso, como a ternura da infância, ou a inocência de uma conversa noite dentro na rua, à porta de casa.
Se alguém te perguntar o que nos une saberás responder?
O meu marido chega e dá-me um beijo leve.
Não lhe falo de ti, nunca falo... nunca soube explicar-te.
Dá-me a mão. Sorrio-lhe.
Também nunca soube falar-te dele a ti.




terça-feira, setembro 29, 2020

"Não saias"

“Não saias, é melhor voltares para trás”. 

A mensagem estava escrita desde as 5h33 e eu esperava pelo momento certo.
Um nervoso que se instalava no estômago revelava a amplitude do impacto esperado.

O sol nasceu à hora prevista, e os rituais matinais repetiam-se em todas as casas. 
Os procedimentos automatizados anulavam parcialmente o efeito da sonolência de alguns, enquanto que uma energia renovada fazia outros saltarem da cama.
Cada casa com os seus ritmos tão secretos quanto normais.

Às 7h11 Mário, que saía apressado já atrasado, recebe a mensagem “Não saias, é melhor voltares para trás”.
Ao mesmo tempo que o toque se repetia no telefona da Gabriela, do João, do Ricardo, da Cláudia, todos com a mesma mensagem. “Não saias”.
A mensagem caía, em todos os telefones do distrito.
Imaginei a inquietação de milhares de anónimos. 
A apreensão, o medo.
Iria fazer com que ficassem em casa, tinha a certeza!
A tentativa simultânea de ligar para o número do remetente causou um lock down nas redes e bloqueou todas as comunicações.

No ecrã à minha frente a representação gráfica das interações entre telemóveis estava sem actividade. E a mensagem “System failure” piscava intermitente. Uma sensação de júbilo começava a invadir-me. Estava próximo de atingir o meu objectivo.
Num misto de cautela e ansiedade levantei-me e dirigi-me à janela. Seguramente tinha conseguido parar o mundo, iria provar que ao contrário do que pensa a minha chefe medíocre, eu seria capaz de fazer algo memorável, que ficaria para sempre na história da telecomunicações. Uma lição por me ter despedido.

Afastei as cortinas devagar para gozar o meu triunfo.

Lá fora o dia corria normal, tantos carros como dantes, tantos transeuntes, os cafés cheios para a bica da manhã, e nas paragens dos autocarros as mesmas pessoas de sempre.

Afinal no que falhei?

terça-feira, setembro 22, 2020

Qualquer dia...

Há mais de uma semana que não leio. Tenho quatro livros começados espalhados pelos meus cantos prediletos de leitura, Rubem Fonseca, Thomas Man, Teresa Veiga e Gregory Maguire, esperam-me serenos, alheios que estão das minhas vontades e desejos. Os quatro autores não podiam ser mais destintos entre si. 
Separam-nos décadas, oceanos, estilos, a uni-los estou Eu.

Entretenho-me a imagina-los em pausas similares, protelando o mergulhar na trama densa e absorvente de uma história, ao mesmo tempo que os personagens continuam presentes, como se se encontrassem juntos, autores e heróis, num terraço num qualquer lugar indefinido, com um chá de menta e biscoitos de manteiga, em silêncio de olhar perdido no horizonte.
Entranham-se, fundem-se, criador e criação, num processo elaborativo semi-consciente, onde o recurso a máquina de escrever, caneta, ou computador, quebraria a magia de um enamoramento lento, o caldo criativo de onde nascem todas as ideias.

Ou talvez seja eu, qual narciso mirando-se nas águas, que em auto-referenciação procuro uma absolvição para a minha paragem injustificada, que deixou as vidas que preenchem as páginas dos livros interrompidas.
Encontro em mim traços de Hans Castrop, saído directamente da Montanha Mágica, o livro que me ocupa a cabeceira. Estarei como ele com a vida suspensa, retirado, longe do mundo, saltitando entre a mais profunda reflexão filosófica sobre a temporalidade e a fragilidade humana, e a cor do batom que torna tão apelativa a boca de Clawdia.
Ou talvez esteja só um passo atrás, com Ada, a amiga de Alice, que no universo recriado por Maguire a vê desaparecer na toca do coelho e mergulha no seu encalço.

Personagens são como apetrechos inanimados, soltos, quase esquecidos numa caixa de ferramentas, aptos a serem reanimados quando necessários.
Talvez não precise deles agora. Ou simplesmente não queira a sua companhia.

Os livros continuam fechados.
Qualquer dia...

terça-feira, setembro 15, 2020

A margarida na minha enciclopédia

Voltei a inscrever-me (mais uma vez mesmo em cima do joelho) num campeonato de escrita criativa, com um empurraózinho da Redonda

Segue o primero desafio:


__________________________________________________________________



A avó estava deitada dentro da caixa forrada a veludo. A madeira brilhava muito, como se tivesse um plástico lisinho muito bem colado.
Ela lá dentro parecia mais pequenina. Como se, desde ontem, tivesse desaparecido um bocado dela. Não sei bem explicar. Parecia mais pequena, ponto!
Sei que a caixa era um caixão, e que ela, lá dentro, estava morta. Mas não conseguia fugir dos pormenores.

De vez em quando chegava alguém e levantava o paninho branco que lhe tapava a cara. Espreitei algumas vezes mas não consegui vê-la. Imaginava-a como os esqueletos dos filmes. Mesmo sabendo que devia estar muito parecida com o que estava ontem esperava ver qualquer coisa assustadora, afinal a mãe tinha-me proibido de a ver...
A mãe.

A mãe estava triste. Mas não chorava como eu choro quando estou triste.

Nunca vi a mãe chorar.

Na outra sala riam-se de qualquer coisa. A Maria tinha preparado uns croquetes, daqueles que eu gosto tanto, mas não conseguia comer nenhum. Parece que a minha fome morreu com a avó.

 

Depois chegou a Margarida.

Está com 11 anos, um a mais do que eu, e é linda. Os cabelos pretos estavam penteados em duas tranças e davam-lhe um ar mais crescido. Ou talvez fosse o vestido. Ela nunca usava vestidos.
Sentámo-nos no último degrau, longe das conversas dos adultos. Falou-me durante muito tempo do Chuck, o cão, do que aconteceu quando ele morreu, e eu sem coragem de lhe pedir que parasse, sentia os meus olhos a encherem-se de lágrimas. Não ia conseguir ser forte como a minha mãe.

A Margarida calou-se, olhou mesmo para mim, e deu-me um beijo, devagar, nos lábios.

 

Nessa noite desci e fui buscar uma margarida às flores da avó, guardei-a entre as páginas da minha enciclopédia, mesmo ao pé da palavra “sentir”.

 

 


segunda-feira, maio 18, 2020

E se fosses à ......?

( Resposta ao ultimo desafio do 48º campeonato Nacional de Escrita Criativa )

Disseste-me que a vida é feita de pequenos nadas, será verdade?
Não devo procurar grandes feitos, nem grandes amores, é isso?
É mesmo isso que esperam de mim?
É o que se espera de toda a gente?
Que se viva de pequenas conquistas que não enchem a alma?
O que faço então às demandas das minhas vísceras?
Que rumo dou aos ímpetos que me queimam?
Não posso ousar?

Que teria sido da revolução se todos fossem ordeiros?
Que seria da arte sem se quebrarem limites?
Onde quererão vocês encaixar os sonhos?
Ignoram-os?
Não desejaram todos um dia sair do restolho da massa anónima?
Satisfaz-vos o ser amorfo, sem vontade e sem diferença?
Pequenos nadas?
Não poderei desejar um pequeno tudo? Ou um talvez? Ou um grande tudo ou nada?
Que mal há em querer ser grande?
Não se recordam da pergunta: E quando fores grande?
Começaram a cortar-nos os sonhos desde aí?
Diz-me a verdade, foi desde aí?
Em que medida somos donos da nossa sorte?
Seremos livres para o tudo ou nada?
Pequenos nadas?
Sabes onde punha eu os teus pequenos nadas?
Achas que não sou capaz de o dizer?
Eu?
E achas que mereces que seja por ti que perca a compostura?
Não sabes mesmo onde estou a querer chegar?
Não perceberás que o verbo amar se conjuga em todas as línguas, e tempos verbais, mas que não pode ser um pequeno nada?
Não entendes?
Não queres também tirar-me o direito a questionar, pois não?

segunda-feira, maio 11, 2020

Com cinco nós apertados

Monsanto - Idanha a Nova
Maria vai à janela e o olhar perde-se na chuva miúda que cai desde cedo.
A aldeia nestes dias veste-se de cinza prateado, as grandes pedras de granito impõem-se como as principais habitantes do lugar e emprestam uma tonalidade etérea ao casario. Como se fosse natural encontrar um centauro ao virar da esquina, ou uma fénix pudesse pousar no cercado ali perto.
Embarca nestes sonhos, embalada pela cadência da goteira, e evoca as histórias que avó lhe contava quando em pequena passava o verão em Monsanto.
Regressar é uma viagem sem bilhete num turbilhão de emoções.
A última vez que ali tinha estado, saiu com juras de não voltar. O aperto que sente no peito diz-lhe que, independentemente da vontade, ainda há demónios à solta.
Veste a capa de chuva e sai. Segue em passo apertado de quem sabe bem o destino, e vai sulcando a ladeira que a levará ao castelo.

(Tantas vezes fez este caminho com ele)

A sola das botas escorrega nas pedras molhadas.
Qual a validade das juras de amor?
O corpo tem viva a memória subtil de doces estremecimentos - a cabeça pouco manda quando é a pele quem recorda.

(Vinha na lambreta de Alpedrinha a Monsanto)

A chuva parece mais fria no cimo do monte, o vento sopra e no seu assobio parece cantar a solidão maldita dos amores perdidos.

(Na muralha Norte, a que ninguém acede, ataram com cinco nós apertados um lenço vermelho que alí ficaria - para sempre? - enquanto durasse o amor)

Na muralha está um homem que com muito cuidado dá cinco nós apertados num pano vermelho. Maria para, diria que o seu coração também, e recua lentamente não vá o Benjamim vê-la. A mão no seu bolso agarra o lenço vermelho. Sabe agora que o amor dura enquanto o quiserem os dois.

Castelo de Monsanto

terça-feira, maio 05, 2020

Na tua varanda

O clandestino - Carlos Farinha
O clandestino - Carlos Farinha (Agosto 2020)

Estávamos num daqueles dias em que o sol, ao beijar o horizonte na despedida, faz corar o céu e as nuvens, que rubros testemunham o despudor com que o astro rei se traveste de mil rubis, e se deixa engolir, lentamente, tingindo o mar de amor e sangue.
Há algo de simultaneamente sereno e eléctrico num entardecer como este. E os olhares ficam cativos desse céu incomum como que procurando (ou projectando) nele a chama por que anseiam, perdidos que andam em vidas monocromáticas de tons pastel.
Eu (tu sabes bem) trago cá dentro o fogo que acendeste em mim. Um calor que evoco mesmo sem querer, na pele que antecipa o teu toque, nos lábios que demandam a tua boca. Sinto o rosto afogueado por um desejo incontido, um saber que só nos teus braços, numa leitura táctil e visceral, me vou encontrar verdadeiramente a mim mesma. Não sei explicar-te melhor. Sinto-o. Não sei dizê-lo. Não ainda.
Já me tinhas falado vezes infindas da tua varanda virada a nascente de onde vês o sol despontar em noites insones. Construí-a, à varanda, na minha cabeça com todo o pormenor. Um terraço amplo, despido, de tijoleira clara, nele terias um estendal daqueles altos de arames esticados, e uma ou duas cadeiras baratas de jardim onde te sentarias ao fim do dia com um maço de cigarros e uma cerveja e te deixarias perder num pensamento errante com o olhar solto na magnífica vista sobre o casario e o rio lá ao fundo. Verias a entrada e saída dos paquetes? E as velas dos pequenos barcos que ao fim de semana enchem o rio? Quase tenho medo de perguntar-te se nesses momentos te lembras de mim...
Hoje, não sei porquê hoje, convidaste-me a subir. 
O meu coração está num cliché: descompassado. 
Sinto o que todos os apaixonados sentem, mas que para mim é único. Curiosa esta condição de quem ama, de se sentir intraduzível, único, especial. Como cada encontro de dois é impartilhavel e indizível. 
Eu digo-te a ti. Digo-me a ti.
Quando me tomas num abraço e a fronteira da minha pele se dilui na tua. É aí que me digo. Quando as bocas se falam celebrando o encontro e antecipando a falta que terão uma da outra. Digo-me!
E como nasce de mim qualquer coisa de novo que não sei ainda dizer-te, digo-te que o céu se coloriu assim, por uma qualquer magia, para espelhar o que somos os dois, juntos.
Sorris, passas levemente a tua mão no meu rosto, também tu não entendes ainda. Aceitas o meu pensamento infantil de um sol que se compadece de um amor que nasce sem ter nome ainda.
Abraças-me, encostas os teus lábios aos meus e de olhos fechados sentes como me digo a ti. E esquecemos-nos os dois do sol, do céu e do mar.


segunda-feira, abril 27, 2020

La plus belle fleur

Mais uma resposta a um dos desafios do CNEC.
Gosto da tentativa de contar uma história inteira em apenas 300 palavras. (Bem... os Haiku têm 17 silabas.... 😃)
E desta vez acho que consegui.
Independentemente da pontuação que tiver... gosto deste texto.

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A manhã deste dia de Abril nasce com um resto de frio. A luz do sol que entra pela janela não aquece o quarto e sinto os pés gelados e as pernas entorpecidas. Faço o meu café, frugal, e sento-me na mesa da cozinha. Esta casa para onde me mudei depois de me teres morrido é uma sombra do que fomos.
Na mesa da sala, junto a uma jarra que confesso-te muito raramente tem flores, está aquela fotografia que tirámos junto ao Sena em 1973, lembras-te? Tinha-te dito que eras “la plus belle fleur de Paris”, e o teu sorriso era tudo para mim. Aprendeste francês mais depressa do que eu, e à noite, deitados, dizias as palavras que mais tinhas gostado, rias com os “ús” e com “ices”, que me provocavam arrepios quando ditos sussurrados ao ouvido.
“Mon amour” - palavras que repetimos a vida toda.
Hoje não vou ficar em casa. Hoje não!
(Estar fechado em casa seria muito mais fácil contigo).
Abro a gaveta de baixo da cómoda, ainda é aquela que fomos buscar a Paços de Ferreira depois de ir visitar o tio Fernando, e pego com um cuidado a que já não estou habituado nas nossas memórias. As mãos tremem-me, reconheço-me velho, mas hoje é Abril, não vou ficar em casa, e recuso-me a ter idade, seja ela qual for.
A Liberdade está desenhada num lenço com a tua letra, ato-o na cabeça como sempre, e pego na bandeira vermelha e verde. Amo este país.
Saio à rua deserta neste fim de mundo alienado onde moro.
“Vai para casa palhaço!”
Não os oiço.
Vejo-me contigo quando em 98 fomos viver Abril a Castelo de Vide, a nossa homenagem a Salgueiro Maia, numa festa de cravos mil.
Hoje vou arranjar um cravo der por onde der “La plus belle fleur de Portugal”.

Fotografia de Alécio de Andrade - Paris (Pont des Arts), 1987

segunda-feira, abril 13, 2020

Lado negro da Boop

Mais uma resposta ao CNEC.
Nunca tinha escrito algo tão tétrico... que me lembre...
Perdoem-me os leitores mais sensíveis!
:)
Ahahahahah

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Entretenho-me a vê-la!
Nunca dará com as câmaras. Nunca nenhuma as viu.

Imagem tirada da net

Dei com esta a sair da florista. O corpo dançante num caminhar despreocupado de quem nada teme. O vestido primaveril, padrão colorido e decote fundo, acentua as ancas generosas e faz-me imaginar o roçar das coxas. A cada passo que dá quase que sinto a sua pele húmida e quente nesse cercear de pernas, e salivo perante a ideia do toque sedoso e lascivo nessa ostra salgada que esconde do mundo.
Farejo-a.
Preciso de a observar em cada detalhe, tê-la submissa. Antecipo o gozo de lhe roubar a jovial crença de que se basta a si própria, usurpar-lhe a força e a solidez, despi-la de toda a firmeza, e tê-la à minha mercê. Frágil. Assustada.
‘Nas minhas mãos serás uma gazela taquicárdica e apavorada. Farás tudo o que eu quiser sem o saberes.’

Está no armazém.
Nunca me viu nem verá.
Mas eu vejo tudo.
Vai perder todas as referências, e eu vou ser testemunha de cada passo para o desespero.
Vou fruir do desmoronar do castelo de cartas dessa altivez barregã de quem se julga dona do mundo. ‘Não vales nada rameira.’
Acordou há umas horas e já se cansou de gritar. A maquilhagem borrada desfigura o rosto, e já há muito perdeu o sorriso e a irritante expressão segura. ‘Quem é a rainha agora? Quem?’.

Como a minha sandes enquanto vou monitorizando as câmaras.
Está quase na hora do direto.
Tenho 8 fieis seguidores que comigo assistem ao desespero alheio. Pobres coitados. Impotentes que se acham mais homens por assistirem ao desmoronar do feminino – o que de mais poderoso há numa fêmea.
Eu estou no comando. Que ninguém se engane que sou eu quem manda!
Uma vez quebrada não servirá para nada!
Solto-a!

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Confesso que na primeira versão terminava com "Mato-a", mas... não fui capaz! ;)

segunda-feira, março 30, 2020

Na Galafura


Confinada, sentada em frente ao computador lembro a viagem que nunca fiz.

A Galafura fica na margem norte do magnífico Douro. Estradas sinuosas que partem do Peso da Régua vão subindo encostas trabalhadas em centenários socalcos. O sol quente de um verão que se intrometeu nos fins da primavera, aquece-me o carro, a pele, e traz a doce sonolência do amadurecer das uvas.

Hoje vou visita-lo.
Tantas vezes o ouvi perguntar: “Boop, tem ido ao Douro?”. Para de seguida trocarmos algumas palavras sobre as vindimas, a quantidade da uva, a qualidade do vinho...

António é o seu nome.
Nunca o tratei por António. Nunca.
Para mim sempre foi carinhosamente “Professor”! E quando a ele me refiro uso-lhe o apelido.
Volvidos quase 30 anos percebo que sempre foi uma presença.
Por isso hoje levo-lhe um dos vinhos generosos feitos com as uvas apanhadas por mim e pelos meus como que numa troca de galhardetes.

Sinto os ouvidos estalar por estar a subir a pique.
As vinhas que ladeiam um e outro lado da estrada, estão cuidadas, o verde das suas folhas é ainda tenro, e transbordam promessas de boas colheitas.
Imagino-o a abrir uma garrafa de Quinta dos Mattos, um Doc, Reserva, Tinta amarela (sempre gostei do seu amor à etimologia, e o valorizar das tradições – porquê chamar a casta de trincadeira?), a servir um copo para cada um, a sentarmo-nos num alpendre, em cadeiras rústicas, e deixarmos que o olhar se perca na imensidão das vinhas.
Talvez aí falemos de psicanálise... talvez!
Mas porque não contarmos histórias, falarmos das vinhas, e das vindimas do antigamente? E do amor - é a pessoa que mais ouvi falar do amor!

Continuo em frente ao meu computador, tão cedo não irei a lado nenhum.
Pego num cálice de Porto, e faço-lhe um brinde a si Professor.


segunda-feira, março 23, 2020

Louco

O riso.
Sempre um gozo.
Dissimulado.
Gargalha.
Olho por cima do ombro.
Não o vejo.
Lá está outra vez - o riso.
Viro-me repentinamente e parece-me vê-lo a dobrar a esquina.
Camisola azul, chapéu de marinheiro.
Corro até lá.
Nada.

A voz.
Irritante e indecifrável.
Diferente do gozo do riso.
É zangada – a voz.
Abano a cabeça.
Não quero ouvir.
E o som aumenta.
Invade.
“Vai-te embora!” – grito.
O riso.
Outra vez.
O gozo.

Estão a olhar para mim.
Não posso deixar que me levem outra vez.
Eu calo-me.
A voz não.
Não percebo o que diz.
Confunde-me.
Autoritária.
Sei que quer que me sente para ler.
Não tenho nada para ler.
O pai vai zangar-se comigo!
O pato Donald está zangado comigo!
Procuro desesperado o livro.
Não há livros na rua.
Tenho de me sentar a ler.
De repente o riso.
O gozo.
Outra vez.

“Vai-te embora!”
“Cala-te!”
O volume sobe, do riso, ruído estridente, que arranha os ouvidos por dentro.
Grasnar agudo e irritante, insuportável.
Tapo os ouvidos, sacudo a cabeça, pára por favor!

“Nuno, Nuno”
Abro os olhos e vejo que é o senhor Manuel que me agarra os ombros e me resgata da espiral louca em que estou.
Conhece-me desde pequeno, sabe do que se passa comigo e nunca se riu. É diferente do meu pai, nunca me bateu, nunca me obrigou a ler aqueles livros coloridos, cheios de animais que falam, e “dele” o pato rabugento, zangado, e inútil. O meu pai, o inútil, que me obrigava a ler enquanto se fechava no quarto ao lado de onde vinha um cheiro quente e enjoativo. O meu pai morreu no quarto ao lado enquanto eu lia um livro aos quadradinhos. O meu pai é o inútil.
Ouço o riso, mais baixo.
O Sr Manuel nunca se riu.

quinta-feira, março 19, 2020

Sonho

(O  último texto do 47º Concurso Naconal de Escrita Criativa - mas já começou o 48º... ;) )

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A casa de jantar está composta, a mesa é farta, família reunida como se fosse uma cena montada para um filme de Natal.

(é só nos filmes, não é?)

Os homens vestem camisolas de lã, de cores marcadas, têm uma barba cuidada e trazem na boca e nos olhos sorrisos rasgados.

(é a tua barba em cada um deles!)

As mulheres estão vestidas à anos 60, com vestidos cuidados, e cabelos perfeitos, as tarefas do feminino parecem harmoniosamente integradas, como se ninguém questionasse o lugar de ninguém nessa farsa pantagruélica.

(há fotografias num álbum qualquer lá por casa em que as mulheres, e a minha mãe, se vestem assim)
(Tento esconder-te esta minha veia conservadora que gosta de ver tudo numa ordem qualquer, que me permita prever o que vai acontecer)

Os meus personagens estão todos lá, os vivos e os mortos,

                       (que bom ver de novo a avó)

mas TU estás lá.
Tu estás e eu não.
Eu sou as próprias paredes, observadoras e contentoras deste encontro surreal onde há espaço para ti.

(Um lugar criado nas minhas entranhas, ou num qualquer intervalo sináptico onde se funde passado e futuro, realidade e desejo, armadilha mental que me oferece uma realidade improvável)
_______

Tu ris-te sempre dos meus sonhos, não me levas a sério.Aninhada nos teus braços conto-te-os todos, acreditando que assim me entrego por completo. Como podes duvidar de mim se te revelo sonhos?


Deixo os meus lábios roçarem levemente na tua barba. Cheiro-te. Sinto as tuas mãos procurar o meu corpo e sinto que sou apenas as partes de mim que tu tocas, e o fogo que em mim se acende. Os medos destes dias ficam todos lá fora.

Isto que sinto?
Não há sonho que iguale!

segunda-feira, março 16, 2020

O olhar do Aluco

Aluco ou Coruja do mato
Sentado no alpendre, com um casaco quente e um cigarro a queimar-se devagar nos dedos, olhava a serra que tinha sido eleita o seu “Skyline” para o resto da vida.
“O resto da vida” pode parecer dramático mas, garanto-vos, é uma escolha deveras apaziguadora!
O sol já tinha passado para o lado de lá do cume e a linha que se desenhava contra o céu violáceo desta tarde fresca trazia a reconfortante certeza de estar em casa.
Lá de dentro chega o cheiro do forno, onde assa um lombo de porco com mel e castanhas, e os barulhos da cozinha são uma companhia benfazeja.
Às vezes tem a sensação de estar longe do mundo, protegido, como um soberano de coisa nenhuma, só a força esmagadora das montanhas o redefine na sua condição frágil e vulnerável.

Sem aviso, assaltam-no, primeiro no corpo e depois no pensamento, memórias da tarde anterior. Não sabe se é tortura se deleite. Revisita em pormenor o prazer proibido, num misto de júbilo e culpa, de subir com beijos lentos o declive do ombro dela.
Nenhum dos dois foi capaz de parar.
Sente ainda no corpo todos os toques, a pele tem uma memória própria que o arranca da paz desta tarde. Nem a serra nem a presença na cozinha são fortes suficiente para o arrancar desta memória hipnótica.

E de repente um Aluco pousa num tronco nu da amendoeira, ali a tão poucos metros de si, e num momento raro, e quase mágico cruza o olhar denso e misterioso com o seu. Uma comoção de quem entra verdadeiramente em contacto com o mais puro de si açambarca-o para logo de seguida ver a coruja-do-mato abrir as asas e voar para longe.

Levanta-se e vai à cozinha.
Tem de contar a coisa mais extraordinária que aconteceu nos últimos tempos.

quinta-feira, março 12, 2020

Esse outro de mim

São 21h05 e sento-me ao computador para escrever.
Numa página em branco há um misto de vazio e potencialidade que me faz ter sempre a certeza de que as palavras que eu escolher ficarão sempre aquém.
Na procura de inspiração olho para a grande janela que ocupa toda a parede no topo do escritório.
Lá fora o breu absoluto. A pretura da noite, hoje opaca e turva, esconde o fulgurante verde da selva mais ou menos desalinhada que acarinho no meu jardim.
Sei do contorno das árvores, do tom das suculentas, das flores que desenham os canteiros, e do chão cinzento em tijolos de cimento que a força das raízes moldou com o passar dos anos numa irregularidade que a mim apenas me evoca uma leve ternura.
Há poucas coisas com tanto futuro como o planear um jardim. Saber sonhar um jardim é uma arte, projectar fruto onde apenas há semente. Há o saber esperar pelo tempo certo de plantar, de regar, de podar, de moldar. E respeitar o tempo, e o temperamento de cada uma das peças que o tornam O Meu Jardim.
Sei do lugar dos formigueiros e das teias de aranha, sei das flores que as abelhas mais procuram, e dos galhos em que os pardais descansam.
Mas agora tudo o que vejo é o meu próprio reflexo, que com as trevas se transmuta o vidro em espelho, e nada vejo para além de mim.
Nem um som me chega que me traga a vida que respira lá fora.
Olho para esse outro de mim que ocupa o espaço que deveria ser do jardim e constato que envelheci.
Este manto que a noite trouxe deixa-me sozinha comigo numa tranquilidade que há muito procurava.
Retomo à pagina que já não está em branco, sei que foi escrita pela mulher do vidro/espelho e por isso não ouso trocar uma única palavra.





____________________________________

Up-date matinal
:)




quinta-feira, março 05, 2020

Para não enlouquecer

(a resposta a mais um desafio, este tem banda sonora - se a aguentarem....)


Parei no café e tomei um comprimido com uma cerveja.
Trago o blister no bolso.
Parece que os tomo como smarties. Já os experimentei de todas as cores, feitios, tamanhos...
Não resulta!
 “Transtorno depressivo inespecífico” dizem.
Perdido por cem, perdido por mil – experimentemos a bruxa!

Passo o postigo.
Um cenário psicadélico atordoa-me. As tintas néon preenchem a parede com formas intrigantes, traços inicialmente simples vão sucessivamente dando lugar a linhas mais curvas e humanizadas, que em sugestões orgíacas, se fundem e interpenetram numa fusão anárquica de corpos.
Não sei se reparo primeiro no cheiro a ganza ou na música picodélica com laivos tribais que numa batida hipnótica faz dançar as formas da parede. Mas tudo aquilo me atrai e vou avançando como que num transe, sem critica ou controle.
Ela não é nada do que tinha imaginado.
Uma mulher magra, calva, vestida de branco, dança sozinha no meio da sala. Em movimentos lascivos o corpo solto e alvo parece irradiar um brilho próprio que de início me confunde. É albina.
Silêncio.
Dirige-se a um balcão, também ele branco, e meneando o corpo ao ritmo da batida, vai juntando com extremo cuidado elementos zelosamente guardados em pipetas e provetas, e oferece-me a preparação a beber.

Sento-me num atordoamento no colchão encostado à parede e perscruto a minha alma.
Invade-me uma leveza desconhecida. A massa cinzenta e turva que me ocupava dissipa-se e de repente sou só vazio. Por um momento conheço a “paz branca”, um continente inteiro de branco infinito, “um mundo albino” – lembro-me de pensar.
Mas numa torrente tsunâmica sinto a atropelarem-se outros sentires em mim. O vazio que a tristeza deixou dá lugar a angústia, euforia, zanga, amor, ciúme, culpa, esperança, luxuria, medo, ...

Num movimento de pânico volto à rua.
Quero a tristeza de volta que só ela contém a loucura que há em mim.

quinta-feira, fevereiro 27, 2020

Eu e o meu pai

(mais um texto do campeonato de escrita criativa)

26 de Fevereiro de 2020 – 11h32
O telefone tocou.
A voz da Ana, a enfermeira que o acompanha, diz-me, num tom indecifrável, que ele acordou.

O acidente foi na noite do meu 22º aniversário, o ano 2000 ia ser memorável... liguei-lhe para me vir buscar porque tinha bebido demais, uma daquelas saídas de rapazes com uma liberdade que naquele dia me foi roubada para sempre.
E o pai nunca apareceu.

Pego no casaco, na chave do carro e saio.
Como vou explicar que a mãe morreu?
A dor daqueles meses infindáveis em que a vi definhar, e o abandonei a ele (quase não o visitei desde que a mãe partiu) acerta-me como um murro no estômago.

O dia está claro, o céu de um azul forte acolhe o sol de inverno, um dia lindo!
Desde quando a Primavera teima em chegar em pleno Inverno?
Olho para a fotografia do tablier, tirada apenas há uma semana, onde estou divertido com os meus dois filhos a fazerem tropelias.
Estou tão parecido com ele.
Não soube que casei, que tive dois filhos, que me divorciei.
Nada sabe das minhas dores nem dos meus amores.

Assalta-me a presença da Rita, a mulher que deixei a dormir na cama desfeita esta manhã, a lembrança da sua pele fundida com a minha, num tumulto voraz e louco de corpos entregues sem tabus. São memórias corpóreas que trago comigo.
Que saberá o meu pai da paixão?

Os pensamentos sucedem-se agitados, incoerentes, descompassados, companhias fugazes no trajeto até ao meu pai.

Estou impregnado de uma culpa que pensava ultrapassada há muitos anos.
O pai nunca apareceu.

Não sei se tenho 22 ou 41 quando entro no quarto do meu pai.
Mas são quentes e grossas as minhas lágrimas, quando me vê diz a sua primeira palavra: “Pedro”.

sábado, fevereiro 22, 2020

À sombra do medo


Antes de mais quero dizer-vos que sou o que podem chamar de um homem medroso!
Conheço visceralmente o abismo da aterrorizadora experiência do sufoco perante um negro absoluto.
A náusea.
A rigidez que me prende os músculos, que chegam a doer de tão inutilmente tensos.
Um vazio que de tão grande ocupa todo o espaço.
E como a racionalidade se esvai.
Chamam-lhe “medo”.
Para mim é só uma coisa enorme que não tem nome e que eu não sei pensar.
Só o meu corpo o sabe “dizer” à sua maneira. Um grito surdo dos meus músculos. Um contorcer das minhas vísceras, em peristaltismos agonizantes, em descargas de merda liquida, num segregar de bílis que me sobe à boca e me amarga os dias, na fome que não chega.
É uma espiral vertiginosa de solidão.
O pior do medo é ser vivido sozinho.
Tu. Sozinho. Num universo inteiro de abismos.
E cresce.
Cresce como o próprio universo sem qualquer limite, sem qualquer fim.
Um cair sem rede e sem fundo.
A antecipação permanente de um terror maior que na verdade nunca chegou. Ainda. Mas que te espreita no segundo seguinte, e no seguinte, e no seguinte...

E agora tenho uma criança a perguntar-me:
- O que é o medo?

Sinto de imediato um suor frio assomar-se à minha testa.
(Sim, o frio é transversal a qualquer experiência de medo)
Eu treinei para isto!
- O medo faz parte da vida - digo mais para mim do que para ela.
E continuo:
- Sabes? O medo na verdade é teu amigo. Se fores fazer alguma coisa e tiveres medo, fazes com mais cuidado. O medo protege. Já viste o que aconteceria se os gatos não tivessem medo dos cães?

E à medida que vou falando sinto o alivio que as palavras nos trazem.
Soubesse eu dizer sempre os meus medos!





quarta-feira, fevereiro 19, 2020

(o primeiro) Corrida matinal

Comecei a correr todos os dias de manhã, e detesto.

Levantar da cama, vestir uns calções, calçar os ténis, e ficar uns minutos (acontece-me sempre) a escolher a t-shirt e acabar por pegar numa qualquer.

Saio! Sinto a pele a reagir e às vezes entretenho-me a desdobrar esses segundos de impacto com a temperatura exterior numa multiplicidade de momentos: o rosto a esticar, os pelos das minhas pernas a eriçar, o ar que me entra ao respirar e me faz ter consciência do interior da minha boca e da minha garganta, a ponta do nariz que gela, o meu pénis que se contrai traduzindo a minha mais profunda relutância a este esforço matinal...
E é começar! Não pensar muito e seguir.
Mas na verdade penso, muito! E embora deteste reconheço-lhe a utilidade, limpa a mente e põe em circulação uma série de neurotransmissores, ou lá o que são.

E por isso, nesta minha ambivalência que já me cansa em relação a tudo, continuo a sair para correr quase sempre pelos passadiços no meio das dunas por onde, a esta hora, não passa ninguém.

Vejo um gajo na praia. Sentado na areia, de fato, parece um tipo todo atinado, e agora todo fodido. Tem uma cena qualquer que parece um daqueles pacotes pardos xpto dos ctt: “correio verde”.

Continuo a corrida, não me meto na vida dos outros, e agradeço que não se metam na minha, e distraio-me a imaginar o que teria nas mãos, o que sei tornará o meu percurso até casa mais rápido e leve. E neste exercício de livre fantasia, num crescendo que reconheço algo sádico, imagino cartas de despejo, a noticia da morte de alguém, ou fotografias da mulher com um amante.
E sem mais, estou de volta a casa.
Agora sim começa o dia e esqueço rapidamente o homem da praia.

domingo, fevereiro 16, 2020

Red (Blue) Light District

Heitor olhou e confirmou que estava na rua certa. 

As tonalidades vermelhas que emanavam de todas as vitrines e se reflectiam na chapa dos carros e no asfalto molhado pela chuva fraca que caía, camuflavam os rostos das centenas de turistas que visitavam nesse dia o RedLight District
Caminhou timidamente por entre os grupos de homens jovens eufóricos, de casais que passavam de mão dada, de gente que se ia passeando e conversando como se se encontrassem na Kalverstraat numa amena tarde de Domingo, e de um ou outro homem solitário como ele que paravam junto às montras de uma maneira diferente.
“It takes one to know one!” pensou
Os casacos de inverno, os gorros, as luvas, serviam de camuflagem, contrastante com a quase nudez das mulheres que se exibem por trás dos vidros. São corpos que lhe são estranhos. Esse continente desconhecido do feminino encerrado no corpo despudoradamente exposto de cada mulher. Não consegue identificar bem o que sente. Desconforto, repulsa, uma espécie de horror que não consegue nomear. 
Não consegue evitar pensar que todas aquelas pessoas, que de forma mais ou menos ordeira por ali andam, são, entre paredes, amantes, que se entregam ao descontrole do sexo, com corpos desarticulados e misturados.
Olha para os seus pés por uns momentos. Vê os seus ténis gastos aparecerem alternadamente um em frente do outro, e contando passos tenta dominar a ansiedade que vai crescendo.
Vinte metros à frente uma luz azul contrasta com o rubro da rua. Sente uma erecção involuntária, e uma excitação nervosa que o deixa meio perdido. Sente uma atração simultaneamente medonha e electrizante, impregnado de culpa e de desejo, de quem fez uma viagem inteira para poder provar o proibido.
A luz azul.
Indica um Trans.
Igual mas diferente!
E Heitor olhou.