sábado, outubro 23, 2021

34/40 consentimento

Tenho umas dezenas de livros para ler em pilhas que se multiplicam por todos os cantos.

Mas ontem a minha irmã, terminou este cá em casa e eu acabei por ficar com ele…. Li-o num instante!


A qualidade literária não é o forte do livro.

O que o distingue é a clareza com que denuncia a prática da pedofilia.

Um relato na primeira pessoa que nos deixa com uma sensação de náusea.

A escrita é simples e despretensiosa. Tem o propósito de expurgar uma experiência traumática. O decifrar da própria participação (consentimento) numa relação abusiva. Que papel teve? Quem não a protegeu?

Visita a sua sexualidade infantil, e toma consciência do que lhe foi roubado no que diz respeito à descoberta, aceitação, desfrute da sexualidade adulta.

Uma adolescente introduzida precocemente no mundo perverso dos adultos.

O capa do livro “vende” uma história de amor. Não se deixem enganar. Nenhuma história entre um adulto e uma criança pode ser adjectivada com a palavra amor.


O mundo terá sempre as suas “Lolitas”.

E é importante que vozes como as de Vanessa Springora se façam ouvir.

As denúncias e a coragem de sair de uma relação abusiva - de que este romance auto-biográfico dá conta - são de muita importância para que cada vez mais jovens, rapazes e raparigas, não se deixem manipular.


Nota-se na leitura do livro a presença da sua análise pessoal, que aliás a autora refere como tendo sido lugar de resgate de si própria.

E é um exemplo de como a exteriorização de um conteúdo tão difícil (neste caso na terapia e posteriormente neste livro) permite a elaboração do mesmo.



Resumindo: 

@ qualidade literária fraquinha

@ tema mexe com as entranhas - indigna!

@ é válido como denunciador de uma prática extremamente errada

@ serviu seguramente como forma de resignificação da história, como um reconstruir de uma narrativa

sexta-feira, outubro 08, 2021

33/40 A história de uma serva




 Nunca tinha lido nada de Margaret Atwood.

Um amigo que me conhece bastante bem sugeriu que visse a série. Como não tenho acesso a ela (sou péssima com plataformas de stremio) acabei por comprar o livro - depois de ter passado por ele n vezes na FLL.

Trata-se de uma distopia. E como todas as distopias tem o seu quê de perverso, de cru, de chocante, … e de verosímil!

Bem ilustrada a relação poder-submissão. E aborda uma questão que preocupará muita gente… a diluição da raça caucasiana (podemos dizer assim? isto não é só por si uma afirmação mega-racista, parecendo que se poderá fazer distinção entre “raças”?) A diminuição da natalidade e da capacidade reprodutiva. 

Um universo em que a humanidade de poucos é sufocada pelo poder de outros poucos, e em que as massas são joguetes da lei imposta. O medo é, e infelizmente sempre será, uma arma poderosa.

Não é o estilo de livro que mais goste, mas na verdade li-o bastante depressa. Está bem escrito e a leitura é fácil.

terça-feira, setembro 28, 2021

32/40 Vista Chinesa




 ⭐️⭐️⭐️⭐️

Só não dou 5 estrelas porque ler este livro é visitar uma angústia terrível. É fazer o exercício permanente de identificação com a personagem principal e ao mesmo tempo o necessário movimento de sobrevivência de afastar a história de nós. 

Está muito bem escrito!

O trauma explicado na primeira pessoa. Todos os passos. 

Uma mulher é violada.

Assistimos (por dentro e por fora - nesse processo de identificação e necessidade de destanciamento) ao momento da violação (descrito com um cuidado inquestionável), à relação com o corpo maltratado, à ambivalência para com o processo crime, à redescoberta da sexualidade, à hiperpresença impossível de “sacudir” das lembranças corpóreas/sensoriais, ao medo da transmissão geracional do trauma, ao aprender a viver com “o mal” fazendo parte da história pessoal.

Um murro no estômago.

A concretude de algumas passagens põe-nos dentro da história sem pedir licença. 

Mas muito bem conseguido.


Não consigo recomendar o livro a ninguém!

sexta-feira, setembro 24, 2021

31/40 o coro dos defuntos




Lido a custo.

Estive várias vezes para interromper a leitura, mas… lá continuei… 

O estilo é rebuscado e senti-o algo monocórdico.

A história tem potencial. O retrato do mundo rural antes do Abril de 1974. Dá-nos conta do isolamento das aldeias, das notícias chegadas de (muito) longe sentidas como desgarradas da realidade. Era num outro mundo que o homem ia à lua, ou em que acontecia a guerra do Vietname. Um mundo que de tão distante não produzia eco afectivo. 

São os acontecimentos da aldeia que fazem correr o sangue nas veias.


Outros vencedores de prémios LeYa têm uma qualidade TÃO melhor!!!

domingo, setembro 12, 2021

30/40 Sentir & Saber - a caminho da consciência

 



Ler António Damásio é partilhar do seu entusiasmo e maravilhamento com a mente e o seu complexo funcionamento.
O revistar/relembrar conceitos básicos da biologia, da anatomia, da neurologia foi fundamental para seguir o raciocínio.
Um livro que se pretende simples, acessível, é na verdade bastante complexo - mas não complicado.
O Ser, o Sentir, e o Saber - a existência, o sentimento, e a consciência. Degraus de uma diferenciação biológica.
A frases são compreensíveis, as ideias acessíveis, mas às tantas tornou-se difícil apreender todo o raciocínio…. 

Pareceu-me haver algo que se perdeu na tradução, notei algumas incongruências, e traduções estranhas como por exemplo “problemas duros” que imagino seria melhor traduzido por “problemas difíceis”. Mas a tradução foi revista pelo autor….

Uma mudança de género literário para arejar a cabeça! 🙂

sábado, setembro 11, 2021

29/40 O homem da forca

Uma rapariga que consegue preservar um parco equilíbrio mental no seu ambiente familiar, sendo aparentemente uma adolescente “normal”, vai-se desorganizando psiquicamente com a saída de casa para ir estudar na universidade.
Rasgos de pensamento psicótico vão dando conta do caos interno que a nova realidade, que ela não domina, não consegue conter.
Este estado mental é-nos trazido por trechos de texto disruptivos e algo confusionais.

Interessante por termos nesta obra traduzido de forma mais ou menos clara o que vários jovens com uma estrutura psíquica frágil sofrem com mudanças grandes de vida que exigem mais da sua capacidade adaptativa e de autonomia - altura em que surgem as descompensações psicóticas.
Jovens que no seu ambiente familiar protegido - mesmo que pouco saudável - se vão mantendo funcionais.

Gostei mais do outro livro que li da autora - ESTE

Mas ainda tenho o  "Maldição de Hill House" - que deu origem a uma serie televisiva. 
Estou curiosa!
(quando tiver tempo.... que isto há tanta coisa para ler!!!!!)





sexta-feira, setembro 03, 2021

28/40 Comer Beber







“Comer Beber” de Filipe Melo e Juan Cavia.

São autênticas obras de arte os livros destes dois!!!

Aqui estão duas obras tocantes. Contadas com as imagens e as palavras certas. A complementaridade entre o desenho e as palavras é de uma harmonia desarmante. 

As histórias de tão bem conseguidas, tocam-nos como muita literatura não consegue. 

Em comum as duas histórias têm um subtil elogio ao paladar, ao prazer básico e primário, que nos pode transportar para uma realidade outra, menos dura, mais humana. É através do estímulo às papilas gustativas, que se valoriza a relação, o vínculo, como se simbolicamente nos revelasse a essência da vida.


Uma dupla a continuar a acompanhar!

Espero que façam ainda muitos livros juntos!

quarta-feira, setembro 01, 2021

27/40 Largo das Necessidades

Mais um livro que não sei como me veio parar às mãos.

Lisboa contada pela voz da italiana Paola D’Agostinho.

Traz-nos uma Lx com traços trágicos e decadentes. Um toque de “fado”. A cidade apresentada através de um punhado de personagens que procuram magia no meio do seu desespero (ou será melhor dizer desesperança?). Uma lisboa de imigrantes e de migrantes.




segunda-feira, agosto 23, 2021

26/40 Elogio da sede

 



Um paciente ofereceu-me este livro por altura do Natal. Oferta com bastante significado, mas cuja exploração não terá lugar aqui 😉

E foi hoje o dia de lhe pegar!

José Tolentino Mendonça tem uma escrita clara e acessível. A minha formação católica permitiu-me aceder rapidamente a todas as alusões feitas ao longo do texto, mas faz também com que o leia com alguma (desnecessária) condescendência. 

As referências no texto a autores que muito admiro foi-me alimentando: Primo Levi, Fernando Pessoa, Clarice Lispector, Antoine Saint-Exupéry,  Melanie Klein, …

Algumas passagens revelaram-se mais interessantes (enquanto outras, mais doutrinais foram lidas de fugida ou saltadas à frente). 

Ressalto uma reflexão que relaciona a pressa/lentidão com a memória e a capacidade de caminhar devagar até à fonte. E como esta dicotomia traduz a minha prática profissional. O ultrapassar a vertigem do tempo que se escoa, para encontrar um tempo de encontro e de reconstrução da narrativa (isto digo eu, não o Tolentino), para a criação de novas referências essas sim transformadoras.

Uma outra em que me demorei mais um pouco foi a exploração do desejo como motor, mobilizador. 

Um aspecto que sempre me faz confusão no discurso do clero é a idealização da figura da mãe - que se torna mágica, capaz de tudo entender e de tudo transformar. Falta-lhe a experiência seguramente - da frustração, da desilusão - e o conceito tão bem concebido de Winnicott da “mãe suficientemente boa”


Deixo-vos o excerto que mais gostei:

“…a literatura é um instrumento de precisão, como existem poucos, pois está à altura da singularidade, liberdade e tragicidade da vida (na verdade consegue relatar o eu e o nós, o ardentemente pessoal e a aventura colectiva, mas também a graça e o pecado, o encontro e a solidão, a dor e a redenção).”

25/40 Torto arado




 Leitura fluida.

(Há muito tempo não lia em português do Brasil)

Conta na primeira pessoa a história de tantos escravos anónimos que fizeram com que o vasto território brasileiro pudesse ser domado, trabalhado, e amado.

Amado não pelos “senhores” das grandes fazendas, mas por quem deu a vida às terras, às chuvas, aos rios, às alfaias.

E como é de amor (dorido, sofrido, agastado - não de amor romântico) que a história dos homens é feita. Amor e ódio, e revolta, e sonho, e magia.

Também nos fala da origem dos quilombolas - do direito à dignidade e ao futuro - traduzido no direito a umas paredes e um tecto.

“Torto arado” o título muito bem escolhido, está relacionado com uma das personagens desta história/viagem - se um livro não nos prende com as suas personagens… de nada serve.


Para mim teve um senão… sendo uma história muito bem contada e sólida, não permitiu em mim uma identificação, talvez pela distância relativa da minha história pessoal às histórias das personagens principais.

Abordar o tema da escravatura, da posse sobre o outro, da conquista de voz num país em que o negro é mão de obra barata, não deve ser tarefa fácil. Mas é neste livro bem conseguida!

quinta-feira, agosto 19, 2021

24/40 A fome

 



Mais um Nobel.

Livro escrito em 1890

Vale por essa viagem até ao final do século XIX.

Traz-nos o percurso interno de um homem, os seus pensamentos e devaneios, numa fase particularmente difícil da sua vida em que passa efectivamente fome.

Não fiquei fã.

Mas não foi tempo perdido!

sexta-feira, agosto 13, 2021

quinta-feira, agosto 12, 2021

Majestoso


 O som é o das cigarras, permanente, quase ensurdecedor se nele nos fixarmos. Às vezes pára repentinamente o que nos leva a perceber que apenas um ou dois desses pequenos bichos enchem tão amplamente o ar.

Há também o piar dos pássaros, uns cantam, outros em sons curtos e menos melódicos comunicam algo para sempre inacessível ao meu entendimento humano. Todos os anos, várias vezes ao ano, tenho pena de não saber identificar as aves, acho-as seres especiais, talvez por essa magia rara de vencerem a gravidade e poderem dançar num espaço de liberdade azul (depois lembro-me/sei que este conceito de liberdade, de voo, de infinito azul é um resultado do pensamento e percebo, mais uma vez, que o que tantas vezes invejo é essa possibilidade de existir sem elaborações, sem passado nem futuro, com o primado do biológico, no aqui e agora)

Um outro som muito diferente me chega.

Um som grave, pesado, descompassado. Da terra seca a ser pisada despreocupadamente por um animal de grande porte.  

Levanto os olhos do meu livro e sigo com o olhar a direção do som.

E ele aparece, majestoso.

É sempre esta a palavra que me ocorre quando olho para um cavalo.

Um belo exemplar. Possante. Pelo bem tratado, de um castanho sedoso com reflexos dourados. A crina e a cauda escuras estão soltas. Com uma total indiferença à minha presença a poucos metros, procura no solo alguma coisa com que se entreter.

Num momento raro, repara em mim.

Capturo-o numa imagem que se irá perder rapidamente na história.

O que fica é esta calma dos dias.

O calor do verão, e os sons que permanecerão para além de mim.



23/40 A Anomalia

 


A isto se chama uma leitura de verão!

Leve, divertido, não completamente estupidificante. Um roçar de ficção científica, um levantar de questões sobre a natureza humana, é um toque nas grandes teorias sobre o espaço e o tempo.

Há muito tempo não lia um livro que estivesse nos tops das livrarias…

Talvez não tivesse gostado noutra altura.

Mas agora, nestes dias preguiçosos das férias de verão, soube-me bem não ter grandes reflexões nem impactos emocionais.

quarta-feira, agosto 11, 2021

22/40 Viagens



Pronto.

Não gostei…. Mas também não desisti.

Quando na FLL do ano passado me demorei no pavilhão da Cavalo de Ferro fui aconselhada, pelo jovem prestável que la se encontrava, a conhecer Olga Tokarczuk a partir deste livro “VIAGENS”

Encontrei uma maneira de o ler.

É um livro de apontamentos de viagens. Alguns apontamentos soltos. Outros mais encadeados. Não têm uma ordem específica (com raras excepções). Uns pensamentos, umas “fotografias literárias”, alguns excertos de histórias que poderão ser vistos como contos.

Acabei por isso por ir folheando, andando para a frente e para trás, lendo o que me foi apetecendo. Devo ter lido quase tudo, não sei bem.

Houve uma história de que gostei particularmente. Valeu a pena por isso!

Não fiquei com vontade de mais.

Venha outro Nobel!