quarta-feira, fevereiro 26, 2020

Modo de amar - V


Docemente amor
ainda docemente

o tacto é pouco
e curvo sob os lábios

e se um anel no corpo
é saliente
digamos que é da pedra
em que se rasga

Opala enorme
e morna
tão fremente

dália suposta
sob o calor da carne

lábios cedidos
de pétalas dormentes

Louca ametista
com odores de tarde

Avidamente amor
com desespero e calma

as mãos subindo
pela cintura dada
aos dedos puros
numa aridez de praia
que a curvam loucos até ao chão da sala

Ferozmente amor
com torpidez e raiva

as ancas descendo como cabras
tão estreitas e duras
que desarmam
a tepidez das minhas
que se abrem

E logo os ombros
descaem
e os cabelos

desfalecem as coxas que retomam
das tuas
o pecado
e o vencê-lo
em cada movimento em que se domam

Suavemente amor
agora velozmente

os rins suspensos
os pulsos
e as espáduas

o ventre erecto
enquanto vai crescendo
planta viva entre as minhas nádegas


Maria Teresa Horta




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(O que esta mulher sabe dizer o corpo e os sentidos)

terça-feira, fevereiro 25, 2020

11/35 Se isto é um homem


Aqui há tempos (27 Janeiro) fiz uma publicação no Facebook a propósito dos 75 anos da libertação de Auschwitz. E várias pessoas me recomendaram este livro.
Não é um romance. É um relato. Que consegue trazer em si a cadência dos dias. Que fala dos horrores sem zanga, porque não havia já forças para a zanga, ou qualquer outra emoção que se fosse sentida tornaria insuportável a existência num campo de concentração (ou será melhor dizer de extermínio).
Primo Levi sobreviveu. E dá conta nos seus relatos daquilo a que consegue aceder da sua própria experiência.
Deixa de fora a verdadeira força da angústia e da fome, do medo permanente pelas mais pequenas coisas, da dor. Nomeia-as! Enumera-as! Reconhece-as!  Mas (pelo menos eu sinto assim) é inacessível ou impossível de traduzir em palavras a verdadeira dimensão de uma angústia sem nome.
Sinto-a talvez mais presente na descrição de terceiros, do seu olhar, dos seus gestos desesperados, da desistência que habitava corpos vazios de alma.
Um livro que torna possível, sustentável, o “visitar”  uma realidade tão inabarcável.
Para que nunca se esqueça do que o Homem foi/é capaz.


Sinopse:
Na noite de 13 de Dezembro de 1943, Primo Levi, um jovem químico membro da resistência, é detido pelas forças alemãs. Tendo confessado a sua ascendência judaica, é deportado para Auschwitz em Fevereiro do ano seguinte; aí permanecerá até finais de Janeiro de 1945, quando o campo é finalmente libertado. 
Da experiência no campo nasce o escritor que neste livro relata, sem nunca ceder à tentação do melodrama e mantendo-se sempre dentro dos limites da mais rigorosa objectividade, a vida no Lager e a luta pela sobrevivência num meio em que o homem já nada conta. 
Se Isto é um Homem tornou-se rapidamente um clássico da literatura italiana e é, sem qualquer dúvida, um dos livros mais importantes da vastíssima produção literária sobre as perseguições nazis aos judeus.

segunda-feira, fevereiro 24, 2020

Também é assim numa terapia



Perguntam-me às vezes sobre a validade de alguns tipos de psicoterapias.
Grande parte das vezes não tenho como responder (a não ser que me falem em alguma coisa que seja completamente isotérica e aí recuso-me a dar o meu aval!).
Acho que a terapia resulta quando a relação resulta. Independentemente da corrente teórica do terapeuta. Importa sim que saiba o que está a fazer e que se crie uma ligação que torna possível o trabalho.

domingo, fevereiro 23, 2020

sábado, fevereiro 22, 2020

À sombra do medo


Antes de mais quero dizer-vos que sou o que podem chamar de um homem medroso!
Conheço visceralmente o abismo da aterrorizadora experiência do sufoco perante um negro absoluto.
A náusea.
A rigidez que me prende os músculos, que chegam a doer de tão inutilmente tensos.
Um vazio que de tão grande ocupa todo o espaço.
E como a racionalidade se esvai.
Chamam-lhe “medo”.
Para mim é só uma coisa enorme que não tem nome e que eu não sei pensar.
Só o meu corpo o sabe “dizer” à sua maneira. Um grito surdo dos meus músculos. Um contorcer das minhas vísceras, em peristaltismos agonizantes, em descargas de merda liquida, num segregar de bílis que me sobe à boca e me amarga os dias, na fome que não chega.
É uma espiral vertiginosa de solidão.
O pior do medo é ser vivido sozinho.
Tu. Sozinho. Num universo inteiro de abismos.
E cresce.
Cresce como o próprio universo sem qualquer limite, sem qualquer fim.
Um cair sem rede e sem fundo.
A antecipação permanente de um terror maior que na verdade nunca chegou. Ainda. Mas que te espreita no segundo seguinte, e no seguinte, e no seguinte...

E agora tenho uma criança a perguntar-me:
- O que é o medo?

Sinto de imediato um suor frio assomar-se à minha testa.
(Sim, o frio é transversal a qualquer experiência de medo)
Eu treinei para isto!
- O medo faz parte da vida - digo mais para mim do que para ela.
E continuo:
- Sabes? O medo na verdade é teu amigo. Se fores fazer alguma coisa e tiveres medo, fazes com mais cuidado. O medo protege. Já viste o que aconteceria se os gatos não tivessem medo dos cães?

E à medida que vou falando sinto o alivio que as palavras nos trazem.
Soubesse eu dizer sempre os meus medos!





sexta-feira, fevereiro 21, 2020

Quantos anos tenho!?

“Quantos anos tenho?
Muitas vezes me perguntam quantos anos eu tenho…
Que importa isso!? Tenho a idade em que olho as coisas com mais calma,
com interesse de um maior crescimento.

Tenho anos quando os sonhos começam a acariciar os dedos, e se transformam em esperança. Tenho anos de amor, às vezes é um flash louco, ansioso para queimar no fogo da paixão desejada.
E às vezes um refúgio de paz,
como o pôr-do-sol na praia. Quantos anos tem?
Não há necessidade de discar um número,
que fez os meus desejos, meus triunfos,
as lágrimas derramadas pelo caminho
quebrado para ver meus sonhos…
Vale mais do que isso. Que importa se tenho vinte, quarenta ou sessenta!
O que importa é a idade que eu sinto. Tenho os anos que preciso para viver livremente e sem medo do caminho, carregando comigo a experiência e a força dos meus desejos.
Quantos anos tem?
Isso é que importa!?
Tenho os anos necessários para perder o medo em fazer o que eu quero, desejo e sinto.”
José Saramago


E uma música enviada hoje por um amigo que me é muito querido!
:)


quinta-feira, fevereiro 20, 2020

Diz o Gabriel...

...Garcia Márquez

“Quero-te não exatamente por quem tu és, mas por quem eu sou quando estou contigo”

Eu digo:
Esta frase é mais complexa do que aquilo que parece de início...

quarta-feira, fevereiro 19, 2020

(o primeiro) Corrida matinal

Comecei a correr todos os dias de manhã, e detesto.

Levantar da cama, vestir uns calções, calçar os ténis, e ficar uns minutos (acontece-me sempre) a escolher a t-shirt e acabar por pegar numa qualquer.

Saio! Sinto a pele a reagir e às vezes entretenho-me a desdobrar esses segundos de impacto com a temperatura exterior numa multiplicidade de momentos: o rosto a esticar, os pelos das minhas pernas a eriçar, o ar que me entra ao respirar e me faz ter consciência do interior da minha boca e da minha garganta, a ponta do nariz que gela, o meu pénis que se contrai traduzindo a minha mais profunda relutância a este esforço matinal...
E é começar! Não pensar muito e seguir.
Mas na verdade penso, muito! E embora deteste reconheço-lhe a utilidade, limpa a mente e põe em circulação uma série de neurotransmissores, ou lá o que são.

E por isso, nesta minha ambivalência que já me cansa em relação a tudo, continuo a sair para correr quase sempre pelos passadiços no meio das dunas por onde, a esta hora, não passa ninguém.

Vejo um gajo na praia. Sentado na areia, de fato, parece um tipo todo atinado, e agora todo fodido. Tem uma cena qualquer que parece um daqueles pacotes pardos xpto dos ctt: “correio verde”.

Continuo a corrida, não me meto na vida dos outros, e agradeço que não se metam na minha, e distraio-me a imaginar o que teria nas mãos, o que sei tornará o meu percurso até casa mais rápido e leve. E neste exercício de livre fantasia, num crescendo que reconheço algo sádico, imagino cartas de despejo, a noticia da morte de alguém, ou fotografias da mulher com um amante.
E sem mais, estou de volta a casa.
Agora sim começa o dia e esqueço rapidamente o homem da praia.

segunda-feira, fevereiro 17, 2020

Posso explicar?!


Têm aparecido uns textos por aqui aparentemente vindos do nada, que parecem assim nascidos espontaneamente como os cogumelos.

Eu posso explicar!!!

Ora, há muitos (muitos!!!) meses que não escrevia nada de jeito.
Saiu-me a ferros, com sofrimento e ranger de dentes 😉, um conto no Natal que partilhei com os meus amigos na altura.
Vai atão....
Que resolvi entrar novamente num daqueles campeonatos de escrita criativa, de que vos falei em tempos.
Nem tive tempo de avisar.
Inscrevi-me no dia de entregar o primeiro texto que tive de escrevinhar rapidamente para entrar na corrida! (os temas a tratar são enviados aos concorrentes com uma semana de antecedência). Curiosamente esse ainda não partilhei... um destes dias publico-o.

Esta minha participação é realmente uma coisa assim para o egoísta.
É que não reconheço grande autoridade ao júri... às vezes há bons textos (só temos acesso aos vencedores de cada etapa), mas outras....
Não lhes entendo o critério, provavelmente porque têm estilos de escrita algo diferentes do meu e as lentes com que olham para o mundo são (naturalmente) diferentes das minhas!

Mas põem-me a escrever e por isso já lhes estou muito agradecida!!!

Noto no entanto que os meus textos nesta leva estão menos naif... menos inocentes... menos ingénuos... ou será só impressão minha?!?

Seja como for: vai-se escrevendo!

domingo, fevereiro 16, 2020

Red (Blue) Light District

Heitor olhou e confirmou que estava na rua certa. 

As tonalidades vermelhas que emanavam de todas as vitrines e se reflectiam na chapa dos carros e no asfalto molhado pela chuva fraca que caía, camuflavam os rostos das centenas de turistas que visitavam nesse dia o RedLight District
Caminhou timidamente por entre os grupos de homens jovens eufóricos, de casais que passavam de mão dada, de gente que se ia passeando e conversando como se se encontrassem na Kalverstraat numa amena tarde de Domingo, e de um ou outro homem solitário como ele que paravam junto às montras de uma maneira diferente.
“It takes one to know one!” pensou
Os casacos de inverno, os gorros, as luvas, serviam de camuflagem, contrastante com a quase nudez das mulheres que se exibem por trás dos vidros. São corpos que lhe são estranhos. Esse continente desconhecido do feminino encerrado no corpo despudoradamente exposto de cada mulher. Não consegue identificar bem o que sente. Desconforto, repulsa, uma espécie de horror que não consegue nomear. 
Não consegue evitar pensar que todas aquelas pessoas, que de forma mais ou menos ordeira por ali andam, são, entre paredes, amantes, que se entregam ao descontrole do sexo, com corpos desarticulados e misturados.
Olha para os seus pés por uns momentos. Vê os seus ténis gastos aparecerem alternadamente um em frente do outro, e contando passos tenta dominar a ansiedade que vai crescendo.
Vinte metros à frente uma luz azul contrasta com o rubro da rua. Sente uma erecção involuntária, e uma excitação nervosa que o deixa meio perdido. Sente uma atração simultaneamente medonha e electrizante, impregnado de culpa e de desejo, de quem fez uma viagem inteira para poder provar o proibido.
A luz azul.
Indica um Trans.
Igual mas diferente!
E Heitor olhou.

sexta-feira, fevereiro 14, 2020

Então é 14 de Fevereiro?



Tenho a dizer-vos que há 16 anos nasceu uma mãe.
Que desde então tem esta tarefa de manter o universo em ordem!
Cá se vai fazendo!
Ahahahah
(hoje acho que me vão destruir a casa... mas amanhã dou noticias....)

Se querem ler coisas mais bonitas....
Revejam o post de há uns anos!- ESTE
Sobre o dia em que se oferecem rosas.

Da importância dos rituais


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5 de Abril de 2012, Tamara saiu de Belgrado no primeiro comboio da manhã.
O nevoeiro cobria o Danúbio como uma ilustração perfeita do que se passava dentro dela.

Chegou a Sarajevo no final do dia.
O sol desaparecia por entre os prédios e algumas nuvens pesadas tornavam mais escuro o entardecer.
Na avenida arrumavam-se as cadeiras vermelhas(*), perfilavam-se alinhadas numa precisão solene, no que parecia uma plateia sem fim, para um espetáculo a que os expectadores não poderão comparecer.
Um sem fim de nomes, cuidadosamente enumerados e ordenados, ladeiam a avenida, o último tem o número 11.541- os mortos na guerra que se iniciou há 20 anos.

O nome da mãe de Tamara não está na lista.
Branka tinha estado do lado de fora do cerco, soldada das forças sérvias, morreu a cumprir ordens de quem cobardemente se serve de outrem para uma missão suicida. Recolher os feridos, deixar para trás os que morreriam. Brincar de deus, salvar apenas alguns. Uma tarefa feita com o medo a correr nas veias, com a angústia a apertar no peito, com uma força de braços que lhe vinha das entranhas, sabendo que a vida de cada soldado dependia da sua decisão – do caminho que escolhia, da tenda para onde o levava, da urgência e determinação dos seus actos.

Não há na avenida uma cadeira para ela.

O grupo coral ensaia para o espetáculo de amanhã, canta “Porque não estás aqui?”.
As lágrimas correm silenciosas pelo rosto de Tamara.
Imagina uma cadeira preta no meio de todas as vermelhas, que pudesse trazer todos os mortos do outro lado. Imaginou-se a escrever todos os nomes dos soldados sérvios com uma caneta preta numa das cadeiras até que não sobrasse nela um resquício de vermelho.
Mas não poderia nunca tirar o lugar a nenhum dos expectadores ausentes.

Está lá ela!

Na vez de todas as cadeiras negras.
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(*) A 6 de Abril de 2012, para marcar o 20º aniversário do inicio da guerra da Bósnia, exatamente 11.541 cadeiras vermelhas foram perfiladas, por mais de 800 metros, na principal avenida de Sarajevo, capital da Bósnia-Herzegovina, uma para cada homem, mulher e criança mortos no cerco que acabou por ser o mais longo da história moderna, durou 44 meses. A população de 380 mil pessoas foi deixada sem eletricidade, água ou aquecimento e atacada por 330 bombas por dia. Uma guerra que deixou mais de 100 mil mortos e mais de 2,2 milhões de refugiados e deslocados, a metade da população da época.