segunda-feira, março 05, 2012

Os livros que lemos

A leitura é um acto egoísta.
Lemos para nós!

Eu leio para mim!
O mundo que se cria dentro de mim a partir das páginas de um livro é só meu.
Como o desenho que nasce da ponta de mil lápis coloridos e vai crescendo e ocupando a página em branco. Assim nascem paisagens, cidades, casas, pessoas, objectos. Que me pertencem só a mim. (que desilusão quando os vejo retratados no cinema - uma tela cheia de elementos estranhos que se exibem com desdém numa pseudo-legitimidade tão efémera)

Não sei, e a esmagadora maioria das vezes não quero saber, de onde me vêm as imagens que vão ganhando espaço, que me acompanham e se tornam parte deste mundo só meu. Mas conheço-lhes os pormenores, como as cores mudam de acordo com a hora do dia, como as estações passam e deixam a sua marca indelével, conheço os rostos no seu mínimo detalhe, conheço as expressões, mesmo aquelas não descritas mas que se adivinha, conheço os corpos por baixo das roupas, conheço os cantos e as teias de aranha, e os sulcos do uso na madeira dos soalhos.

E os cheiros, da terra, das flores, dos corpos que acordam de um sonho ou pesadelo, das comidas que se preparam por mãos sábias nas cozinhas das velhas casas, do cão que dormita no sofá, do mar cujo som chega até mim (?) quando o vento está de feição. Os cheiros que fazem parte de uma vida, de mil vidas que partilho e a que empresto parte de mim. Os cheiros como os sons. Desde a música que toca no rádio lá ao fundo do salão, ao som que o vento empresta quando passa nos seus mais variados temperamentos. E as vozes? Com os seus timbres, os seus sussurros, a entoação que por vontade própria ou à traição nos revela a emoção. A cada personagem um corpo, um estilo, um cheiro, uma voz.

E gosto destas pessoas, e exaspero-me, e às vezes não gosto, para logo a seguir encontrar novas razões para gostar, e tenho preferências, e tenho esperanças, e às vezes... deixo de acreditar. Mas sinto! Sinto coisas, que são ecos de mim nas páginas que folheio. E às vezes que pena ver que um livro chega ao fim...

Há muito tempo que não abandono um livro. Aconteceu-me uma ou outra vez não conseguir ler um livro. E se o fiz foi por o achar enfadonho e não conseguir relacionar-me com ele. Há-os mais "fáceis" ou mais "complexos", mas são mágicos os livros! E se o não forem para mim - é como se não existissem.

Sim ler é um acto egoísta.

Peço emprestadas as palavras daqueles que os escrevem para poder recolher-me neste mundo que é meu, onde me projecto sem querer saber porquê.
Como me enriquecem os livros que leio!

Aos autores (aos bons), esquecidos quando me embrenho numa história e me sinto co-autora de cada detalhe descrito ou sugerido, digo que os invejo, na mesma medida que os enalteço. Porque conseguem fazer sonhar, porque se despojam, porque abdicam da sua verdade para me emprestarem as palavras que me fazem conhecer outros, novos mundos dentro de mim.

5 comentários:

mfc disse...

A criação desses novos mundos é tão gratificante!
Ler, tens razão, é uma tarefa solitária... em que nunca estamos sós!
Beijos.

Fatyly disse...

Subscrevo inteiramente e tenho pena que sejam tão caros, para não dizer caríssimos!!!!

(malditas letras que tenho de pôr, apre não atino com elas:))

Fatyly disse...

Tens lá dois que recomendo:)

Rafeiro Perfumado disse...

Avaliando a quantidade de pessoas que vêm no comboio a ler, acho bem que seja um acto egoísta, imagina que aquela malta começava toda a ler em voz alta?!? Um grande "iesetsta newfai" para ti!

Patrícia disse...

Quando gosto de um livro, lei-o em voz alta. Aprecio ouvir a minha voz enquanto imagino as cenas que se desenrolam. Gostei muito do texto que redigiste, achei que presta uma homenagem verdadeira à literatura que nos inspira e nos alimenta a alma de sonhos.

Beijinhos
Patrícia

P.S: Obrigada pela visita ao meu blog. Aparece sempre que quiseres!