terça-feira, outubro 29, 2013

Travessa da Espera

Havia na Travessa da Espera um homem de sorriso triste.
Passava gente na travessa, mas passavam por ele?
Saía, manhã cedo, das portas do prédio cor de rosa. Olhar atento. Ou seria desconfiado? Distante? E perdia-se na cidade.
Vestia elegantemente a sua "mentira". Ou não vivem todos os homens uma mentira restando-lhes apenas escolher a "sua"!?
Mas que esconde aquela boca de sorriso triste? Lábios desenhados, carnudos, barba densa cuidadosamente aparada.
Quem beija aquela boca?
Quem transforma aquele sorriso?
É que os olhos que acompanham o triste sorriso são de um castanho profundo e brilhante. Adivinha-se, se quiserem por momentos estar atentos àquele olhar, uma imensa capacidade de sentir.
Quem suporta aquele olhar?
Quem receberá afinal toda a intensidade, teia mesclada de intensos pesares, imensos desejos, pensamentos profundos?

Passa na travessa o homem de olhar atento! Será triste o seu sorriso?
É que alguém o amou esta noite!
Não percebem vocês que passam por ele e não o vêem! Mas por momentos alguém amou o homem de sorriso triste e olhar intenso, e por momentos a "sua mentira" foi despida acompanhando a roupa que se espalhou pelo chão. E os olhos que o olharam sem medo e a boca que encontrou os seus lábios, deixaram uma marca indistinta, serena, que vai acompanha-lo hoje, pelo menos hoje, quando desaparecer invisível para muitos olhares, nas ruas da sua Lisboa.




1 comentário:

Fatyly disse...

Tão real...escreves maravilhosamente bem e já tinha saudades de ler textos teus!

Beijocas