quarta-feira, janeiro 28, 2015

Vai formosa e não segura

O  momento para que tinha trabalhado anos a fio chegara!
Respirou fundo e entrou no teatro.
Por momento quis ser pequenina, tirar os sapatos e sentir na planta dos pés o toque da alcatifa carmim, e esquecer-se assim do que a trazia ali.
Foi chamada à realidade pela orquestra em afinações. Ouvia-se o toque de vários instrumentos naquele desarranjo melódico de sons descompassados que pareciam ecoar a sua própria turbulência.
Ainda tinha algum tempo.
Enquanto reproduzia a música na sua cabeça nota a nota, procurou dentro de si os pensamentos que a ajudavam a serenar. O seu preferido, e mais eficaz, era a memória do toque da camisola de caxemira que o pai usara no dia do casamento do tio Fernando. Devia tê-la usado mais vezes, mas guardou para sempre o momento em que lhe pediu colo e se aninhou nos seus braços de caxemira azul. O Azul. O Azul também a acalmava.
Está na hora.
Em passos falsamente seguros pisou o palco.
Lembrou-se de sorrir quando as palmas encheram a sala para a receber.
Cumprimentou o maestro, que num piscar de olho a tranquilizou, como quem diz “Vamos, menina! Toque!”
Chegou ao seu lugar, sentou-se ao piano.
Poisou os dedos no marfim e soube que estava preparada.
Disse para si própria.
“Este momento foi feito para ti!”

1 comentário:

Fatyly disse...

e foi feito mesmo para ti:) Lindíssimo e até ouvi os acordes do piano:)

Beijocas e bom fim de semana