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quarta-feira, janeiro 08, 2020

Amigos surpreendentes

Sabem aquelas surpresas que a vida nos dá?
Quando os amigos de há muito tempo nos surpreendem com uma qualquer magia.
Algo que não julgamos ser possível acontece.
Talentos escondidos.
Que nos trazem novas facetas.
Já aqui há tempos partilhei um poema do JPR.
O J, no convívio diário, não deixa adivinhar este traço poético.
Hoje senti-me novamente apanhada pela possibilidade de me embalar nas suas palavras.

Não desisti de encontrar a praia da redenção pacífica,
Ou o luar que reflecte o brilho intenso dos olhos enamorados,
Não desisti de encontrar a comunhão intensa do silêncio dos amantes,
Do silêncio que tudo parece transmitir
E nada parece deixar de comunicar.
Não desisti.
Até a ultima gota de suor,
Até ao derradeiro passo que me desligue desta vida.
O amor, na sua essência, é eterno
E quem foi amado tem em si a urgência de amar.
Quem acordou de noites de sublime comunhão,
Quem abraçou o sol e a lua
E deixou-se ser abraçado
Sabe que aí, nesse ponto de encontro,
Reside a transcendência,
Não desisti.

(JPR)

quinta-feira, julho 11, 2019

9/30 - A Aparição Segundo a Memória


Sobre o livro: 

É um livro difícil de comentar sem spoilers... Mas vou tentar!
Um exercício interessante, e para alguns seguramente considerado de ousado, de colocar Deus como personagem principal, com voz própria, pensamento, e (imaginem só)  crítica.
Com a acção a decorrer na primeira metade do século XX, num mundo em conflitos cada vez mais sangrentos e abomináveis, temos um deus inicialmente interventivo, pensando em como poderá guiar a sua criação (a quem em bendita hora tomou a decisão de dar o "livre arbítrio", mas que por isso mesmo se vê impedido de uma acção mais directa e efectiva na mudança do curso dos acontecimentos), e que progressivamente se desmorona e horroriza observando impotente o rumo da sua criação.
O final não vos conto, evidentemente!
É um deus que bebe, fuma, lê romances e poesia. Que sabe que só existe enquanto existir no pensamento do Homem, numa existência simbiótica (usando um termo da biologia). E que não alimenta a ideia de uma vida eterna pós morte, essa, a eternidade, só a Ele pertence, desde que alimentado pela fé dos homens ou pela sua própria vontade.
Não será certamente um livro recomendado pela Santa Madre Igreja! (o que acho que é de todo o agrado do escritor!)


Sobre o autor:

Conheci o Alexandre (Hoffman Castela) ainda antes dos seus 10 anos de idade. O que recordo é um menino educado, algo tímido (pelo menos perante os amigos dos pais que só vê muito de vez em quando), mas que se adivinhava vivo e atento. Na curta passagem pela sala da frente da casa dos pais para educadamente cumprimentar as visitas, arrumar um ou outro brinquedo e passar a mão numa festa por um dos sempre presentes cães lá de casa, pouco mais deu para perceber.
Fui sabendo noticias nas conversas entre "adultos" de "Como estão os miúdos?".
A escola. A escolha do curso. A ida para a faculdade em Coimbra. A boémia.
E fui sendo surpreendida pelas conquistas (as poucas que me chegaram, porque serão seguramente muitas mais) deste menino que já não o é há muito - destaco a candidatura como cabeça de lista às autárquicas de Lamego pela CDU, e agora o lançamento do seu primeiro romance!


Foi um prazer ler o Alexandre!
Talvez por não o conhecer muito bem, mas ao mesmo tempo ter acompanhado a sua vida há mais de 20 anos (mesmo que de muito, muito longe) ao lê-lo a voz dele foi estando pontualmente presente, não só nos trechos em que dá voz ao escritor numa leitura exterior à narrativa central do texto, mas também num ou outro pensamento, numa ou outra construção frásica, em que as idiossincrasias se revelam. Mas muitas outras vezes o enredo envolveu-me e era "lá" que estava. (não vos digo onde porque é bem mais interessante lerem!)

Parabéns Alexandre!

Ficarei atenta a um próximo livro!

terça-feira, maio 02, 2017

Caminhando até Finisterra

... e no tempo em que a terra era plana, o mundo acabava ali!






















segunda-feira, abril 24, 2017

Here we go again!



Um passo atrás do outro por caminhos incríveis.
A partilha de momentos e a cima de tudo o estar comigo própria.
Estar longe de mais preocupações do que as imediatas.
O telemóvel que só se liga ao fim do dia.

...e como tudo o resto que tem acontecido ultimamente... decidido em cima do acontecimento.

Já falei dos caminhos incríveis?
:)

De Santiago a Finisterra.
Here we go!
(Está para muito breve)


 

quinta-feira, março 23, 2017

...porque também tu és poesia!

Hoje é o teu aniversário.
Celebro-o há 30 anos. É daquelas datas que me estão debaixo da pele. Que não precisa estar apontada em lado nenhum. Celebro-o mesmo que não na tua presença. Porque és tão importante. Porque tens em ti a minha história. Porque em ti sereno. Porque... és tu!

Milan Kundera, escreveu no seu livro, "A Identidade", que a amizade é indispensável para o bom funcionamento da memória e para a integridade do próprio eu. Chama os amigos de testemunhas do passado e diz que eles são nosso espelho, que através deles podemos nos olhar. Vai além: diz que toda amizade é uma aliança contra a adversidade, aliança sem a qual o ser humano ficaria desarmado contra seus inimigos. 

Obrigada! 
A ti!
Que me emprestas tanta força!

E termino com as palavras sábias e seculares de Cícero: "Dos amores humanos, o menos egoista, o mais puro e desinteressado é o amor da amizade"

sábado, abril 23, 2016

Os lugares a que pertenço

Hoje está lua cheia.
Senta-se numa cadeira cá fora e perde-se em pensamentos soltos enquanto olha o vale sob esta luz algo mágica, que o transporta algures para dentro de si próprio. 
Não sabe definir ao certo se o que o assalta é calma, cansaço, nostalgia, serenidade, ou será um toque de tristeza? Na verdade não lhe interessa nada definir seja o que for. 
É de alguma forma doce o que sente, e isso chega-lhe!

Há alturas em que a solidão o assalta, não é a conversa que lhe falta, são exactamente os silêncios partilhados, o demorar-se à janela dos olhos de alguém, o toque de um corpo quente, mas são raros esses dias. Volta e meia dá consigo, nos dias intensos no reboliço da cidade, a querer voltar para este seu reduto, de um silêncio escolhido, de uma paz genuína.
Hoje, sabe-se acompanhado, mesmo que sozinho com a imensidão da noite. 
É uma certeza tranquilizadora:
"As pessoas, na verdade, são os verdadeiros lugares a que pertenço"
Que coisa ambivalente esta, onde se misturam o desejo de solidão, e a certeza inequívoca que só se existe quando se mora dentro de alguem(s).

Ouve-se uma coruja ali bem perto.
Leva a mão ao lábio superior para afastar os pelos do seu bigode.
"Tenho de aparar o bigode amanhã!"
É como se mudasse repentinamente a melodia. 
Levanta-se devagar, mas decidido. 
Está na hora de dormir.




(...)
Entra a primeira luz da manhã por ele a dentro. 
Mesmo de olhos fechados, pressente o dia que acorda, como se as pálpebras falhassem a sua missão de o manter dormindo.
Demora-se embalado no canto dos pássaros que ignoram ostensivamente a sua presença.
Sim, é paz que sente!

Levanta-se, demora-se a olhar-se ao espelho, reconhece-se.
Adivinha um sorriso a espreitar no canto dos seus próprios lábios.
Bem, se calhar está na hora...
Tesoura!
Vamos tratar do bigode!


domingo, janeiro 03, 2016

Nas nuvens

Fotografia por PSMatta - 2015

E ela olhou para as nuvens e sonhou…
Até onde ousaria ir?
A que mundos? Gentes? Afectos?
Que medos ousaria enfrentar?
O que suportaria de desconhecido?
Quanta frustração aguentaria?
Quanta mudança o sistema sustentaria?

Se um dia ousar…
Vai montar uma nuvem e voar…

…e depois volta para contar!


quinta-feira, dezembro 03, 2015

Amor / Dor

Ninguém está preparado para ser mãe!
Encandeados por preconceitos transgeracionais, pela figura da mãe amantíssima, pelo presépio da família perfeita, convencemos-nos que seremos capazes! Que afinal ser mãe é cuidar e amar, porque não haveríamos de conseguir?

Ninguém nos fala das dúvidas, das inoperâncias, dos medos.
Da dor de ser mãe.
E não estamos preparadas para ela.
Só depois, ou por isso mesmo, nos transformamos em mães!

Só depois de ser mãe o óbvio se tornou real para mim.
Inevitável!
Esmagador!
Que aquela criança iria ser tremendamente amada por mim (com todas as minhas imperfeições).
E por ter perto uma amiga com uma filha com deficiência lembro-me de ter pensado: "amaria esta criança de igual modo, mesmo se deficiente profunda"
Posso parecer-vos pedante, superficial, preconceituosa, ingénua, mas na verdade nunca tinha pensado nessa hipótese. Não assim, mesmo a sério!

E não sabia Dora, que enquanto me enamorava da minha Sara, te encantavas tu com o teu Fred.
Nem sabia da tua/vossa história.
Nem da tua dor/amor

Mas sabia-te uma pessoa inteira! Sabia-te capaz! Sabia-te doce! Sabia-te inteligente! Sabia-te carinhosa! Sabia-te intensa!
E generosa!
Como contínuas a ser (ainda mais?) por partilhares os teus afectos!

Leiam por favor: Dora na Maria Capaz


(Não sei o que é ser pai. Não sei se sentem o mesmo. Simplesmente não sei!)

sexta-feira, novembro 13, 2015

Companhia Maior

Ontem assisti à estreia de Força, pela Companhia Maior.

Não tenho (infelizmente?) hábito de ir ao teatro, e por isso não estou habituada aos tempos e ritmos das gentes que pisam os palcos.
Mas também por isso me deixo encantar. 
Foi o que aconteceu.

A força de corpos (com mais de 60 anos) - que às vezes se encontra na fragilidade.
A experiência estética.
Momentos belos.

E as vozes…
E os sons…

E o rever amigos, fora e em cima do palco!




Composta por intérpretes profissionais da área do teatro, da dança e da música, a Companhia Maior tem uma particularidade: os seus artistas têm mais de 60 anos. “Há uma generosidade que é absolutamente extraordinária, que só pode acontecer numa certa idade”, explica Luísa Taveira, mentora deste projecto e directora artística da Companhia Nacional de Bailado.

Depois de ver e se deixar comover pela inglesa Company of Elders, Luísa Taveira propôs uma iniciativa semelhante para Portugal. O Centro Cultural de Belém apoiou e, em 2010, nasceu a Companhia Maior.

A Companhia Maior trabalha sempre com encenadores e coreógrafos diferentes. E conta já com grandes espectáculos no seu historial: A Bela Adormecida, encenada por Tiago Rodrigues; Maior, da coreógrafa Clara Andermatt; e Iluminações, dirigido por Mónica Calle, e outros… "Um de nós" "Estalo Novo" "A visita da velha senhora", ...



Saber mais sobre a Companhia Maior  AQUI 

domingo, julho 05, 2015

20 anos


Hoje vou ter o privilégio de me reunir para almoçar com 60 das cerca de 90/100 que fizeram o curso comigo.
Terminamos há já 20 anos.
Os anos de faculdade foram para mim muito importantes. O meu ano fantástico!
As pessoas que conheci, todo um mundo que aprendi, as portas que se abriram.
Lembro-me do fim… e agora?
Os dias de estudo terminaram, como é estar na vida sem ser estudante?

20 anos depois…
É com um sorriso enorme que me preparo para este reencontro.
Levo comigo álbuns de fotografia, memórias, mas a cima de tudo vontade de os rever!

Bem hajam!
:))))))))))))))

terça-feira, junho 16, 2015

Fly Me To The Moon



Roubado a um amigo!
:)

Fly me to the moon and
Let me play among the stars
Let me see what spring is like
On jupiter and mars
In other words, hold my hand
In other words, baby, kiss me

Fill my heart with song and
Let me sing for ever more
You are all I long for
All I worship and adore
In other words, please, be true
In other words, I love you

Fill my heart with song and
Let me sing for ever more
You are all I long for
All I worship and adore
In other words, please, be true
In other words
In other words
I, I love, I love you

terça-feira, maio 26, 2015

Eros



Conversas hoje:
(amoral - porque o amor transcende a moral)

Não há erro no amor.
O amor é um dom maior, seja em versão Paco Bandeira ou Frank Zappa.
Não podemos ser tão diferentes assim na essência.
E o amor (seja qual for) é para ser dito!
E um juízo de valor não lhe acrescenta ou tira nada.
É o que é!

E sim, a música é para ti!
;)


sexta-feira, maio 22, 2015

Banco de jardim


Há uma magia qualquer nos bancos de jardim!

sexta-feira, abril 24, 2015

quarta-feira, abril 15, 2015

Carcavelos (ou partir de repente)

(fotografia tirada ontem em Carcavelos, com os pés enterrados na areia)


Para a minha querida Paula Bemmequer :) 

"Partir de repente é bem melhor do que arrastar"

Palavras grafitadas numa qualquer parede lisboeta.

Gosto das vozes anónimas que nos interpelam aqui e ali.
Como gritos nas paredes de quem se tenta encontrar consigo mesmo.
(pronto, não sei se fosse na minha parede se ia gostar assim tanto…)

Mas às vezes as palavras pintadas fazem Eco dentro de mim.
"É melhor partir de repente do que arrastar…"
Para o próprio, sem dúvida.
Eu gostava por exemplo de morrer de repente! Sem dor, sem desgaste…
Mas e quem fica? E de repente tem de lidar com um buraco gigante, outrora ocupado pela presença de alguém que se ama, se cuida, com quem se partilha o pensamento, as pequenas coisas.

E numa relação, quem parte, faz o corte, liberta-se, escolhe!
Mas e quem fica? E de repente tem de lidar com um buraco gigante, outrora ocupado pela presença de alguém que se ama, se cuida, com quem se partilha o pensamento, as pequenas coisas.

Mas o arrastar é horrível!
É sofrimento desnecessário
É ilusão

Haja tempo para o Adeus ao menos…


quarta-feira, dezembro 03, 2014

Rir



"Tu ris-te sempre assim?"

"hum-hum"

"Que sorte!"


segunda-feira, junho 30, 2014

Sentada à janela.

Carlos Farinha
Ilustrações de Carlos Farinha - vale a pena conhecer os seus quadros!

Sentava-se muitas vezes à janela para ver o mundo para além do seu umbigo.
E a sua janela era imensa, quase do tamanho da sua imaginação (e tantas vezes tão maior que ela).

Nas alturas em que parava, e o seu pequeno mundo silenciava (porque todos os mundos são pequenos face à imensidão de mundos que se adivinham espreitando da janela), ia olhando distanciada para o colorido de pessoas - tantas! - que passavam à janela.
Volta e meia um tema prendia o seu interesse, moral, cultural, cientifico, histórico. Quanto aprendeu de si mesma obrigando-se a reflectir sobre o que a janela lhe trazia.

Mas o que realmete a prendia eram as pessoas.
Personagens em desfile, umas nem davam por ela, tão embrenhadas estavam nas suas próprias vidas e pensamentos, outras são os vizinhos de sempre que às vezes se demoram à janela para dois dedos de conversa.

E depois há os outros!
Aqueles que à força de tanto passarem começaram a sorrir e a dar os bons dias. Não são muitos, porque a janela é tão pequena vista assim do outro lado, e para tantos invisível.
"O novo inquilino" - Carlos Farinha
Esses são fascinantes.
Uma descoberta constante.
Esses outros passaram a ter existência dentro dela.
Procura-os agora quando se senta à janela. Está atenta aos seus sorrisos, alegrias, tristezas e cansaços.
Às vezes adivinha-lhes uma dor, uma saudade, um amor.
Mesmo que nada diga, dali da sua janela, retribui apenas um sorriso.
Tantas vezes, mesmo não estando à janela, lhe vem à cabeça uma ou outra coisa dessas gentes que conheceu através dela. 
Volta e meia nota a falta de alguém, que por ali não passa há tanto tempo, e tem saudades, e inquieta-se, o que aconteceu?

Depois fecha a janela.
E embrenha-se na vida que é sua! Apaixonada pelas pessoas que a habitam. Envolvida num trabalho intenso. 
Mas a saber que essas personagens da janela já fazem um bocadinho parte de si, sem saber se o pode confessar a alguém. São uma presença leve, às vezes nem dá por ela. Vão surgindo no seu pensamento a propósito de uma imagem, de uma conversa, de um exemplo, de um sonho. E genuinamente (e secretamente) deseja que estejam bem, e que passem mais logo na sua janela.

E esse pensamento parte, tão ligeiro como quando chegou.






sexta-feira, maio 30, 2014

O velho Sigesmundo

(Texto escrito em 2006 a propósito de um grupo de amigos que muito acarinho)

O velho Sigesmundo olhou pela janela.
Lá fora, um gato sentado no beiral, olha a chuva que cai. Em Viena, sem qualquer dúvida, haverá sol! Uma dor lancinante repõe-o em Londres. Como  a realidade nos rouba os sonhos, pensou! Tacteou a mesa na sala escurecida e num gesto que, pela força de ser repetido se tornou automático, leva o seu cachimbo à boca. É hoje que o acendo?
E o velho Sigesmundo olhou pela janela.
Se ao menos tivesse tempo para um último livro.
Não me restam forças... sobre o que escreveria?
Há aqueles casos sobre os quais nunca tive tempo de escrever. Lembro-me bem deles!
Doze pacientes cuja história (e patologia) me fascinou! Todos eles com uma estranha disfunção da libido que os faz encontrarem-se periodicamente e terem prazer nisso!!!! Caso estranho este de quererem ter projectos comuns. Fosse esta outra fase da minha vida e com certeza iria encontrar neles comportamentos semelhantes às famílias dos grandes símios em que os adolescentes descobrem o ambiente e se descobrem (curiosos os seus jogos sexuais - dos símios a bem ver!) no seio do grupo.
Nestes, a quem, por falta de denominação e por agora se encontrar mais adequado, chamarei de Psiconautas, a energia libidinal está soberbamente sublimada. São grandes as obras que sonham criar nas longas tardes de primavera que passam em conjunto.
As fantasias neuróticas, com alguns traços maníacos mal disfarçados, levam-nos a falar de bailes com a rainha, viagens conjuntas a países estrangeiros e até, imagine-se, a escreverem livros, que perpetuem a confraria dos Psiconautas.
Esta estranha alteração da libido de que vos falo é visível também num novo mecanismo de defesa, sobre o qual não me resta tempo de vida para teorizar, a que chamei docificação. A libido é aqui sujeita pela força do recalcamento a um desvio/deslocamento. O recalcado imerge então, com recurso à negação, numa espécie de torpor que leva o sujeito a dirigir-se à cozinha e a produzir iguarias ricas em açúcar e ovos. Este estranho mecanismo de defesa, de natureza totalmente neurótica, foi encontrado por mim em todos os psiconatas, mesmo naqueles em que a força do recalcamento é maior e em que este comportamento não se encontra com tanta frequência. Por vezes encontra-se uma variante que se caracteriza pela deslocação a uma loja do ramo para adquirir queijos e enchidos!
Este comportamento é sazonal manifestando-se quase unicamente no primeiro fim de semana da primavera.
Consta que em tais reuniões há recurso a tisanas e outras drogas duvidosas como forma de negação do prazer vivido e partilhado no consumo de tais iguarias.
E o velho Sigesmundo olha pela  janela.
IA; TM; SC; FG; ASM; PR; CN; IG; FD; LR; RM; MCP; todos eles fazem parte das suas memórias de futuro (e não é que um individuo foi roubar esta ideia e deu este titulo a um livro!?). São  o livro que ficou por escrever do velho Sigesmundo...
Hoje sou eu quem olha pela janela.


E vejo estas vidas que se continuam a escrever com a presença do velho Sigesmundo

quinta-feira, abril 10, 2014

O homem que sorri por inteiro

Ela chegou perto dele, beijou-lhe a cabeça calva, e perguntou: "posso sentar-me ao pé de ti?"
A pessoa ao lado dele estranhou o gesto... "Conhecem-se há muito tempo?"
Ele sorriu! "Não, conhecemos-nos aqui !"

O sorriso é aberto e os olhos acompanham o movimento dos lábios.
Se não soubesse teria dificuldade em atribuir-lhe uma idade. O que permanece é a presença, o pensamento, a autenticidade, a curiosidade, e a dádiva.  Mas sabe-o com mais de 7 décadas, sabe-o cansado, sente-lhe um traço triste.
Senta-se e janta com ele.
Brincando acaba por dizer-lhe. "Se te conhecesse talvez não te tivesse dado um beijo"

Advinha-lhe uma vida preenchida, com paixões, conflitos, prestígio, poder.
Mas nestes dias conheceu um homem, capaz de dar, e mais extraordinário ainda, capaz de pedir.
Conheceu-lhe o sorriso, o abraço, o cansaço.
E foi esse homem que num gesto expontâneo beijou antes de se sentar.

O que significa conhecer alguém afinal?


segunda-feira, abril 07, 2014

4 000 Km ou Quanto tempo é preciso para fazer um amigo.

Um fez uma viagem de 100 km,
Outro de 4 000.
Encontram-se por acaso, sem se procurarem.
Há aquelas pessoas com quem simplesmente é fácil conversar.
A verdade é que sem saberem por quê se procuravam em cada manhã, abriam um sorriso franco, e arranjavam uma língua comum em que fosse possível comunicar.
Descobriram-se, ao mesmo tempo que descobriram também outras pessoas. Comunicaram, redescobriram a ternura, o afecto desinteressado.
3 dias depois, partiram sem dizer adeus, cada um de volta ao seu mundo… sem saber se algum dia se verão outra vez.

...ninguém sabe como a magia acontece...