terça-feira, outubro 21, 2014

Tenho um fraquinho por ti




Otília vinha à aldeia todos os Domingos.
Passava na rua, frente ao café central, a caminho da missa.
Otilia, e a mãe… que parecia que a trazia acorrentada pois ela nem os olhos levantava.
O Tó do Lagar já me tinha falado da D. Gracinda. De como perdeu o marido num desacato lá para o Norte, coisas de saias segundo contam. O homem dela não era boa rês, meteu-se com a mulher de outro e a coisa acabou mal.
O que eu nunca percebi, e nunca ousei perguntar, foi o brilho nos olhos do Tó do Lagar sempre que fala na D. Gracinda. E já percebi que, tal como eu, ganhou o hábito de estar no café todos os Domingos para as ver passar. E por lá se demora, num cigarro e um dominó por uma hora e meia, para as ver passar de volta.
Tenho para mim, que se não estivesse de candeias às avessas com o Pe Manuel, que até à missa ia só para a ver de longe.
Mas não lhe digo nada, nem ele a mim.
Cúmplices neste hábito domingueiro a que nenhum falha.
Houve um dia, um Domingo quente de Julho, em que a Otilia trazia, por descuido certamente, um botão aberto da blusa branca, a deixar ver a pele alva do seio oculto. Que tumulto no meu baixo ventre!
E num Domingo ventoso, dos finais de Fevereiro, que o vento lhe levantou as saias e me deixou ver as pernas quase, quase até lá a cima.
Estas, e outras, lembranças inquietam-me quando estou sozinho, e são uma companhia tão doce nas minhas noites.

Está quase na hora de elas passarem.
Olho o mais discretamente que posso para a curva da praça, num desassossego difícil de esconder.
Parece que se demoram mais hoje.
Mas surgem, passo apertado que o Pe Manuel não é benevolente com atrasos.
E quando passam a Otília (de propósito?) deixa cair o envelope da congrua, e baixa-se num movimento que vou recordar em câmara lenta para todo o sempre. Os seios que se retesam contra o tecido, o decote que descai apenas uns centímetros, a saia que sobe ligeiramente acima do joelho, e os olhos dela que se fixam nos meus por uns eternos segundos.

Ai Otilia, se eu tivesse coragem… !




3 comentários:

Francis disse...

Acho que fiquei com um fraquinho pela Otilia. Gosto de mulheres ousadas. :)

Ana Ricardo disse...

Giro, giro! Gostei :)

Fatyly disse...

A música é uma delícia...e mais deliciosa esta tua história que me encantou. Obrigado!

Beijocas