sábado, setembro 30, 2017

30 de Setembro

Há datas estranhas que parecem não fazer parte do calendário.
Momentos disruptivos em que a nossa história teve algo de inexplicável e inabarcável.
Não que a ciência (qualquer uma delas) não tenha uma leitura exacta sobre os factos. É na nossa cabeça que não cabe a experiência. Não temos como integra-la, normaliza-la, torná-la manuseavél.
Hoje é dia de um desses aniversários.
Um ano
À força do dever fomos (fui eu puxando a ponta da meada) aqui e ali falando do inominável.
Sem quase tocar a angústia tremenda que na altura me (nos) esmagou.
A tênue linha entre o ser e o não existir.
A omnipotência protectora que nos inventa eternos derrotada sem clemência.

Mas estou aqui hoje.
Num ano que ganhei como se ganhasse a lotaria, de tão imprevisível e aleatório ser o nosso estar ou não estar.
Quero estar muitos mais.
Viver, sentir, tocar, amar, sofrer, pensar, ... e conversar, aprender, partilhar, ...

Tenho futuro!
Por muito efêmero que tenha aprendido que é o "futuro".

quarta-feira, setembro 27, 2017

Os poetas escondidos e a declamação de poesia

Embora conheça o JPR há alguns anos, só o descobri há poucos, numa daquelas ocasiões felizes em que longe de casa e na companhia de bons copos se fala, noite dentro, de meninices, de amores, encantos, em que na penumbra se vê para além da armadura. 

Recentemente surpreendeu-me mais uma vez.
Um Mail.
Com um registo sonoro.
E um poema dele declamado.
O JPR poeta!

Do poema gostei!
Surgiu como mais uma noite de copos, de partilhas, e descobertas.
Uma porta de entrada para um mundo mais íntimo. Para afectos e sentires.

Mas não gosto muito de poesia declamada (a não ser que o seja feito com uma raríssima excelência)
Partilho agora aqui o que partilhei com ele a propósito disso: 

"Sabes, ler para mim é um percurso muito interno.
Cada leitor empresta ao texto algo seu, e transforma dentro de si as palavras e intenções do escritor/poeta.
Por isso acho que partilhar, publicar, um texto é um acto de coragem. É prescindir de algo que nasceu nas vísceras e permitir que outro o mastigue, redescubra, reinvente.
Prefiro ler no meu silêncio. E emprestar à palavra escrita o meu ritmo, a minha entoação, a minha emoção, a minha leitura.
É muito raro gostar de ouvir dizer um poema. Prefiro a minha voz interna."


Serei só eu a ter esta resistência a prescindir da minha própria leitura?

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ADENDA
(Obrigada JPR por enriqueceres o meu post!)


VERTIGEM

Detenho-me no declive vertiginoso da escarpa,
é uma vertigem,
uma força que me impele a sobreviver
no lapso final do instante.

Ao longe, na idade da velhice,
falam-me de paraísos,
dizem que os astros brindam
ao triunfo laborioso do amor.

Sempre exististe em mim,
e eu ainda não te descobri,
ou descobri-te no fulcro da fatídica cegueira.


João Paulo Ribeiro


segunda-feira, setembro 18, 2017

Love is evil



Amor é...

O desequilibro cósmico
Algo particular surge 
Um desiquilibro
Um erro
...assumir o erro e ir até ao fim
Um, acto extremamente violento

Não ao amor universal
A realidade não tem sentido nem propósito

Escolhemos uma partícula infima que nos desequilibra
E amamos...


sábado, setembro 16, 2017

E das uvas se faz vinho

Ainda o sol está baixo e começam os sons.
As vozes dos homens a preparar a jorna.
Tesouras, baldes, preparar os lagares.

Nos socalcos as folhas das videiras começam já a ganhar a cor rubi que anuncia que chega ao fim mais um ciclo.
As uvas, fruto nobre, esperam a mão que as apanha.
Os homens e mulheres, em conversa animada, seguem cepa a cepa, bardo a bardo, socalco a socalco, contam histórias de outras vindimas, repetem rituais, inventam novos, lançam aqui e ali uma piada mais atrevida, enganam assim o tempo e as costas dobradas e evitam olhar para cima para saber o quanto falta.
"Balde!" - ouve-se de quando em vez e lá aparece alguém que troca um balde cheio por um balde por encher.
Desde manhãzinha alguém brinca dizendo amiúde "está quase!"

E entre risos, comendo aqui e ali umas uvas para matar a sede e a fome, vai-se subindo a encosta. 

Mais tarde, prensada a uva, os pés descalços entram no lagar para proceder à pisa. 
Mais uma vez são os risos que imperam. Há todos os anos alguém que entra pela primeira vez no lagar, e pela primeira vez sente na pele o esmagar da uva, o calor que emana, a textura  que envolve as pernas.
Alguém pega numa gaita de beiços e entoa uma música, batem-se as palmas a acompanhar, enquanto com os pés se dá cor ao vinho.

O trabalho árduo fica amenizado pelo encontro da família e amigos. 
As dores nas costas, os arranhões nas mãos feitos na apanha de um ou outro cacho mais entrelaçado nos arames e nos troncos, ficarão para amanhã.

Hoje do trabalho faz-se festa!

Foto da menina (filha) Boop


sábado, setembro 09, 2017

No aeroporto

Pronto
Outra vez no aeroporto
Outra vez sem ser eu a viajar
...
Muito viaja a minha gente!

Mas há sempre um quê de coisas boas por aqui!
:)

quinta-feira, setembro 07, 2017

Livros no jardim

Há tanto tempo não fazia isto!
Ler um livro nos jardins da Gulbenkian.
Sabe bem!
:)

E como leio sempre vários ao mesmo tempo (tenho um em cada sitio) hoje estou com Hector Abad Faciolince "Oculta"



quarta-feira, setembro 06, 2017

Novas leituras

"O ministério da felicidade suprema" - Arundhati Roy

domingo, setembro 03, 2017

Quando eu morrer



Não gosto de flores.
Não gosto de flores em arranjos.
Não gosto de flores em arranjos fúnebres.

São coisas belas que morrem ali presas enlaçadas, amarradas. Cingidas num espaço exíguo que contraria a sua natureza expontânea, desalinhada. Murcham pouco a pouco... Perdem o brilho... O fulgor... 

Não gosto de flores nas jarras, nos arranjos, nos arranjos fúnebres.

Quando eu morrer...
Quando eu morrer não me levem flores! Levem-me poesia! 
Escrevam num papel os afectos
Peçam, se quiserem, palavras emprestadas a um poeta, a uma canção.
Façam-me um desenho.
Escrevam "gosto de ti" ou "nunca vou esquecer aquele dia em que..." ou "eras tão irritante quando..."
Depositem no caixão papéis com a vossa caligrafia, ou com a tinta da vossa impressora.
Gosto de palavras!
E do cheiro do papel.

Deixem que os meus filhos recolham depois os papéis que se foram juntando "no meu colo", e que assim levem com eles partes de mim que se calhar nunca tive oportunidade de lhes mostrar.
Será tão mais colorida a despedida.

Quando eu morrer troquem as flores por palavras. Digam-me coisas como se vos pudesse ouvir mais uma última vez.
E falem uns com os outros. Contem histórias, de um passado comigo, e de um futuro sem mim.

Quando eu morrer não quero flores.

PS - não gosto particularmente desta música, mas é mais ou menos isto