sexta-feira, maio 30, 2014

O velho Sigesmundo

(Texto escrito em 2006 a propósito de um grupo de amigos que muito acarinho)

O velho Sigesmundo olhou pela janela.
Lá fora, um gato sentado no beiral, olha a chuva que cai. Em Viena, sem qualquer dúvida, haverá sol! Uma dor lancinante repõe-o em Londres. Como  a realidade nos rouba os sonhos, pensou! Tacteou a mesa na sala escurecida e num gesto que, pela força de ser repetido se tornou automático, leva o seu cachimbo à boca. É hoje que o acendo?
E o velho Sigesmundo olhou pela janela.
Se ao menos tivesse tempo para um último livro.
Não me restam forças... sobre o que escreveria?
Há aqueles casos sobre os quais nunca tive tempo de escrever. Lembro-me bem deles!
Doze pacientes cuja história (e patologia) me fascinou! Todos eles com uma estranha disfunção da libido que os faz encontrarem-se periodicamente e terem prazer nisso!!!! Caso estranho este de quererem ter projectos comuns. Fosse esta outra fase da minha vida e com certeza iria encontrar neles comportamentos semelhantes às famílias dos grandes símios em que os adolescentes descobrem o ambiente e se descobrem (curiosos os seus jogos sexuais - dos símios a bem ver!) no seio do grupo.
Nestes, a quem, por falta de denominação e por agora se encontrar mais adequado, chamarei de Psiconautas, a energia libidinal está soberbamente sublimada. São grandes as obras que sonham criar nas longas tardes de primavera que passam em conjunto.
As fantasias neuróticas, com alguns traços maníacos mal disfarçados, levam-nos a falar de bailes com a rainha, viagens conjuntas a países estrangeiros e até, imagine-se, a escreverem livros, que perpetuem a confraria dos Psiconautas.
Esta estranha alteração da libido de que vos falo é visível também num novo mecanismo de defesa, sobre o qual não me resta tempo de vida para teorizar, a que chamei docificação. A libido é aqui sujeita pela força do recalcamento a um desvio/deslocamento. O recalcado imerge então, com recurso à negação, numa espécie de torpor que leva o sujeito a dirigir-se à cozinha e a produzir iguarias ricas em açúcar e ovos. Este estranho mecanismo de defesa, de natureza totalmente neurótica, foi encontrado por mim em todos os psiconatas, mesmo naqueles em que a força do recalcamento é maior e em que este comportamento não se encontra com tanta frequência. Por vezes encontra-se uma variante que se caracteriza pela deslocação a uma loja do ramo para adquirir queijos e enchidos!
Este comportamento é sazonal manifestando-se quase unicamente no primeiro fim de semana da primavera.
Consta que em tais reuniões há recurso a tisanas e outras drogas duvidosas como forma de negação do prazer vivido e partilhado no consumo de tais iguarias.
E o velho Sigesmundo olha pela  janela.
IA; TM; SC; FG; ASM; PR; CN; IG; FD; LR; RM; MCP; todos eles fazem parte das suas memórias de futuro (e não é que um individuo foi roubar esta ideia e deu este titulo a um livro!?). São  o livro que ficou por escrever do velho Sigesmundo...
Hoje sou eu quem olha pela janela.


E vejo estas vidas que se continuam a escrever com a presença do velho Sigesmundo

quarta-feira, maio 28, 2014

(parêntesis) ou Baloiço!

Não sabem vocês o que me custou recuperar esta imagem!
Perdida no espaço i-imenso.
Foi como muitos se lembram (ou não) a minha imagem de perfil durante muito tempo.
Só consegui dar com ela numa das vossas caixas de comentários de há muito tempo!

Escrever aqui é como andar de baloiço!
Um prazer!

segunda-feira, maio 26, 2014

Eis o que me foi roubado!!!!

…pela descendência…


sábado, maio 24, 2014

Nota autobiográfica - ou os Psis na vida de uma Psi

A Boop teve a sua dose de psis.
Mas na verdade, dos primeiros, mal deu por eles!

O primeiro de traços já muito diluídos na memória, passou por ela aos 5 anos, recorda um senhor mais velho (na verdade não teria mais de 35/40 anos, mas ao olhar de uma criança…) redondinho, algo careca - objectivo: avaliar a hipótese de entrar com 5 anos para a escola primária. E lá fui!

O que me fez estar com 13 anos no 9º ano a fazer exames psicotécnicos - Psi nº 2!
Desta psicologa cujo nome não me recordo, guardo dois momentos: o primeiro o ter sido, em conversa com ela, a primeira vez que se me pôs a hipótese de seguir psicologia. (bem haja!)
O segundo.. Bem o segundo ficou-me atravessado estes anos todos! (não que me tenha dado muitas dores de cabeça!) - o desenho da família!
Instrumento diagnóstico vastamente utilizado serviu também ali esse propósito.
E esse desenho de então volta e meia vem-me à cabeça. É que não desenhei uma família! Desenhei uma pessoa sozinha, um jovem, sentado debaixo de uma árvore a ler um livro. A Psi perguntou-me se não tinha tido tempo de acabar. Anuí com um sorriso tímido, mas na verdade não ia desenhar mais ninguém!

E desde então, quando se fala em desenho da família, tenho o meu desenho bem presente. Não me recordo de nenhum outro desenho meu, deste lembro-me na perfeição.
Já tive tempo, e oportunidade ao longo dos anos que me separam dos meus 13, para entender esse meu desenho.Os psis que tive depois, já adulta, num processo de auto-conhecimento e formação, ajudaram-me a entender-me e a crescer. Mas este desenho, ainda me assalta a memória de vez em quando -  queria muda-lo!

Este fim-de-semana decorre o congresso da Sociedade Portuguesa de Psicanálise " Psicanálise e Família num mundo em mudança".
E perante comunicações menos aliciantes (que as há em todos os congressos) revisitei esse me desenho.
Comecei pela árvore , a mesma de há 28 anos. E reconstruí a cena. Desta vez com a "minha família de agora" - pais, dois filhos.
Mas o desenho estava errado / incompleto. Não era esta família que precisava de re-desenhar! Era a minha - a de origem. Faltava ainda um filho! - pronto! Desenha-se mais um!

Também este desenho daria aso a várias interpretações!
Mas prefiro-o ao outro!
Talvez se arrume num canto da minha memória,  e que o evoque quando aqui e alí ouvir falar no "desenho da família".




segunda-feira, maio 19, 2014

Dia de Exame

Luísa não dormiu bem esta noite.
Teve um sono inquieto, de sonhos fugazes, que a levaram ao pós 25 de Abril, ao inicio de tudo, ou de tanto….
Dirige a escola há tanto tempo já. Às vezes sente um cansaço enorme. Sonhou e lutou por um ensino diferente. Ama a descoberta, o encanto, a natureza curiosa das crianças, o fascínio pela arte, a filosofia, a matemática, a magia das letras e das histórias.
Mas sente-se quartada.
Quando foi que se viu obrigada a comprometer a sua ideologia de educação pelas pressões de directrizes ministeriais?  Como aconteceu ser ela própria a procurar a classificação da sua escola nos famosos rankings? Porque vivem os pais obcecados com "a nota"?
Ela sabe… quem está a ser avaliada hoje é ela. São as suas escolhas. É o seu método. A sua escola, e a sua Escola. Não são as crianças.
Por isso sai cedo de casa!
Ainda tem tempo, decide ir a pé.
Demora-se a deixar-se encantar pela luminosidade da sua Lisboa. Reencontra a sua paz no reafirmar para si própria que se tem fé em alguma coisa é na forma como pensa a Educação.

Pouco a pouco os traços de angústia desta noite mal dormida vão-se apaziguando, e quando passa o portão da escola está serena. Sorri quando lhe vem à cabeça Camões "Vai fermosa e não segura…", e é com este sorriso, de quem se sabe menina e mulher, que encontra os alunos que vão hoje prestar provas.


(desenho incompleto da menina Boop, 10 anos,  em véspera do seu primeiro exame)

domingo, maio 11, 2014

A casa na árvore

Tinham o hábito, nas noites quentes de lua nova, de se deitarem no terraço da casa algarvia.
Ali pai e filha, perdiam a noção do tempo, brincando com as constelações, e pedindo desejos às estrelas que riscavam o céu no seu derradeiro deslumbre.

Tinham um segredo os dois. Do qual nunca falavam porque é sabido que os desejos revelados nunca serão realizados.
Cumplicidade de há muito, nascida das histórias contadas ao adormecer, daquelas que convidam a sonhos, semeando esperança e abrindo janelas para mundos por descobrir.

Um dia vão encontrar uma casa na árvore, construída sobre sólidos troncos, bem alta no meio de um bosque como o dos contos de fadas. Vão adormecer com o piar dos mochos, e embalados pelo som do vento que fará cantar as folhas das árvores. E de manhã serão banhados pelos primeiros raios de sol, num jogo fresco de luz e sombra, e descobrir os sons do bosque nesse momento único em que a vida renasce.

Ela tem a certeza que esse dia virá! Resta saber se com o Pai, ou se como um sonho partilhado à cabeceira de um filho seu num dia em que for mãe.


(fotografia de la cabane en L'air  - hotel em França)

terça-feira, maio 06, 2014

Mécia

Mécia chegou agora a casa, com gestos não pensados veste os calções, t-shirt e calça os ténis. Gestos fáceis que enganam a dor de decisões difíceis.
Pensamentos e emoções atropelam-se, dispares, perniciosos, severos ou permissivos.
Vai para a rua.
Os pés pisam o alcatrão - correr: ritmo certo, cadencia, pulsação acelerada.
Os pensamentos como que se arrumam quando o corpo é rei - musculo, respiração, embate.
E pouco a pouco aceita a sua tempestade.
Redescobre-se na intensidade dos afectos. Deixa-se envolver pela cor, o timbre, a temperatura destes dias tumultuosos.
De peito aberto prepara-se para o embate. Teme e deseja este novo tempo intenso que se aproxima.
Agora…
Os pés pisam o alcatrão!
Músculo!
Respiração!
Embate!



Fotografia de Alex Chebotar - www.alexchebotar.com