quarta-feira, outubro 22, 2014

Ai Otília !




Nesse Domingo o Tó do Lagar não apareceu.
Coisa estranha!
Sentei-me na mesa do canto com uma sensação ruim nas entranhas.
A hora da missa passou e da Otília nem sinal.
Esperei até ao fim da misssa não fosse ela ter entrado antes…
Fiquei desolado! Não tinha ainda concebido a sua ausência. A Otília era "minha" aos Domingos, e isso quase me bastava…
Podia quebrar o pacto silencioso e ir procurar o Tó do Lagar… mas não consigo! Vou dizer o quê? Que a amo?
Nunca tinha formulado esse pensamento.
A ausencia dela perturbou-me mais do que qualquer vislumbre do peito dela.

Decidi ir dar uma volta.
Dei por mim a sair da aldeia, sem pensar, preenchido apenas pela falta dela!
Não sei quanto tempo andei. O sol do meio dia aquecia e fui beber água a um poço do caminho.
Bebi, molhei os cabelos com o resto da água.
Que nó na cabeça, que impotência.
Entrei no celeiro e deitei-me a olhar o vazio.
Fui sobressaltado pelo ranger da porta e uma luz intensa que não me deixava ver quem entrava.
O coração disparou.
O recorte do corpo dela contra a luz.
Otília!

Levantei-me num salto
Ela aproximou-se ligeira, como se tivesse medo de perder a coragem,
Disse o meu nome "Francisco"
Pegou no meu rosto com as mãos, e colou a boca dela à minha.
E o corpo dela ao meu…
E a minha história fez-se ali!
(Que o amor não se conta….)

Ficámos alí tempos perdidos
Nos braços um do outro como se não quiséssemos largar-nos nunca
Foi então que ela me contou que a D Gracinda tinha partido de madrugada com o Tó do Lagar.
Tinha dito que merecia viver com amor e que na aldeia isso jamais seria possível.
Que tinha querido levar a Otília, mas que ela disse:
"Mãe, também eu vou procurar o amor!"


terça-feira, outubro 21, 2014

Tenho um fraquinho por ti




Otília vinha à aldeia todos os Domingos.
Passava na rua, frente ao café central, a caminho da missa.
Otilia, e a mãe… que parecia que a trazia acorrentada pois ela nem os olhos levantava.
O Tó do Lagar já me tinha falado da D. Gracinda. De como perdeu o marido num desacato lá para o Norte, coisas de saias segundo contam. O homem dela não era boa rês, meteu-se com a mulher de outro e a coisa acabou mal.
O que eu nunca percebi, e nunca ousei perguntar, foi o brilho nos olhos do Tó do Lagar sempre que fala na D. Gracinda. E já percebi que, tal como eu, ganhou o hábito de estar no café todos os Domingos para as ver passar. E por lá se demora, num cigarro e um dominó por uma hora e meia, para as ver passar de volta.
Tenho para mim, que se não estivesse de candeias às avessas com o Pe Manuel, que até à missa ia só para a ver de longe.
Mas não lhe digo nada, nem ele a mim.
Cúmplices neste hábito domingueiro a que nenhum falha.
Houve um dia, um Domingo quente de Julho, em que a Otilia trazia, por descuido certamente, um botão aberto da blusa branca, a deixar ver a pele alva do seio oculto. Que tumulto no meu baixo ventre!
E num Domingo ventoso, dos finais de Fevereiro, que o vento lhe levantou as saias e me deixou ver as pernas quase, quase até lá a cima.
Estas, e outras, lembranças inquietam-me quando estou sozinho, e são uma companhia tão doce nas minhas noites.

Está quase na hora de elas passarem.
Olho o mais discretamente que posso para a curva da praça, num desassossego difícil de esconder.
Parece que se demoram mais hoje.
Mas surgem, passo apertado que o Pe Manuel não é benevolente com atrasos.
E quando passam a Otília (de propósito?) deixa cair o envelope da congrua, e baixa-se num movimento que vou recordar em câmara lenta para todo o sempre. Os seios que se retesam contra o tecido, o decote que descai apenas uns centímetros, a saia que sobe ligeiramente acima do joelho, e os olhos dela que se fixam nos meus por uns eternos segundos.

Ai Otilia, se eu tivesse coragem… !




sexta-feira, outubro 17, 2014

Malakal

Na página da ONU/Brasil
Chamam ao seu país, um país encravado.
Diz que é uma questão de geografia, que há lá longe um mar que nunca viu.
O seu país… o seu país é feito de terra, de sol, de chuvas.
É feito do calor que se sente na pele, do sol que queima. É feito do cheiro da terra e das gentes.

E é feito de guerra.

Não sabe dos seus irmãos. Uns foram embora para o Quénia, outros estão no SPLA/M, não sabe nada deles. 

Está aqui… Malakal.
O cheiro aqui é diferente.
Tão diferente do cheiro da quando era menina e brincava nas poças da água na época das chuvas, e a mãe lhe entrançava o cabelo.
Aqui cheira a podre, a urina, a merda.
Aqui não se fala de morte mas ela entra-nos pelas narinas.
Aqui estão os desenraizados, deslocados, e os desmembrados. 

Mas vai sair daqui!
Vai viver num Sudão livre de conflito. 
A vida não vai acabar aqui!


___________________"__________________


Wikipédia: O Sudão do Sul, também chamado de Novo Sudão, possui quase todos os seus orgãos administrativos em Juba, a capital, que é também a maior cidade, considerando a população estimada. Apesar de ser rico em petróleo, o Sudão do Sul é um dos países mais pobres do mundo, com altas taxas de mortalidade infantil, e um sistema de saúde muito precário, considerado um dos piores do mundo. em termos de educação somente 27 % da população acima dos 15 anos sabe ler e escrever, chegando a 84‰ o índice de anafabetismo entre as mulheres e boa parte das crianças não frequenta unidades escolares.


quarta-feira, outubro 15, 2014

Quem me dá boleia hoje?


(ou as vantagens de viver num sitio onde se conhece meio mundo)




1996/7
(22/23 anos)

Saía a menina Boop de casa todos os dias de manhã, 7h55…
Destino - Paragem do autocarro - nº13 para o Marquês de Pombal.
Acontece que quase nunca ia de autocarro de manhã!
Invariavelmente O X, o Y ou o Z, me davam boleia.
Todos eles pais de amigos meus, e elementos activos na comunidade da Vila, o que nos levava a estarmos juntos várias vezes no exercício da nossa cidadania.
Era para mim tão divertido e surpreendente ter acesso ao seu mundo. Os primeiros 45 - 50 mn do dia dizem-nos muito sobre uma pessoa, não acham? (eu que o diga que só acordo passado uma hora….)
Quem eu gostava mais que me desse boleia era o Y,  a conversa era mais fácil, mas também a boleia mais rara.
Depois havia o Z, óptima companhia matinal, com o bónus de às vezes levar também a filha. Igual a ele próprio, às vezes mais mal humorado, outras mais bem disposto, aproveitava a minha companhia para o inicio do dia ser menos monótono. O Z dividia quase 50/50 o numero de boleias com o X.

O X, sim, era uma revelação.
Homem mais reservado, sério até, que ponderava sempre as suas intervenções numa conversa, que eu tinha como o mais conservador dos três.
As manhãs foram uma surpresa!
Era sem dúvida o mais activo e enérgico! Sorriso franco, RR na ar - o programa do António Sala! E o homem cantava, brincava, respondia aos desafios, comentava as noticias. Uma disposição matinal como poucas!

E não sei bem porquê tenho-me lembrado destas viagens de manhã.
Das coisas boas da vida de bairro e dos lugares pequenos. Do sentimento de pertença à comunidade. Do envolvimento possível pelo bem comum.

Volta e meia encontro o X, o Y e o Z
Muito, muito mais raramente.
Mas gosto deles! É sempre um prazer revê-los!


sexta-feira, outubro 03, 2014

Vindima



Carro cheio.
Cheio de alegria, crianças, amigos.
A caminho do Douro.

Programa para o fim de semana:
Algum trabalho…
Excelente almoço
E merecido descanso!