quinta-feira, janeiro 29, 2015

D'oiro (?)

Sabe? - dizia-me ela - eu entendo o silêncio dele.
Não lhe sei explicar bem... Aquele homem teve de mim uma verdade quase crua, não sei se límpida.
Se calhar por saber que nunca seria meu, não senti necessidade alguma de me apresentar diferente do que sou no meu mais íntimo.

Não me mascarei. Não fiz de conta que gostava de nada. Não tive medo de lhe mostrar o que pensava. Não tive medo que não gostasse de mim.
Percebe? Não lhe escondi nada! Não era preciso.
Não tinha nada a perder.

Estava segura de mim, serena, não tive medo!
Acho que pela primeira vez não tive medo!
Não me sabia capaz de mostrar a alguém tanta verdade.
E assim, o homem que nunca seria meu, teve-me mais do que qualquer outro.

E sabe? Eu percebi, não me pergunte como, que podia saltar, mesmo sem rede, mesmo que para o desconhecido, simplesmente podia!

Podem os nossos mundos ser tão diferentes assim? Diga-me! Podem?
Posso estar enganada na forma como vejo isto tudo?

E, ridículo.... acho eu que o conheço também...
E que sei ler o seu silêncio.
E por isso não me dói que se cale
Também ele sabia que eu nunca seria dele.
Mas não consigo conceber que tanta verdade seja mal interpretada, acha que estou a ser ingênua?
Acredita?
Que as pessoas conseguem comunicar assim? Sem palavras? Sem se olharem?

Sei que lhe dei a minha verdade.
E por isso ganhei tanto.
Acha que ele percebeu? Que me deu tanto?

Fiquei preenchida. É por isso que não me dói o seu silêncio?





quarta-feira, janeiro 28, 2015

Vai formosa e não segura

O  momento para que tinha trabalhado anos a fio chegara!
Respirou fundo e entrou no teatro.
Por momento quis ser pequenina, tirar os sapatos e sentir na planta dos pés o toque da alcatifa carmim, e esquecer-se assim do que a trazia ali.
Foi chamada à realidade pela orquestra em afinações. Ouvia-se o toque de vários instrumentos naquele desarranjo melódico de sons descompassados que pareciam ecoar a sua própria turbulência.
Ainda tinha algum tempo.
Enquanto reproduzia a música na sua cabeça nota a nota, procurou dentro de si os pensamentos que a ajudavam a serenar. O seu preferido, e mais eficaz, era a memória do toque da camisola de caxemira que o pai usara no dia do casamento do tio Fernando. Devia tê-la usado mais vezes, mas guardou para sempre o momento em que lhe pediu colo e se aninhou nos seus braços de caxemira azul. O Azul. O Azul também a acalmava.
Está na hora.
Em passos falsamente seguros pisou o palco.
Lembrou-se de sorrir quando as palmas encheram a sala para a receber.
Cumprimentou o maestro, que num piscar de olho a tranquilizou, como quem diz “Vamos, menina! Toque!”
Chegou ao seu lugar, sentou-se ao piano.
Poisou os dedos no marfim e soube que estava preparada.
Disse para si própria.
“Este momento foi feito para ti!”

domingo, janeiro 25, 2015

O amor é um circo de feras




O café da aldeia continuava a ser frequentado pelo Francisco.
Mas não ao Domingo.
A Otilia tinha deixado de ir à missa, o Pe Manuel não se coadunava com modernices, e tinha a opinião que os dois viviam em pecado.
Mas é uma terra de gente pacífica. e nos silêncios das tardes quentes, todos partilhavam aquelas coisas de que ninguém falava. Que é o amor faz a vida valer a pena, que o prazer e a dor são duas faces da mesma moeda, e que quem não arrisca amar e sofrer, vive esta vida apenas pela metade.
E por isso olhavam para o Pe Manuel com alguma compaixão. Pobre homem nunca ia saber do prazer de amar uma mulher, nunca ia saber que as conversas dos homens sobre as mulheres são puros exercícios de camaradagem, e que o verdadeiro gozo está no silêncio dos abraços e do calor de nunca se saber só.
Pouco a pouco a ausência do Tó do Lagar tinha deixado de se fazer notar. Sabia-se que os terrenos, as oliveiras e os lagares estavam abandonados, mas a verdade é que ninguém se chegava perto. Corria o rumor que eram de um homem que tinha ido atrás do amor. Talvez voltasse!
O Francisco voltava ao café.
Sentava-se na mesa da esplanada e às vezes dava consigo a pensar, que tinha a impressão de que nunca tinha feito nada que batesse certo, que nunca tinha dado um passo que fosse o correcto, mas tinha acertado no amor, e nunca tinha querido tanto a ninguém!

Episodio 1     Episódio 2     Episódio 3

terça-feira, janeiro 20, 2015

Pequeno embrulho

Há, no apartamento da Almirante Reis, uma sala pequena que é a sua preferida. A tia Isabel Maria tinha feito daquela divisão sem janelas um quarto de vestir e lá mandado instalar um cadeirão de orelhas, agora já gasto e roçado. Os grandes guarda-fatos, escuros e imponentes, tinham perdido o encanto de outros tempos e enchiam-se agora das coisas que a ninguém faziam falta.
Vezes sem conta se refugiou naquele recanto que parecia ter sido esquecido por todos os outros. estranhamente ninguém aparecia por lá, nunca! Nem mesmo quando a procuravam a ela, e se punham a chamar " Conceição! Conceição! Onde é que aquela miúda se terá metido? Conceição?!" Nada! Parecia que se recusavam a reconhecer aquele quarto como parte integrante da casa.
Era por isso o melhor lugar de todos!
Foi por baixo da almofada do cadeirão que enquanto menina escondeu o seu diário, foi ali que sonhou e chorou todos os amores da sua vida, ali viajou por páginas de mil livros devorados à luz pálida da lâmpada do velho candeeiro. Escreveu cartas, estudou compêndios, fez-se e reinventou-se.
O pequeno embrulho que trazia nas mãos esperava a luz tépida daquela sala para ser aberto. Era como que um ritual, os tesouros que a vida lhe trazia tinham outro sabor ali. É sabido que os tesouros são as coisas pequenas, secretas, que são únicas para cada um. Idiossincrasias inexplicáveis. Nas suas mãos estava o amor. Ideia aparentemente disparatada e ridícula, mas não tinha outras palavras para o dizer. Tinha nas mãos o amor. O amor sob a forma de música, temas escolhidos só para ela. Numa sequência impartilhavel, irrepetivel.
Sentou-se confortavelmente no cadeirão, fechou os olhos, e ficou a ouvir o amor.

domingo, janeiro 04, 2015

Noticias da Otília




Episódio 1
Episódio 2

Acontecia às vezes a Otilia chorar.
Chorava porque a emoção não lhe cabia no peito.
Não era tristeza, não!
Era o mundo que não lhe cabia dentro.
Às vezes olhava o Francisco, sem ele reparar.
A linha dos seus lábios, a barba cujo toque conhecia tão bem, os olhos em que se perdia vezes sem fim, as mãos, de longos dedos capazes de um carinho que ninguém adivinhava.
Olhava-o!
Até ele se apanhar preso nesse olhar, e lhe descobrir os olhos túrgidos.
Minha Otília!
Nesses instantes fugazes o mundo era maior do que eles, um medo, um requebrar, de quem não tem palavras para nomear os afetos. O que é isto que sentimos?
O Francisco não nasceu pedra, nasceu rapaz, um homem só não chora por não ser capaz.
A Otilia sabia sem saber.
Que ela é chuva e ele é fogo.
Que ela o ia ensinar a chorar
E ele a ia ensinar a queimar.