sexta-feira, julho 29, 2016

O Grilo

(Para os que mostraram interesse no dito grilo)



E lá foi à sua vida!
Conheceu o cativeiro num passeio pela adega (que fazia um grilo numa adega afinal?!?!).
Viajou 350 km até lisboa...
E veio parar a casa aqui da Boop...
Prenda de anos do catraio...
Condição (minha): liberta-lo
Depois de cumprir parte da sua pena de prisão no departamento educativo (escola do catraio), seguiu em visita  de estudo, que é como quem diz foi de férias com os putos, até barrancos.
Onde numa cerimónia de libertação foi literalmente lançado em voo para os campos alentejanos.
(Tenho para mim que já ninguém o suportava que o bicho cantava alto como o catano!!!)

Assim terminou a epopeia conhecida do pobre bicho
De Lamego a Barrancos, 650 km depois, um novo mundo para descobrir. Sem alface, nem gaiolas, nem crianças, nem armários...!

segunda-feira, julho 25, 2016

Florbela

Se Tu Viesses Ver-me...


Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços, 
Quando a noite de manso se avizinha, 
E me prendesses toda nos teus braços... 

Quando me lembra: esse sabor que tinha 
A tua boca... o eco dos teus passos... 
O teu riso de fonte... os teus abraços... 
Os teus beijos... a tua mão na minha... 

Se tu viesses quando, linda e louca, 
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo 
E é de seda vermelha e canta e ri 

E é como um cravo ao sol a minha boca... 
Quando os olhos se me cerram de desejo... 
E os meus braços se estendem para ti... 

Florbela Espanca, in "Charneca em Flor" 

quarta-feira, julho 20, 2016

Amar-te na tempestade

Carlos Farinha   Piano Alto   2016 

Às vezes dentro dela sopravam ventos atrozes.
Vagas de afectos, assolavam-na impiedosas, sem aviso nem previsão.
E como se de artes negras se tratasse, a luz do sol sumia-se, não a deixando ver para além de si. E a magia escapava-se-lhe por entre os dedos das mãos.
Nessas alturas valia-se da única defesa que tinha - as palavras.
Nem sempre úteis as palavras...
Quem disse que as palavras são fieis amigas que nos permitem exorcizar fantasmas, ou traduzir o que por dentro se passa?
Não valem nada as palavras sem o gesto, o tom, o olhar.
São estéreis e tendenciosas. Impregnadas de pré-conceitos e sujeitas a leituras idiossincráticas!
São só palavras.

Percebeu (ensinou-lhe ele) que para se amar na tempestade era precisa a música. Que na música as palavras se reinventam, que se lê o intervalo entre elas, que às vezes, para sua grande surpresa, nem eram precisas.

Queria escrever uma música só para ele
Encontrar a canção perfeita.
Mas do meio da tempestade só conseguiu gritar-lhe, escolhendo o gesto, o tom, olhando com toda a ternura esperando que ele a lesse, palavras simples, para que não houvesse enganos:
- "Gosto muito de ti!"


https://www.youtube.com/watch?v=uv86TawSeEQ


quarta-feira, julho 13, 2016

domingo, julho 10, 2016

the girl who loved the unknown

Once upon a time there was a girl…
Just like most other girls.
People looked at her and saw a Woman, but, most of the time, she felt she was just a little girl.
Any way…
She fell in love.
For someone she hardly knew (don't we ever? fall in love for whom we just don't know?)
Maybe… that she invent a guy that doesn't exist….
Maybe…. that she chooses to see only what she wants
Maybe… that for being distant she can read him as no one other
Maybe… that for having nothing to lose they have given each other only their truth

One thing is for sure
There was magic!
And nobody wants to go away from magic!


quarta-feira, julho 06, 2016

Auzenda




Todos os dias Auzenda se sentava perto da máquina do café.
Se gostava de café? Gostava claro! Mas mais do que do café gostava da conversa.
Os amigos… já os tinha perdido quase todos.
91 anos… muitas histórias, muitas perdas, muitas memórias.
E ali ia falando com quem passava e parava um bocadinho. Mas não pensem que eram tristes as suas histórias. Eram ricas isso sim. De uma vida cheia!

Mas é tão diferente ser a D. Auzenda ou a Zi…
A Zi que foi para quem a amou, pais, amigos, marido
Lamentou sempre os filhos que não teve, mas essas histórias estavam reservadas para os que a tinham como Zi.

A D. Auzenda… era paciente, partilhava com quem a quisesse ouvir aventuras de uma vida, e guardou o dom de saber ouvir
A Zi, de uma doçura…

E houve um dia que a Auzenda não apareceu para o café…
Não voltará mais.
Partiu sem estardalhaços e sem dar trabalho a ninguém.
Fazem hoje falta as suas histórias. Mas vão-se ouvindo as músicas de que gostava.

sábado, julho 02, 2016

Olhos nos olhos

"Se espreitares os meus olhos encontrarás a sombra das aves.
Se não espreitares, encontrarás as aves, mas não saberás como os meus olhos brilham quando me olhas."

António Vilhena
In, "Canto Imperecível das Aves"