terça-feira, abril 24, 2018

Acabou

Terminou hoje o concurso de escrita criativa em que aqui a Boop se meteu.
Terminei num honroso 16º lugar (cerca de 200 inscritos - alguns foram ficando pelo caminho)
Constatei que os textos que menos gostei foram aqueles em que obtive melhor pontuação... pronto... teremos critérios diferentes... fazer o quê?!!?

Deixo-vos o último - um dos que eu não gostei, mas eles sim!
(e perdoem-me os "ouvidos" mais sensíveis, não tenho como costume dizer tanto palavrão!)


Na noite de Natal é sabido que ninguém anda de autocarro!
Todos jogam aquele jogo hipócrita das famílias felizes de pais e filhos amantíssimos, onde a tia velha é resgatada ao lar imundo onde foi largada para apodrecer, e se convida o vizinho que anda sozinho o ano inteiro sem ninguém lhe ligar patavina.
Acontece que eu sou o vizinho.
E este ano mandei-os todos à merda!
Não quero saber da família perfeitinha de ninguém. 
Que a metam no cu se quiserem!
Dá-se que preciso de apanhar o autocarro.
Preciso pode dizer-se que é uma figura de estilo.
Não vou ficar em casa a olhar para ontem como um velho a definhar!
Estou sozinho porque quero, entendem!?!
E faço o que me apetecer!
E quero apanhar o autocarro!
A porra da rua está deserta e não vejo um autocarro há uma eternidade. Sinto o cheiro a paz podre que exala das casas todas. 
Dá-me fome! 
Uma posta de bacalhau é que era!
Tenho o velho hábito de ir espreitar os caixotes de lixo da paragem, não fazem ideia das coisas que já lá encontrei, uma vez até dei com um bilhete da lotaria, mas não me calhou nada.
Hoje nem lixo há.
Só papelada. Mas não há mais nada para fazer.
Até uma carta, ou um bocado de carta, uma tira, escrita com uma letra miudinha e retorcida.
Diz assim: “... e custou-me muito  (...) vou passar o Natal com a Rita (...) não quero que penses que (...) e ficar com o bebé. Tu não (...) vais fazer-me falta (...) que fiques triste (...)”
Foda-se! Quem é que abandona alguém na noite de Natal?
Mas que belo presépio!
O envelope tem remetente.
É isso que vou fazer esta noite.
Vou encontrar a casa deste filho da mãe.

segunda-feira, abril 23, 2018

P.S.

Vou até ao Brasil e já venho
(levar trabalhos a congressos é sempre um bom pretexto para viajar!)

domingo, abril 22, 2018

Miguel Torga

(A procurar material para um trabalho que vou levar a um congresso na próxima semana. E vou-me perdendo, aqui e ali, o que acontece sempre quando me demoro na poesia)


Apelo

Porque
não vens agora, que te quero
E adias esta urgencia?
Prometes-me o futuro e eu desespero
O futuro é o disfarce da impotência....

Hoje, aqui, já, neste momento,
Ou nunca mais.
A sombra do alento é o desalento
O desejo o limite dos mortais.





O'Neill

(A procurar material para um trabalho que vou levar a um congresso na próxima semana. E vou-me perdendo, aqui e ali, o que acontece sempre quando me demoro na poesia)


O AMOR

é o amor
O amor é o amor - e depois?!
Vamos ficar os dois
a imaginar, a imaginar?...

O meu peito contra o teu peito,
cortando o mar, cortando o ar.
Num leito
há todo o espaço para amar!

Na nossa carne estamos
sem destino, sem medo, sem pudor,
e trocamos - somos um? somos dois? -
espírito e calor!

O amor é o amor - e depois?!



Alexandre O'Neill
in:Abandono Vigiado(1960)





sábado, abril 21, 2018

Prince

Prince
Há 2 anos já....
Foi/é lembrado aqui.






sexta-feira, abril 20, 2018

Apeteceu-me! :)



"Num único beijo saberás tudo aquilo que tenho calado"


Pablo Neruda



quarta-feira, abril 18, 2018

Cinema servido ao almoço

Não há fome que não dê em fartura de quando em vez.
Quis o acaso que os meus horários se organizassem para ontem e hoje ter umas horas de almoço mais prolongadas.
(não vale a pena ter inveja porque acabei por sair perto das 21h nos dois dias!)

E rumei ao cinema!
Ontem com "Madame"
Hoje com "Lady Bird"

Na verdade gostei dos dois!
A ver se tiverem oportunidade!






PS - Poderia escrever sobre o facto de hoje ter estado completamente sozinha na sala de cinema - mas fica para outro dia! - digo só que foi agradável a experiência!

sábado, abril 14, 2018

Amo o que vejo

A vista da minha primeira casa (onde estou agora temporariamente).
De que vou gostar para sempre!
Amo o que vejo porque deixarei 
   Qualquer dia de o ver. 
   Amo-o também porque é. 

No plácido intervalo em que me sinto, 
   Do amar, mais que ser, 
   Amo o haver tudo e a mim. 

Melhor me não dariam, se voltassem, 
   Os primitivos deuses, 
   Que também, nada sabem. 

Ricardo Reis, in "Odes" (Inédito) 
Heterónimo de Fernando Pessoa 

quinta-feira, abril 12, 2018

Trago o mundo no banco de trás

E de repente, do banco de trás do carro, começa a ouvir-se a voz de um menino de 9 anos a cantar um poema de Camões com quase 500 anos, musicado por Zeca Afonso há quase 50.
E é tão bonito!
O poema, a cadência, e a voz do menino Boop.

(E é também nestes momentos que agradeço à escola onde está, que ensina tão mais do que o estipulado por directrizes ministeriais)




domingo, abril 08, 2018

Mais um

(Escrito como resposta a um dos desafios do campeonato de escrita criativa)




Havia na quinta uma alameda de árvores frondosas, que na primavera se enchiam de verde, folhas pequenas, que preguiçosamente escureciam e em câmara lenta cresciam e se deixavam ficar até ao Verão, e que no inverno permaneciam estoicamente despidas, com os seus braços de infinitos dedos, que pareciam donos dos segredos que a tanto custo tentava esquecer.
Eram esses ramos de um castanho acinzentado que invadiam os meus pesadelos naqueles dias em que me deixava vencer e me dirigia ao bar mais próximo e perdia a conta aos copos que bebia.
Invariavelmente chegava a casa sem saber como, e num não pensamento aterrava no sofá verde da sala.
O não pensamento.
Foi isso que comecei a chamar-lhe com o decorrer dos anos.
A vulnerabilidade que experimentava quando a minha cabeça desligava, e ficava sujeita a todo o tipo de recordação.
O pior não eram as lembranças na verdade. 
O pior era lembrar-me do que não cheguei a ver.
Nos piores dos meus pesadelos está o lago no fim da alameda das árvores nuas.
E no fundo do lago um emaranhado tufo de finos ramos, como se de um ventre mortífero prestes a parir o inominável se tratasse.
E eu sou chamado, seduzido, num misto de excitação e terror, aproximo-me da margem, quero domar as águas, possui-las, numa tensão sensorial que me confunde e me inebria. 
E é então que o vejo. O corpo, como um nado morto, a boiar na superfície do lago, e quando o corpo se vira acordo sempre.
Mas sei que no sonho o corpo não é o do João, é o meu.

Já bebi quatro copos hoje.
Já sei que o não pensamento se vai instalar.
Não tenho coragem de ir para casa
Peço mais um copo, se calhar se beber mais não serei capaz de sonhar.



quarta-feira, abril 04, 2018

Comunicar




Consegui organizar a minha semana para estar hoje com a prole ainda em férias de páscoa como é sabido.

Fomos ao NEWSMUSEUM, que ocupa o espaço do antigo museu do brinquedo em Sintra.
Gostamos mesmo muito! Pudemos ser repórteres de TV, locutores de radio, fazer jogos e viagens por um universo virtual - recomendo MESMO a visita.

Uma das salas é dedicada ao jornalismo de guerra. Tem excertos de reportagens, elabora sobre o papel e o poder dos órgãos de comunicação social, e da informação em si.
Às tantas deparei-me com o vídeo que aqui coloco.

Como partilhei o Mr Boop esteve agora 1 mês no Iraque (regressou este fim de semana e correu tudo muito bem, obrigada!), e antes disso andou por outros cantos esquecidos do mundo, Sudão do Sul, Congo...
Nunca foi por dever, mas sim por escolha, ou uma demanda interna se assim o quiserem. 
Mas sempre pudemos falar diariamente, uns minutos, poucos, de vídeo chamada, e tranquilizavamo-nos de parte a parte.

Comoveu-me ouvir estes homens.
Longe e incomunicáveis. 
E percebi o quão importante deve ter sido, para os próprios e para a família, vê-los e ouvi-los. Sabe-los vivos. 
Esquecemo-nos com demasiada facilidade o quão diferente era o mundo, o quão mais distantes estávamos. 

Olhem...
Se puderem, passem por lá!

domingo, abril 01, 2018

Traduz-te Em Força

Tenho amigos por esse mundo fora.
Acho que todos nós temos, não?
Emigrantes / imigrantes - que recebamos como gostaríamos de ser recebidos.
Achei este projecto muito interessante!


Portugal tem, incontornavelmente, uma enorme comunidade de imigrantes. De acordo com dados do PORDATA, em 2016, as comunidades com mais presença em Portugal são naturais do Brasil (79.569 mil), Cabo-Verde (36.193 mil), Ucrânia (34.428 mil), Roménia (30.429 mil) e China (21.953).
As mulheres imigrantes são comumente consideradas “as minorias das minorias”, no sentido em que, ao serem mulheres e ao viverem num país que não o seu, se encontram numa situação mais irregular e inconstante. Como agravante a este cenário, estas mulheres são ainda, não raras as vezes, confrontadas com preconceitos ou obstáculos, seja em termos legais, culturais, económicos, hospitalares, escolares, sociais entre outros.
A nível social, por exemplo, no livro Imigração e Etnicidade – Vivências e Trajectórias de Mulheres em Portugal (2015) Clara Almeida Santos analisa 210 peças de impressa portuguesa em oitos jornais nacionais e percebe que prostituição (124 peças), clandestinidade (50 peças) e crime (26) são os temas associado à comunidade de mulheres imigrantes.
Longe destes estereótipos, pretendemos que as mulheres imigrantes surjam associadas a uma imagem de enaltecimento feminino. Assim, nasce a campanha de sensibilização Traduz-te Em Força. O principal objetivo é transmitir uma mensagem de força às mulheres imigrantes, de levantamento espiritual, que lhes cause um sentimento de conforto e identificação. Acima de tudo – e tendo em consideração a visão estereotipada que estas mulheres enfrentam – queremos que esta campanha sirva como um impulso para uma atitude emancipada que as faça enfrentar todas as dificuldades inerentes ao facto de serem mulheres e imigrantes. Ao mesmo tempo, pretendemos que esta campanha sensibilize todas e todos os portugueses para esta temática, a fim de estimular uma sociedade com menos clivagens sociais e mais harmoniosa a nível multicultural.