domingo, março 31, 2019

sexta-feira, março 29, 2019

Tesoura de Poda

Carlos Farinha - Pruning shears (tesoura de poda) 
"She always walks with pruning shears because the world is full of spikes" - C Farinha

Sentada à secretária via o tempo escoar-se na ampulheta de areia fina á sua frente. Não sabia ao certo se não pensava em nada ou se reflectia no mistério de serem tão finos os grãos daquela areia. É indiferente na verdade. Que tais reflexões não se podem apelidar de pensamentos. Pensamentos eram exactamente o que evitava ao sentir-se hipnotizada pela cor rosea do "quase pó".
Era raro verem-na assim, quieta e de olhar perdido.
Mas todas as guerreiras precisam de um descanso.
"Guerreira" - sorriu. E com este sorriso despertou do transe.

Sabia que não era uma heroína, dessas que aparecem nos telejornais, que cruzam oceanos para regiões distantes, que iniciam movimentos mundiais, ou que oferecem o corpo às balas. Dessas haverá poucas no mundo - pensava.
Mas tinha aprendido, que havia duas maneiras de viver (haverá tantas mais, para para ela - duas!)
Uma que se passa quando mergulha na sua ampulheta, monocromática e previsível, de uma suavidade tentadora mas mentirosa, protegida no seu canto atrás do teclado e de um mundo escolhido a dedo.
E a outra... incerta, que não há rosa sem espinhos.
Em que ser "Eu" era uma constante aventura. Um mundo colorido de todas as cores, das mais brilhantes às mais sombrias, repleto de maravilhas e armadilhas. Cheio de gentes para descobrir - o que ela gostava de pessoas! - e de pequenas tarefas que não sendo dignas de heróis (desses de que o mundo fala), abriam o caminho que trilhava sempre de peito aberto e cabeça erguida.
Tinha-se preparado para os espinhos. Não os temia. Acompanhada, na sua jornada solitária, de todos os homens e mulheres que a habitavam (que rica se sentia), saía sentindo-se a(r)mada.  A sua arma? O seu pensamento e a sua voz!

Desde que permanecesse acordada para o imenso (e intenso) mundo sabia que não se transformaria no fino pó da sua ampulheta.



quarta-feira, março 27, 2019

Rever

Acabei de rever o “Django”
Gosto do Tarantino!
(Mas há cenas “muita” violentas que me fazem um nó no estômago)



segunda-feira, março 25, 2019

Estou-me borrifando!


Quem me dera ser mais capaz deste sentimento.
Às vezes daria muito jeito!!!

6/30 Frankie e o Casamento



Mais um livro genial da Carson McCullers
Curiosamente os livros que mais gostei da autora contam histórias de meninas no início da adolescência. Tem uma capacidade extraordinária de nos fazer mergulhar nas suas vidas e nos seus dilemas.

terça-feira, março 19, 2019

(Im)Perfeições

Aqui há tempos ia sozinha com a menina Boop no carro e do nada sai-se com esta:
(Imaginem um balão de discurso a sair desta cabecinha linda, e um tom meio surpreendido)


- Mãe, o pai é o homem perfeito!
   É divertido!
   Trabalhador!
   Responsável!
   Carinhoso!

Limitei-me a sorrir
Não será o homem perfeito, mas é seguramente um pai maravilhoso!

domingo, março 17, 2019

Ser em construção

Calos Farinha - Greta "I started to believe again in mankind"
- Mãe quero perguntar-te uma coisa. Sabes o que vai acontecer na 6ª feira?
- A greve? por causa das alterações climáticas'
- Sim. Se eu fizer greve justificas-me as faltas?
- ???

A conversa prosseguiu.
Construir uma consciência política (não falo de definições partidárias) terá os seus degraus.
Na verdade o que tentei perceber foi o processo interno de envolvimento na causa.
Para mim, o aderir a uma greve sempre foi uma questão de convicção, e por isso mesmo um assumir de consequências - a perda de um dia de ordenado por exemplo (e olhem que tive as minhas discussões laborais por causa disto).
Mas nunca quis impor as minhas convicções a seja quem for, mesmo aos meus filhos!

Senti a menina Boop a meio do degrau.
"Acredito na causa: greve estudantil pelo clima
Mas só vou se os meus colegas também forem... não vou ser a única, não è?"
(A questão da justificação das faltas acho que era só para nos tranquilizar a nós, e dizer que na escola não a penalizariam por isso. Mas também seria sinal de não estar convictamente a abraçar a causa pela qual dizia querer dar voz? )
Tem 15 anos acabados de fazer. Percebo que não queira ir para o meio de Lisboa sozinha para o meio de uma multidão sem o suporte dos seus pares - nem todas as raparigas são uma Greta Thungerg! 
E que necessite de aprovação e suporte nas suas decisões.
- Claro que podes ir, tenhas falta ou não.

Mas esta questão ainda me vai dar que pensar.
Ter consciência cívica é realmente um processo, de integração de modelos, exemplos, aprendizagens, descobertas,...
Tenho que rever o meu lugar nesse processo!

Fotografia da Revista Visão


sexta-feira, março 08, 2019

quarta-feira, março 06, 2019

Convictamente!


O prazer está (também) nas pequenas coisas.
Licitas ou nem tanto...!
Por mim OK desde que não prejudiquem ninguém!

sábado, março 02, 2019

Viúva Lamego

Como sabem ainda ando de volta com caixas da mudança.
Parte das nossas coisas estiveram 1,5 ano em caixas e não nos fizeram falta nenhuma, por isso..., vão sendo vistas/selecionadas/oferecidas/guardadas devagar, ao ritmo que vai dando jeito.
Hoje dei com umas peças da Viuva Lamego (não a da imagem, mas parecida). Não me recordo bem como cá vieram parar - seguramente do desmancho da casa da minha avó ou da minha tia-avó.
Por curiosidade fui ao OLX ver quanto valiam e... UAU!! Será que vou usar isto?!?

Mas tenho uma política!
O que eu tenho é para usar!
Portanto: usar!


Dias de infância

Há lugares, muito poucos, onde se pode refugiar.

Em dias como o de hoje queria poder voltar atrás, a um tempo que na verdade sabe que nunca existiu mas que foi fabricando sem se aperceber, reconstruindo a sua própria história a cada vez que a visitava.
Sentir-se segura.

Imaginava um jardim, um baloiço, o verde, as árvores, o embalar... mas não iria ser suficiente... seria mais uma espécie de comiseração. (Também para a magia de um baloiço há um tempo que não volta.)

Ontem recebeu um telefonema que a desarrumou.
Profissional.
Um trabalho que foi cancelado.
Sente-se infantil por se deixar perturbar por isso.
Por se questionar...
Fará TUDO mal?
Tudo, é tudo! Um sentimento de incompetência que de repente atravessa como uma flecha de fogo todas as áreas da sua vida. TODAS! E o fogo alastra, destrutivo e implacável.

Mas quem seria ela se não se deixasse perturbar?
Acarinha cada sobressalto do seu coração, cada vez que se comove, que se aquece - seja com zanga, desejo, ou ansiedade, que se ri com vontade, que espera.
Sim, isso também aprendeu. Que viver, é sentir. E suportar a intensidade dos seus afectos, e que nos afectos se encontra finalmente a si própria. Crescer para ela foi isso. Aprender a não temer os afectos, os dela e os dos outros. Embora tema às vezes... no mais intimo de si, nestes dias em que queria voltar a esse tempo sem tempo.

Hoje, queria um refúgio. Alguém que fizesse o impossível e a fizesse sentir que estava TUDO bem. Que fosse um pouco de infância, um pouco de colo, um pouco de porto seguro.
Sabia, porque era sempre assim, que bastaria uma palavra simples, um afecto genuíno, para a repor no mundo dos adultos e da relatividade desta solidão acompanhada em que se vai caminhando. Saber que se sobrevive à infância idealizada, e que é como adultos que podemos verdadeiramente Ser.

E eis que, numa troca de mensagens banal, e de onde menos esperava, um amigo devolve-lhe o que lhe faltava hoje. O sentir-se reconhecida. O afecto desinteressado de quem nada deve e nada espera. E percebeu que este lugar de pertença não é afinal um retorno à infância perdida, é um aqui e agora, efémero, sem lugar cativo, mas imprescindivelmente de Verdade.




sexta-feira, março 01, 2019