segunda-feira, julho 27, 2015

O Jantar III

O Jantar I   O Jantar II

Ela queria ligar para ele mas não podia.
Há meses que não falam.
Escreve-lhe de tempos a tempos sem esperar resposta.
Diz-lhe de si, sem filtros nem reservas.

Acredita que ele sabe porquê.
Que não porá ninguém no lugar dele.
Não acredita em substituições.
Não quer troca-lo por outro - seria mais fácil talvez.

Sentirá até ao fim o que tiver para sentir.
Enquanto a vida continua
Mas é esta a sua verdade.
O que é dele não será dado a mais ninguém.
          ____________

E o Sérgio vai lendo a Rita...





segunda-feira, julho 20, 2015

Brincar na rua


Diz-me a minha mãe: "Andas na rua desde os 2 anos!"

Que bom era!
Brincar na rua.
Conhecer as crianças das redondezas (e os adultos também).
Voltar para casa só à hora de comer. (ou obedecendo ao chamar da minha mãe que sabia que eu não andaria longe)
Entrar e sair livremente na casa dos vizinhos.
Sentir-me segura no meu mundo.

:)



sexta-feira, julho 17, 2015

Incontornável




Na verdade nunca ouço Jaques Brel, mas hoje deu-me para aqui.
E o homem é de facto incontornável.
Sem saber que música publicar/escolher.


Por isso deixo-vos também as inesquecíveis:

Ne me Quite Pas

La chanson des vieux amants

quarta-feira, julho 15, 2015

O Jantar II




O jantar I

O jantar decorreu sem incidentes.
A comida de excepção, a conversa estudada ao milímetro decorreu a favor dos interesses da embaixada.
O evento: um sucesso!
Sabe que conseguiu encantar quem devia. Tinha a estratégia delineada. Um toque de sedução ao empresário, com um sorriso discreto na altura certa. O conseguir a aliança da esposa e garantir que os seus interesses seriam tidos em conta. E mediar a presença do embaixador, e vendê-lo como um homem sério que honra os seus compromissos.
Talvez desta vez recebesse o bónus que sentia que merecia já há tanto tempo.

O Sérgio não apareceu.
Ao princípio a sua ausência assustou-a.
Não foi só o buraco de tantas expectativas logradas. Foi também (e surpreendentemente especialmente isto) o ter de estar a solo e assumir o jantar sozinha.

Mas o jantar não podia ter corrido melhor!
Permitiu-se a um passeio pelos bonitos jardins da embaixada, sabe que terá de voltar. A noite não terminara ainda. Precisava respirar.
Ouvia a música e puxou de um cigarro (nunca bem visto aos olhos do embaixador)

Não tinha precisado do Sérgio!
Uma agradável sensação de controlo tomou conta dela.
Era mais forte do que pensava.

O telemóvel tocou.
E as defesas dela caíram por terra.
Mensagem do Sérgio:
"Como correu o jantar?"

segunda-feira, julho 13, 2015

Tenho uma costela romântica. Fazer o quê? :)

- Tens medo de fazer amor comigo?
- Tenho - respondeu ele.
- Por eu ser preta?
- Tu não és preta.
- Aqui, sou.
- Não, não é por seres preta que eu tenho medo.
- Tens medo que eu esteja doente...
- Sei prevenir-me.
- É porquê, então?
- Tenho medo de não regressar. Não regressar de ti.

Mia Couto
in Venenos de Deus, Remédios do Diabo

sábado, julho 11, 2015

Debaixo da roupa estamos todos nus.

Este é o título de uma crónica do José Luis Peixoto, publicada já há uns anos, na verdade não sei bem onde. Falava ele da sua pele, tatuada e furada (piercings), e do preconceito explícito ou intuído, nos olhares dos anônimos que com ele se cruzam.

Tive uma vez um paciente que logo na 1ª sessão me pediu (avisou?) "não toque nas minhas tatuagens" Acabámos por falar nelas eventualmente, ou talvez mais sobre esta defesa da pele marcada, o conteúdo foi um dia explicado por ele, livremente e sem pressão.

Mais difícil é falar de cicatrizes, memórias de doença e sofrimento, não escolhidas e não planeadas. E de como se toca e deixa tocar esse corpo marcado. Como se ama após a doença, Como se expõe o corpo a terceiros depois dos acidentes. Corpo que não se reconhece, sentido como estranho, feio, morto.

Mas na verdade cicatrizes todos temos.
Visíveis ou não.
E por baixo da roupa todos estamos nus.
E o mostrar o corpo a alguém é um acto de entrega.




sexta-feira, julho 10, 2015

Casamentos e funerais

Há ocasioes em que se encontram pessoas que já não se via há muito tempo.
Ontem cruzei-me com pessoas que não via há uns... 30 anos? (Menos talvez... 25?)
Às tantas alguém me diz "olha a I! Estás tão crescida!"

"Estás tão crescida"?!?!
Sorri

Com 42 anos estamos crescidos sim...
Há mais de 20 anos não me diziam isso.
Mas foi espontâneo. Sentido.
O constatar de um tempo que passou.

Lembram-se da forma como em crianças olhavamos para os adultos? Tão crescidos, resolvidos, seguros, sábios, eram um poço de certezas!
Depois tornamo-nos "um deles" e às tantas percebemos que a idade não conta para nada. Que há medos que permanecem, dúvidas, etc... etc... Ficamos todos "adultos". E não deixamos por isso de ter momentos serenos e seguros. Mas já não há um "nós" é um "eles".

Digo-vos:
É delicioso reencontrar esse lugar de menina, e contarem-nos com ternura a forma como brincavam connosco. Como eu gostava que me fizessem dar cambalhotas, como corria de sorriso aberto para  abraço de "um crescido"
Ontem fomos "iguais", mas com a inocência de há muitos anos.

(A sentir-me agradecida)

domingo, julho 05, 2015

20 anos


Hoje vou ter o privilégio de me reunir para almoçar com 60 das cerca de 90/100 que fizeram o curso comigo.
Terminamos há já 20 anos.
Os anos de faculdade foram para mim muito importantes. O meu ano fantástico!
As pessoas que conheci, todo um mundo que aprendi, as portas que se abriram.
Lembro-me do fim… e agora?
Os dias de estudo terminaram, como é estar na vida sem ser estudante?

20 anos depois…
É com um sorriso enorme que me preparo para este reencontro.
Levo comigo álbuns de fotografia, memórias, mas a cima de tudo vontade de os rever!

Bem hajam!
:))))))))))))))

sábado, julho 04, 2015

Sushi Fest


Hoje levamos a pequena Boop ao Sushi Fest
Já sem confusão nenhuma (depois de um primeiro dia que consta ter sido muito complicado)
Barrigada de Sushi!
Miúda Feliz!

quinta-feira, julho 02, 2015

O jantar I

O radio estava ligado.
A Rita deixou-se estar deitada em cima da colcha da cama.
Tinha-se já arranjado para sair.
Um vestido azul escuro, quase preto, corte discreto, com um decote generoso nas costas.
Sabia que lhe ficava bem.
Conseguia com ele o ar destinto que precisava para aquela noite.
Por momentos ia ter de se esquecer que ele "morava ainda no seu peito".

Two women siting at a bar 1902 Pablo Ruiz y Picasso
Sentou-se no toucador.
Hoje tinha de estar perfeita.
Quase não reconhecia a mulher que a olhava de volta no espelho. Não pela maquilhagem que quase nunca usava, nem pelos brincos clássicos tão diferentes dos que usava no dia a dia. Sentiu a falta da centelha que lhe iluminava os olhos. Tinha-se ido com ele.

música mudou.
Quase se irritava ao sentir-se tão reconhecida naquela voz stereo que enchia o quarto.
Mas a música mentia. Que ambivalência!
Ela não tinha querido partir.
E sabia-se num tumulto por de trás da aparência seráfica.

Hoje ia vê-lo.
Iam sentar-se frente a frente como pede o protocolo.
E Rita sabe! Que querendo, ele a desmonta em três tempos.
Que o tempo perde o lugar.
Que basta um toque para da nascente jogar tudo de novo.
Respira fundo. Isso não vai acontecer!
Não sabe o que se passa dentro dele. Se calhar…. nada!

O carro chegou.
Está na hora